O hantavírus é o agente da Hantavirose, que é uma antropozoonose viral aguda cujos reservatórios naturais são os roedores. Os hantavírus compreendem um gênero (Orthohantavirus) de vírus com envelope da ordem dos Bunyavirales.
A transmissão em humanos ocorre principalmente devido a inalação de aerossóis de secreções e excrementos, também pode ser transmitido por mordeduras de roedores e ingestão de água e alimentos contaminados.
Esses patógenos estão associados a duas doenças febris agudas graves: Febre hemorrágica com síndrome renal e Síndrome cardiopulmonar por hantavírus.
Epidemiologia de hantavírus
É provável que muitos casos de doença por hantavírus não sejam relatados, em parte devido à confusão clínica com leptospirose, dengue, malária, doença coronavírus 2019 e outras entidades, especialmente em regiões tropicais.
A febre hemorrágica com síndrome renal mostra-se endêmica na Ásia e Europa, acometendo milhares de pessoas anualmente. A China apresenta, de longe, a maior incidência anual de hantavírus. De 16.000 a 100.000 ou mais casos de febre hemorrágica com síndrome renal (HFRS) são relatados a cada ano na China.
A síndrome cardiopulmonar pelo hantavírus, reconhecida como entidade clínica desde 1993, representa o protótipo das doenças emergentes e encontra-se distribuída em diversos países do continente americano, inclusive o Brasil.
Em janeiro de 2017, mais de 720 casos de síndrome cardiopulmonar por hantavírus foram documentados nos Estados Unidos, incluindo alguns que foram reconhecidos retrospectivamente depois que a doença foi identificada em 1993.
Vários roedores têm sido implicados na transmissão dos hantavírus ao homem. No velho mundo, os animais das subfamílias Murinae e Arvicolinae representam os transmissores mais importantes dessas viroses.
Até há pouco tempo, não se conheciam os roedores portadores de hantavírus no Brasil. O Bolomys lasiurus, encontra-se distribuído por toda região de cerrados do Brasil. Nos Estados do sul, a partir do Paraná, o roedor transmissor parece ser outro, o Oligoryzomis nigripes. O roedor de hábitos aquáticos do gênero Holochilus infectado pelo vírus, e o consideraram como provável transmissor da doença no local no Maranhão. Em país com a extensão continental do Brasil, é possível que outras espécies de roedores silvestres possam portar outros vírus com o potencial para causar doença humana.
Fisiopatologia do Hantavírus
Os hantavírus mostram tropismo de tecido semelhante em hospedeiros humanos e roedores, com envolvimento consistente do endotélio vascular do coração, rim, pulmão e órgãos linfóides.
As infecções por hantavírus são contraídas por via aérea. Depois de atingirem o parênquima pulmonar, são captados pelos fagócitos e transportados para os linfonodos de drenagem. Os vírus estabelecem infecção nos nódulos regionais e se disseminam para órgãos distantes. Os vírus se replicam principalmente nas células endoteliais vasculares e, então, estabelecem uma viremia secundária.
Nas infecções por hantavírus, o sistema imunológico, tanto inato quanto adquirido, é suspeito de ser um determinante da magnitude do vazamento capilar e sua morbidade associada. Além disso, há potencialização da toxicidade viral direta através da formação de lacunas intercelulares entre as células endoteliais que, por sua vez, permitem a passagem de proteínas plasmáticas para o interstício.
O choque cardiogênico tem sido reconhecido como um desenvolvimento chave na patogênese da febre hemorrágica e da síndrome cardipulmonar fatais, e pode ocorrer morte por choque.
Quadro clínico do hantavírus
Na fase prodrômica pode ocorrer febre, cefaleia, mialgia, náuseas e vômitos algumas vezes acompanhados de dores abdominais. A tosse eventualmente pode estar presente, porém sem sintomas de vias aéreas superiores. Essa fase pode ser autolimitada ou evoluir com duas apresentações clínicas mais graves, são elas:
Síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH)
Aparecimento de tosse e dispneia grave, evoluindo para edema agudo de pulmão não cardiogênico (aumento da permeabilidade vascular no leito capilar pulmonar) e insuficiência respiratória rapidamente. Pode ocorrer choque cardiogênico secundário à depressão miocárdica.
Febre hemorrágica com síndrome renal (FHSR)
Presença de febre associada a petéquias, enantemas , proteinúria acentuada, hematúria microscópica e hipotensão que contribui decisivamente para a lesão renal aguda. Além disso, podem advir manifestações extrarrenais, tais como coagulação intravascular disseminada (CIVD), miocardite, hepatite e pancreatite. Esta forma clínica não ocorre no Brasil, sendo a forma mais comum na Ásia e Norte da Europa.
Diagnóstico de hantavírus
O diagnóstico é realizado a partir do quadro clínico associado à história epidemiológica compatível (contato com roedores). Podemos encontrar anticorpos específicos em sangue periférico (IgM) assim que se iniciam os sintomas. São identificados pelo método de ELISA. Dessa forma, há possibilidade de se realizar o diagnóstico, durante a fase aguda da doença, pela amplificação do RNA viral (RT-PCR).
Exames complementares são necessários para avaliar as formas graves da doença, como:
- Hemograma
- Eletrólitos
- Função renal
- Gasometria arterial
- Lactato arterial
- Coagulograma (muito alterado na febre hemorrágica)
- Urina I (hematúria, proteinúria)
- CPK
- DHL.
Na síndrome cardiopulmonar, a radiografia de tórax pode mostrar presença de infiltrado pulmonar bilateral, intersticial com focos de alveolização (pulmão de SARA).

Tratamento de hantavírus
Não há disponibilidade de tratamento específico. Utilizou-se ribavirina ou o uso de corticosteróides em alguns surtos da doença, mas não apresentaram evidências concretas de eficácia.
Assim, tratamento consiste no manejo da insuficiência respiratória, controle do choque circulatório, enfatizando uso de drogas vasoativas e cuidado extremo com infusão de volume. Evitar uso de antiagregantes plaquetários e atenção no uso de anticoagulantes no quadro de febre hemorrágica.
Não recomenda-se isolamento respiratório e uso de máscaras N95 no Brasil, pois há apenas evidência de transmissão respiratória com o Hantavírus Andes, que ocorre na Argentina e Chile.
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Referências bibliográficas
- FERREIRA, Marcelo Simão. Hantaviroses. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., Uberaba , v. 36, n. 1, p. 81-96, Jan. 2003 . Access on 23 Apr. 2021.
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- REIS, Isabella Scutti. DA FONSECA, Benedito Antônio Lopes. Hantavirose na Sala de Urgência. Revista QualidadeHC, 2017. Acesso em 23 de abril de 2021.
