Psiquiatria

Transtorno de Adaptação: do diagnóstico até o tratamento

Transtorno de Adaptação: do diagnóstico até o tratamento

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O Transtorno de Adaptação refere-se a pacientes que cursam com sofrimento importante e limitações geradas por situações adversas cotidianas, como desemprego, divórcio ou reprovação acadêmica. Dessa forma, é de se esperar que os transtornos de adaptação, também chamados de transtorno de ajustamento (TA), estejam entre os transtornos mentais mais frequentes na prática clínica. Em suma, o TA é uma resposta anormal (não adaptativa) autolimitada a um estressor que causa um comprometimento funcional.

Epidemiologia

O Transtorno de adaptação (TA) impõe grandes repercussões em nível pessoal, social e financeiro, sendo identificado como o sétimo transtorno mental mais diagnosticado em um estudo envolvendo quase 5.000 psiquiatras em todo o mundo (que simultaneamente o classificaram como o quanti mais problemático devido as limitações de aplicação dos critérios diagnósticos previamente descritos). Porém sua prevalência não se limita a psiquiatria, visto que também são observados em outra áreas médicas (como oncologia, geriatria e cuidados paliativos).

Trata-se do distúrbio psiquiátrico mais frequentemente diagnosticado entre membros das forças armadas e em crianças. Transtornos de adaptação podem complicar o curso clínico de condições clínicas gerais (por exemplo menos adesão ao plano terapêutico; estada hospitalar mais prolongada).

A idade média dos indivíduos afetados fica entre 40 e 45 anos, no entanto, esse dado pode ser enviesado, pois as amostras de estudos são compostas principalmente por adultos. Já entre os adolescentes que procuram atendimento psiquiátrico, encontrou-se uma prevalência de 31% e uma duração média da doença próxima a 7 meses.

Possíveis estressores

  • Único evento: por exemplo término de um relacionamento longo;
  • Eventos múltiplos: por exemplo problemas conjugais e financeiros;
  • Eventos recorrentes: por exemplo repetidas reprovações em uma mesma matéria, desavenças recorrentes com a família;
  • Eventos contínuos: por exemplo doença dolorosa persistente com incapacidade crescente, morar em área de alta criminalidade;
  • Eventos específicos do desenvolvimento: por exemplo deixar ou voltar para a casa dos pais, casar-se, tornar-se pai/mãe, fracassar em metas profissionais, aposentadoria

Tipos

  1. Com humor deprimido: predominam choro fácil ou sentimentos de desesperança.
  2. Com ansiedade: prevalecem o nervosismo , preocupação, inquietação ou ansiedade de separação.
  3. Com misto de ansiedade e depressão: por definição, predomina uma combinação de depressão e ansiedade.
  4. Com perturbação de conduta: por analogia, há predomínio de perturbação do comportamento.
  5. Com perturbação mista das emoções e da conduta: sintomas emocionais (por exemplo depressão, ansiedade) e perturbação da conduta são predominantes.
  6. Não especificado: reações mal adaptativas que não são classificáveis como um dos subtipos específicos do transtorno de adaptação.

Clínica

Os sinais e sintomas do transtorno de adaptação geralmente começam logo após o evento estressante e não perduram por mais de 6 meses após o seu término.

Existem muitas manifestações do transtorno de adaptação, as mais comuns são

  • Humor deprimido
  • Ansiedade
  • Comportamento inadequado
  • Os pacientes podem ter várias manifestações.

Também há maior risco de tentativas de suicídio e suicídio consumado. Foi demonstrado que o comportamento suicida ocorre mais precocemente no curso das TAs do que no Transtorno depressivo maior (TDM). A ideação suicida ocorre com um limiar de sintomas mais baixo em pacientes com transtornos de ajustamento, apresentando menor intervalo entre ameaças suicidas e o suicídio, também quando comparados ao TDM. Os TAs trazem um risco 12 vezes maior de êxito no ato suicida, comparado aqueles que não possuem esse diagnóstico. Dentre os fatores que influenciam o suicídio nos indivíduos com diagnóstico de TA estão a má qualidade do sono (pesadelos), alexitimia (refere-se a falta de expressão por palavras das emoções) e falta de espírito de cooperação).

