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Resumo de Endometriose | Colunistas

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Confira nesta publicação um resumo de endometriose completo!

A endometriose, segundo da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), é “a presença de tecido do endométrio fora do útero, o que induz uma reação inflamatória crônica, esta condição é predominantemente encontrada em mulheres em idade reprodutiva” (CROSSERA et al., 2010).

A esta patologia, o tecido endotelial é proliferado para o exterior cavidade uterina, sendo este um tecido glandular que reveste inteiramente o útero.

É uma doença estrógeno dependente, ou seja, só está presente em mulheres em idades reprodutivas o que faz esta doença estar diretamente correlacionada com a fertilidade feminina, de caráter benigno, crônico e multifatorial. No entanto, a forma que a endometriose causa a infertilidade é incerta (CROSERA et al., 2010).

Epidemiologia da endometriose

Esta doença é de difícil levantamento epidemiológico pois, existe uma variação no numero de mulheres com endometriose assintomáticas sendo assim, um numero indeterminado. Acredita-se haver prevalência da doença entre 5% e 10% da população feminina em idade reprodutiva (Eskenazi e Warner, 1997). A endometriose pode ser dividida em três partes distintas: peritoneal, ovariana e profunda. A peritoneal caracteriza-se pela presença de implantes superficiais no peritônio; a ovariana, por implantes superficiais ou cistos (endometriomas) no ovário; e a endometriose profunda é definida como uma lesão que penetra no espaço retroperitoneal ou na parede dos órgãos pélvicos com profundidade de 5 mm ou mais (Nisolle e Donnez, 1997).

Fisiopatologia

A fisiopatologia da endometriose ainda é passível de novas descobertas, pois ainda não temos exatidão da sua origem, ou seja, se e de origem única ou distintas para as três doenças.

Há algumas teorias que foram propostas baseadas em evidências clínicas e experimentais, sendo a mais aceita aquela postulada por Sampson, conhecida como teoria da menstruação retrógrada (Sampson, 1927) que consiste no fluxo menstrual através das trompas uterinas, caindo na cavidade pélvica, o que pode causar nos pacientes alterações imunológicas e hormonal, fazendo com que gere uma inflamação intensa local pelo tecido endometrial estar localizado anomalamente causando aderências, criando um ambiente de citocinas inflamatórias provocando algias.

Para outras pacientes, o próprio sistema neutralizar esse tecido, fazendo a mulher se tornar assintomática. Além da teoria da menstruação retrógrada, há mais quatro teorias: metástase linfovascular, metaplasia celômica, restos embrionários ou Mülleriana e das células tronco.

Fonte: Patologia Básica Robbins, 9° ed, 2013.
Figura 1. Teorias de origem da endometriose.

Tipos de endometriose

  • Lesões superficiais peritoneais: lesão superficial no peritônio. A sua coloração viria de acordo com o seu tempo de desenvolvimento.
Fonte: https://www.drdanielfaundes.com.br/o-que-e-endometriose/
Figura 2: endometriose superficial típica.
  • Endometrioma: consiste em cistos de endometriose no ovário.
Fonte: https://www.drdanielfaundes.com.br/o-que-e-endometriose/
Figura 3: endometriose vesicular.
  • Endometriose profunda infiltrativa:  é considerada como profunda quando  invade mais do que 5mm de profundidade no tecido endotelial.
Fonte: https://www.drdanielfaundes.com.br/o-que-e-endometriose/
Figura 3: endometriose profunda: bloqueio de fundo de saco por aderências (seta).

Quadro clínico da endometriose

Os principais sintomas relacionados com a doença são (Bellelis et al., 2010):

  • Dismenorreia – com prevalência estimada em 62,2% como principal sintoma relacionado a doença;
  • Dor pélvica crônica ou acíclica – pode ocorrer de forma imprevisível ou intermitente ao longo do ciclo menstrual. Apresenta características diversas, como desconforto, dor pulsante e aguda, e frequentemente piora no decorrer do tempo;
  • Dispareunia – mais frequente de profundidade e está relacionada principalmente com lesões profundas na vagina e ligamentos uterossacros;
  • Alterações urinárias – normalmente há relação positiva entre o tamanho da lesão vesical e a intensidade da queixa clínica. Disúria, hematúria, polaciúria e urgência miccional que ocorrem durante o fluxo menstrual são os sintomas observados;
  • Alterações intestinais – alterações do hábito intestinal com distensão abdominal, sangramento nas fezes, constipação, disquezia e dor anal, normalmente de forma cíclica em época menstrual.

