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Psicose: o que é, como se manifesta e tratamento

Psicose: o que é, como se manifesta e tratamento

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Imagem de perfil de Saulo Ciasca

Confira o artigo completo do psiquiatra Dr. Saulo Ciasca sobre psicose e a atuação do profissional de medicina! 

A psicose é um transtorno mental grave que afeta a percepção da realidade do indivíduo. Por ser uma condição que causa muita angústia e sofrimento no paciente e em pessoas próximas, é importante que o médico esteja preparado para manejar casos de psicose. 

O manejo correto dos casos permitirá oferecer um tratamento adequado e eficaz para os pacientes. Além disso, pode ajudar a prevenir recaídas, melhorar a adesão ao tratamento e promover a recuperação da saúde mental do paciente. Vamos aprender mais sobre o tema com o Dr. Saulo Ciasca? 

O que é psicose?

A psicose é um estado mental patológico caracterizado pela perda de contato do indivíduo com a realidade, que passa a apresentar sintomas como delírios, alucinações, pensamento e fala desorganizados e comportamento motor inapropriado — incluindo catatonia.

Causas 

A psicose é uma síndrome que pode ser causada por inúmeros fatores, desde sociais (abuso de substâncias psicoativas e isolamento social por exemplo) como psicológicos e genéticos (presença de transtornos mentais e fatores hereditários).

Algumas possíveis causas incluem:

  • Transtorno bipolar
  • Depressão grave
  • Mal de Alzheimer
  • Esquizofrenia
  • Uso de substâncias psicoativas, como maconha e cocaína
  • Estresse psicológico severo
  • Privação grave do sono
  • Epilepsia
  • Abstinência de álcool
  • Infecções e cânceres do sistema nervoso central
  • Lúpus
  • Insuficiência renal e hepática
  • Cistos no cérebro ou tumores cerebrais
  • Acidente vascular cerebral (AVC)
  • AIDS
  • Sífilis

Tipos de psicose

A psicose é categorizada em quatro grupos principais, com base em suas respectivas causas, sendo eles:

  • Resultante de uma condição mental ou psicológica, como esquizofrenia ou transtorno bipolar;
  • Induzida pelo abuso ou abstinência de substâncias psicoativas e álcool;
  • Reativa breve surge como resultado de um evento extremamente estressante;
  • Orgânica que é causada por uma lesão cerebral ou enfermidade física que altere o funcionamento cerebral.

Sintomas da psicose

Os principais sintomas da psicose são o delírio, a alucinação e a desorganização do comportamento e pensamento. Destaca-se que a intensidade pode variar de pessoa para pessoa e se alterar com o decorrer do tempo. 

Alguns dos principais sintomas incluem:

Pensamento confuso

O modo que a pessoa encontra para se expressar costuma ser alterado, não havendo conexão entre as ideias. Nesses casos, as frases emitidas pelo paciente podem não ter sentido ou não serem claras. 

Há inúmeras alterações clássicas do pensamento como roubo do pensamento, transmissão do pensamento e outras. No roubo do pensamento a pessoa acredita que um pensamento seu foi roubado por outra pessoa. Na transmissão a pessoa refere que consegue transmitir seus pensamentos para outras pessoas ou captá-los. 

Delírios

Os delírios são ideias não compartilhadas que fogem da realidade e que são experimentadas com uma extrema convicção da pessoa, sendo inargumentável. 

A falsa ideia de perseguição está entre os principais tipos de delírios, caracterizada por sentimentos de medo e desconfiança constante. Uma pessoa delirante pode, ainda, achar que tem poderes especiais ou que a televisão ou o rádio estão mandando mensagens diretamente a ela.

Alucinações

As alucinações são percepções falsas da realidade. O indivíduo ouve vozes, vê coisas que não existem, sente cheiros esquisitos e pode ter sensações táteis desagradáveis. 

Há inúmeros tipos de alucinações: 

  • auditivas, 
  • olfativas, 
  • visuais,
  •  cenestésicas,
  •  cinestésicas, 
  • táteis, etc.

Comportamento alterado

Os indivíduos podem ficar tanto ativos quanto letárgicos. Podem permanecer a maior parte do dia deitados ou sentados imóveis, assistindo televisão. 

Se antes essas mesmas pessoas eram comunicativas, de uma hora para a outra, elas podem não querer mais conversar com ninguém, preferindo ficar sozinhas no quarto, recolhida — como também pode acontecer também o inverso. Também podem falar ou rir sozinhos sem nenhum estímulo aparente.

Como é feito o diagnóstico da psicose?

A anamnese psiquiátrica é o métodos utilizado para diagnosticar um quadro psicótico. Alguns testes laboratoriais também podem ser solicitados, como: 

  • provas de função renal e hepática,
  •  eletrólitos,
  •  hemograma, 
  • função tireodiana,
  • dosagem de metabólitos, 
  • sorologias para sífilis, HIV, FAN e outros que venham a ser necessários. 

Exames de imagem como ressonância magnética cerebral e tomografia computadorizada também são importantes. 

A importância de buscar ajuda médica 

A pessoa com psicose, em virtude dos sintomas do quadro, não apresenta crítica ou reconhece a situação — uma vez que há apreensão incorreta da realidade. Por isso, é importante que, a partir do surgimento dos primeiros sinais, um familiar procure ajuda médica especializada. 

Há a necessidade de avaliar critérios de gravidade como baixo suporte familiar, alucinações imperativas ou de comando que mandam a pessoa se matar ou matar alguém, autoagressividade ou heteroagressividade e crítica muito baixa colocando a pessoa ou outras em risco. 

Nesses casos, é necessária a internação hospitalar para controle sintomático e melhora psicopatológica.

Como conduzir o tratamento dos casos na prática médica?

O tratamento da psicose depende da causa e do tipo de psicose. 

Na esquizofrenia deve ser tratada com antipsicóticos (haloperidol, risperidona, olanzapina, quetiapina). Utiliza-se preferencialmente um antipsicótico de 2° geração (risperidona, olanzapina, ziprasidona, por exemplo) por 6 semanas com aderência. Se a pessoa não melhorar, indica-se a troca por outro antipsicótico por mais 6 semanas. 

Não havendo melhora, a esquizofrenia é refratária, devendo-se indicar a clozapina. 

Já no quadro maníaco, pode-se associar um estabilizador do humor com antipsicóticos. Pessoas que têm psicose induzida por substâncias devem ser motivadas a permanecerem abstinentes para o controle sintomático. 

É sempre importante trabalhar também com a família do paciente psicótico, que pode piorar ou melhorar o prognóstico a depender do sub ou superenvolvimento emocional gerado. 

Trabalhar capacidade de autonomia, retorno às atividades de vida diária, retorno ao trabalho e ressocialização são metas fundamentais que podem ser atingidas através de psicoterapias, terapia familiar e terapia ocupacional.

Referências do artigo

Lieberman JA, First MB. Psychotic disorders. New England Journal of Medicine. 2018 Jul 19;379(3):270-80.

McCutcheon RA, Marques TR, Howes OD. Schizophrenia—an overview. JAMA psychiatry. 2020 Feb 1;77(2):201-10.

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