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Sinal de Kehr | Colunistas

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BEATRIZ YUKI MARUYAMA

6 min há 189 dias

O sinal de Kehr recebe esse nome devido ao médico alemão Hans Kehr, um cirurgião que no final do século XX suspeitou da conexão entre a dor no ombro e o sofrimento abdominal.

Introdução

O Sinal de Kehr faz parte dos sinais clínicos para avaliação da região abdominal. Ele é positivo quando há dor aguda, intensa e repentina sentida na ponta do ombro, desencadeada principalmente quando o paciente é colocado na posição de Trendelemburg e quando estão deitados e com o membro inferior levantado. A irritação diafragmática causa dor no ombro homolateral, ela ocorre devido à presença de fluídos nocivos, como sangue intraperitoneal livre, conteúdos gástricos de uma úlcera perfurada ou pus de um apêndice perfurado.

Ele normalmente é utilizado como indicativo de colecistite aguda e abscessos diafragmáticos, assim como qualquer outro processo inflamatório na região do diafragma. Porém a dor em ombro esquerdo do sinal de Kehr é indicativo de ruptura esplênica, problemas em uma gravidez ectópica ou irritação grave de órgãos inferiores. Isso causa irritação do nervo frênico em contato com o hemidiafragma esquerdo. Assim como a dor subescapular direita (sinal de Boas) é indicativo de cólica biliar.

Dor abdominal

A dor abdominal pode ser dividida em visceral, parietal ou referida. No caso da dor visceral, ela ocorre pela distensão, inflamação ou isquemia, sendo percebida normalmente na região epigástrica ou hipogástrica. É uma sensação mediada por fibras aferentes localizadas no peritônio das vísceras ocas e nas cápsulas dos órgãos sólidos.

Já a dor parietal normalmente é mais nítida e aguda, sendo melhor localizada (por ativar fibras aferentes somáticas direcionadas apenas para um lado do sistema nervoso). Enquanto a dor referida é a dor que é percebida em um local distante do estímulo que está causando a dor, ela ocorre por conta da confluência das fibras nervosas aferentes de áreas diferentes dentro do corno posterior da medula. Um exemplo da dor referida é a própria irritação subdiafragmática por sangue que ocasiona dor do ombro, chamada de Sinal de Kehr.

Outros sinais

Outros sinais e testes também servem como indicativos durante a avaliação abdominal, como:

  • Sinal de Boas: sentir dor referida na ponta da escápula direita.
  • Teste de Carnett: paciente eleva sua cabeça no leito, tencionando os músculos da parede abdominal.
  • Sinal de Jobert: hipertimpanismo na região hepática.
  • Sinal de Torres Homem: percussão dolorosa na região hepática.
  • Sinal de Blumberg: dor à descompressão subida no ponto de McBurney.
  • Sinal de Rovsing: dor referida no quadrante inferior direito.
  • Sinal do Psoas: dor em abdome inferior durante a hiperextensão passiva do membro inferior direito, com o paciente em decúbito lateral esquerdo.
  • Sinal do Obturador: dor em abdome inferior, quando ocorre a flexão passiva da perna sobre a coxa e da coxa sobre a pelve.
  • Sinal de Fox: equimose em base do pênis.
  • Sinal de Cullen: equimose em região periumbilical.
  • Sinal de Grey Turner: equimose em flancos.
  • Sinal de Murphy: dor durante a inspiração, enquanto há pressão no quadrante superior direito.
  • Sinal de Ransohoff: pigmentação amarelada da região umbilical.
  • Sinal de Term Horn: dor causada pela tração gentil do testículo direito.
  • Sinal de Mannkopf: aumento da frequência cardíaca quando o abdome é palpado.
  • Sinal de Fothergill: massa da parede abdominal que não cruza a linha média e permanece palpável quando o reto abdominal é contraído.
  • Sinal de Charcot: febre, icterícia e dor abdominal intermitente no quadrante superior direito.
  • Sinal de Claybrook: aumento da transmissão dos sons cardíacos e pulmonares pela parede abdominal.
  • Sinal de Courvoisier: vesícula biliar palpável, distendida e indolor em um paciente ictérico.
  • Sinal de Cruveilhier: presença de veias varicosas no umbigo, chamado de cabeça de medusa.

Investigação

Dentre os exames laboratoriais que podem auxiliar no diagnóstico, deve ser investigado com hemograma (leucocitose, bandemia/desvio à esquerda) e hematócrito. Outros exames importantes são PCR, betaHCG, medida de eletrólitos séricos, ureia sanguínea e nível de creatinina. Alguns exames extras são exames urinários, ECG, função hepática, função da via biliar, lactato sérico e gasometria arterial.

Com relação aos exames de imagem é realizado o raioX de abdome em posição supina e ortostática associado ao raioX de tórax. Caso necessário ainda podem ser realizados a ultrassonografia abdominal, o FAST e a tomografia.

Em último caso, ainda podem ser realizados a laparoscopia diagnóstica e a lavagem peritoneal diagnóstica.

Trauma esplênico

É uma das causas do sinal de Kehr. O baço é o principal órgão lesionado em casos de traumas abdominais contusos, como em casos de colisões automobilísticas, atropelamentos e agressões. As lesões podem ocorrer por esmagamento ou compressão, e lesão por forças de desaceleração.

Dentre os sinais e sintomas, há dor abdominal em quadrante superior esquerdo, hemitórax esquerdo ou ombro esquerdo (sinal de Kehr – irritação do nervo frênico). Outros sintomas que podem estar associados é a fratura de costelas causando instabilidades torácicas e hematoma em parede abdominal. 

Em casos de pacientes hemodinamicamente instáveis, ou com FAST ou lavagem peritoneal positivo, deve ser realizado a laparotomia para identificar os focos da hemorragia. Já em casos de pacientes estáveis, quando não há achados significativos na tomografia ou outras lesões intra-abdominais associadas, podem ser submetidos ao tratamento conservador.

BEATRIZ YUKI MARUYAMA

INSTAGRAM @BIAMARUYAMA

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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REFERÊNCIAS

  1. Souba, Fink, Jurkovich, Kaiser, Pearce, Pemberton, Soper: ACS Surgery – Principles and Practice, 6th ed. WebMD, New York, 2007
  2. Flasar, MH, Goldberg, E: Acute Abdominal Pain. Med Clin North Am. 2006 May;90(3):481-503. Laal M, Mardanloo A: Acute Abdomen: Pre and Post-Laparotomy Diagnosis. International Journal of Collaborative Research on Internal
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  4. Brunetti A, Scarpelini S: Abdômen Agudo. Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio: Cirurgia de Urgência e Trauma, 2007; 40 (3): 358-67.
  5. http://extranet.hgf.ce.gov.br/jspui/bitstream/123456789/363/1/2018_TCR_CirurgiaGeral_MouraJ%C3%BAnior_JOS.pdf
  6. https://www.netinbag.com/pt/health/what-is-kehrs-sign.html
  7. https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1343876060medlearn_diagnostico_abdome_agudo.pdf
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