Sintomas atípicos como cólicas menstruais muito fortes que irradia dor para membros inferiores, vulvodínia, dor torácica, hemoptise, entre outros, podem levar a um diagnóstico de lesões em localizações menos recorrentes. Há quatro estágios para a endometriose, de acordo com a Revised American Fertility Society Classification of Endometriosis:

  • Estágio I, mínima: consiste em focos superficiais, aderências leves;
  • Estagio II, média: consiste em focos superficiais e profundos, aderências leves;
  • Estágio III, moderada: consiste em focos superficiais e profundos, aderências leves e espessas;
  • Estágio IV, severa: consiste em focos superficiais e profundos, aderências espessas.

Diagnóstico da endometriose

O profissional ginecologista para concretizar um diagnostico será necessário mesclar o quadro clinico do paciente, anamnese e exame físico assim como exames complementares como, exames de imagem (USG transabdominal, transvaginal, transretal), ressonância nuclear magnética, marcadores biológicos, exames endoscópicos (laparoscopia, colonoscopia e cistoscopia) e estudo anatomopatológico.

Tratamento da endometriose

A endometriose é uma doença de caráter crônico, por isso, deve ser acompanhada durante toda a vida reprodutiva da mulher momento no qual a doença manifesta seus principais sintomas (Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine, 2014). O seu tratamento vai variar da necessidade do paciente, e pode ser clinico ou cirúrgico.

O tratamento clínico é eficaz no controle da dor pélvica e deve ser o tratamento de escolha na ausência de indicações absolutas para cirurgia (Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine, 2014). O maior objetivo com o tratamento clinico é melhorar a qualidade de vida do paciente e diminuição dos sintomas álgicos e não a cura da doença. Algumas opções de tratamentos clínicos são:

  • Análogos do GnRH: estes fazem um bloqueio hipofisário, de modo que a paciente adentra um quadro de hipoestrogenismo, causando a atrofia do tecido endometriótico e a paciente cursa com uma melhora. No entanto, esse fármaco só deve ser administrado por, pelo menos, 6 meses, não se pode utilizar por um tempo maior que esse;
  • Contraceptivos orais: o componente estrogênico reduz a secreção de FSH/LH e desencadeia a supressão da gametogênese e esteroidogênese ovariana, fazendo com que a paciente pare de menstruar;
  • Progesterona e gestrinona: Ocasionam uma hipotrofia endometrial, de modo que a paciente entra em amenorreia e ocasiona uma decidualização do endométrio ectópico, cessando a evolução da doença.

O tratamento cirúrgico, se dá pela remoção dos focos existentes de endometriose, porém, mantendo a anatomia e a sua função reprodutiva. O procedimento cirúrgico pode ser feito por laparoscopia ou laparotomia; no entanto, há preferência pela laparoscopia, que permite melhor visualização das lesões endometrióticas, melhor acesso a alguns pontos da pelve, assim como melhor recuperação da paciente (Barnhart et al., 2002).

Autor(a): Victória Angel Sales de Souza – @euvicangel


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

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Referências:

FERNANDES, C. E. et al. Tratado de ginecologia Febrasgo – 1. ed. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.

CALDEIRA, T. B. et al. Infertilidade na endometriose: etiologia e terapêutica HU Revista, Juiz de Fora, v. 43, n. 2, p. 173-178, abr./jun. 2017

FAÚNDES, D. O que é endometriose? Acesso em: 09 de maio 2022. https://www.drdanielfaundes.com.br/o-que-e-endometriose/

KUMAR. Robbins Patologia Básica – 9. ed. 2013.