Desde o início da pandemia da atual síndrome respiratória aguda grave (SRAG) causada por um novo tipo de Coronavírus, o SARS-CoV-2, alguns questionamentos relacionados a sua evolução passaram a ser frequentes, como a diferença da gravidade atingida pelo vírus no corpo adulto em comparação ao corpo da criança. Crianças e jovens infectados com a síndrome têm doença mais branda do que os adultos e, portanto, a mortalidade é rara. As razões para as diferenças nas manifestações clínicas são desconhecidas, o que levou profissionais da saúde e estudiosos da área a diversas hipóteses acerca da ação direta do sistema imune nesse processo.
Diferenças entre Resposta Inata de adultos e de crianças para SARS-Cov-2
Um estudo publicado na revista Science Translational Medicine, dia 07 de outubro de 2020, indica que a resposta pode estar no comportamento do sistema de defesa dos mais jovens. De acordo com os pesquisadores da Yale University e Albert Einstein College of Medicine, nos Estados Unidos, as crianças expressam níveis mais elevados nas concentrações séricas de Interleucina-17A, ou IL-17A, (que embora produzida principalmente pelas células T, ativa muitos dos eventos sinalizados por citocinas da resposta imune inata) e Interferon-γ, ou IFN-γ, (que combate a replicação viral, e age como um dos principais ativadores de macrófagos, atuantes diretos da resposta inata). Na pesquisa, notaram que os adultos montaram uma resposta de células T mais forte à proteína de pico viral em comparação com pacientes pediátricos. Além disso, os títulos de anticorpos neutralizantes séricos e fagocitose celular dependente de anticorpos foram maiores em adultos em comparação com pacientes pediátricos com COVID-19. O título de anticorpos neutralizantes correlacionou-se positivamente com a idade e negativamente com as concentrações séricas de IL-17A e IFN-γ. Juntos, esses achados demonstram que o resultado ruim em adultos hospitalizados com COVID-19 em comparação com crianças pode não ser atribuível a uma falha na geração de respostas imunes adaptativas, sugerindo então, que a falha de adultos seja portanto na primeira etapa de proteção, na resposta inata.
Resposta Imunológica Inata
Para entender melhor de que forma esse processo ocorre, é necessário que possamos compreender o que é e de que maneira a resposta imunológica inata atua. Desse modo, podemos afirmar que esta é a linha de defesa inicial contra microrganismos e é composta por mecanismos celulares e bioquímicos já existentes e completamente funcionais antes da infecção e que estão prontos para responder rapidamente a elas. Seus principais componentes são as barreiras físicas e químicas (epitélios e substâncias antimicrobianas produzidas nas superfícies epiteliais), as células fagocitárias (neutrófilos e macrófagos), células apresentadoras de antígenos, células matadoras naturais, proteínas do sangue e proteínas citocinas.
A resposta inata desempenha algumas principais funções, entre elas, controlar ou eliminar a infecção do hospedeiro por patógenos, reconhecer os produtos das células danificadas e mortas do hospedeiro para iniciar o processo de reparo tecidual, e estimular a resposta imunológica adaptativa (ou também chamada, secundária).
Nessa conjuntura, os macrófagos (dos quais recebem ativação direta do IFN-γ), as células matadoras naturais, que são citotóxicas e matam células infectadas, e IFN do tipo I (alfa e beta) fazem o reconhecimento e a apresentação do antígeno. Essas células têm função principalmente sinalizadora, como se avisassem o organismo de uma suposta invasão. A partir desse momento, a imunidade adaptativa é recrutada.
Ainda baseado no estudo da revista Science Translational Medicine, “a resposta imune precoce e forte resulta em uma resolução mais rápida da infecção viral e evita a liberação progressiva de citocinas e outros elementos que ocorrem na resposta imune adaptativa mais robusta”. Por conseguinte, artigos publicados em revistas como Journal of Clinical Investigation e The Lancet comprovaram que muitos dos casos moderados a graves da infecção por SARS-Cov-2 são resultado de uma “tempestade de citocinas”, o que causa uma resposta tão aguda do sistema imunológico que é capaz de agredir ao organismo. Isso ocorre devido à baixa efetividade desses mediadores químicos, que, como mecanismo compensatório para a inflamação, induzem a expressão de moléculas quimioatraentes relacionadas à atração de neutrófilos e monócitos para o tecido pulmonar, resultando em uma infiltração excessiva e consequente lesão.
Conclusão
Então, nesse cenário, e relacionando com a diferença de organismos entre adultos e crianças já citados, podemos entender e analisar melhor um dos porquês de disparidades de morbidade tão drásticas entre as infecções acometidas por esses indivíduos. Concluindo, por conseguinte, que a resposta imunológica inata ao SARS-Cov-2 por pacientes pediátricos demonstra uma melhor eficácia quando comparada a indivíduos adultos. Ainda nesse aspecto, é importante também ressaltar que essas disparidades não se dão apenas pela idade, mas por diferenças dos próprios sistemas individuais, o que explica a existência de casos de crianças e jovens agravados pela infecção por COVID-19. Além de darmos a devida atenção à resposta inata, que apesar de por certas literaturas ser visualizada apenas como uma etapa didática, é extremamente importante como linha de frente na proteção do organismo humano.
Autora: Marcela Saráty
Instagram: @marcelasaraty
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Referências
Immune responses to SARS-CoV-2 infection in hospitalized pediatric and adult patients – https://stm.sciencemag.org/content/12/564/eabd5487.full
Mecanismos de resposta imune às infecções – https://www.scielo.br/pdf/abd/v79n6/a02v79n6.pdf
Fundamentos da imunidade inata com ênfase nos mecanismos moleculares e celulares da resposta inflamatória – https://www.scielo.br/pdf/rbr/v50n4/v50n4a08 Covid-19: Sistema imune é nosso front de guerra – https://www.sanarmed.com/covid-19-sistema-imune-e-nosso-front-de-guerra-colunistas