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se nos critérios recomendados pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª edição (DSM-5).

Os pacientes devem apresentar:

  • Sinais e sintomas emocionais ou comportamentais durante 3 meses após exposição a um evento ou eventos estressante (critério A).

Os sinais e sintomas devem ser clinicamente significativos como mostrado por ≥ 1 dos seguintes (Critério B):

  • Sofrimento acentuado desproporcional ao evento estressante (levando em conta fatores culturais e outros)
  • Prejuízo funcional social ou ocupacional significativo.

A perturbação relacionada ao estresse não deve satisfazer critérios de outro transtorno mental e não é meramente uma exacerbação de um transtorno mental existente (critério C).

E, ainda, os sintomas não representam um processo de luto normal (critério D), havendo a possibilidade de transtornos de adaptação serem diagnosticados após a morte de um ente querido quando a intensidade, a qualidade e a persistência das reações de luto excedem o que se esperaria normalmente, considerando normas culturais, religiosas e apropriadas a idade.

Ademais, uma vez que o estressor ou suas consequências tenham cedido, os sintomas não persistem por mais de seis meses (critério E).

Diagnóstico diferencial

Transtorno de estresse pós traumático (TEPT) e transtorno de estresse agudo: Nos transtornos de adaptação, o estressor pode ser de qualquer gravidade, não sendo necessário atender às exigências, como gravidade e do tipo trazidas no critério A do transtorno de estresse agudo e TEPT. TAs deverão ser diagnosticados em indivíduos que não tenham sido expostos a um evento traumático (com as características do critério A para TEPT), mas ainda assim exibam o perfil sintomático significativo

Caso estressores precipitem sintomas que satisfaçam critérios para um transtorno depressivo maior (TDM), o diagn´sotico de transtorno de adaptação não se aplica, pois a gravidade do perfil sintomático do TDM o diferencia dos transtornos de adaptação.

Uma das principais questões referentes ao diagnóstico dos TAs está na sua diferenciação das reações normais de estresse, que entram na lista de diagnósticos diferenciais, pois é natural apresentar uma perturbação frente a situações adversas, contudo, só podemos definir o diagnóstico de TAs quando a magnitude de sofrimento exceder o que se esperaria normalmente, sendo sempre conveniente considerar os aspectos culturais do indivíduo, ou quando ocorre prejuízo funcional. Essa diferenciação é de julgamento puramente clínico.

Tratamento

A melhor abordagem terapêutica para as TAs permanece incerta, dado o número relativamente pequeno de ensaios controlados sobre o tema, somando-se ao fato de se tratar de uma condição autolimitada que pode se resolver espontaneamente antes mesmo da conclusão dos estudos.

Entretanto, com escassez de dados, sugere-se evitar o tratamento farmacológico, priorizando uma abordagem psicoterapêutica, visto que há tendência para remissão relativamente rápida dos sintomas, além de vários autores demonstrarem a ineficácia da terapia medicamentosa.

No entanto, pragmaticamente, se não houver resposta as intervenções psicológicas, os tratamentos farmacológicos são utilizados para controle dos sintomas. Benzodiazepínicos costumam ser usados para tratar os sinais e sintomas como insônia e ansiedade, mas esses fármacos também podem agravar o curso do transtorno por estresse agudo e transtorno por estresse pós-traumático. Os médicos também podem tratar a depressão e ansiedade subsindrômicas com inibidores seletivos da recaptação da serotonina, mas, mais uma vez, não há evidências suficientes para fundamentar essa abordagem.

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Perguntas Frequentes:

1 – O que é Transtorno de Adaptação?

Transtornos de adaptação envolvem sintomas emocionais e/ou comportamentais marcadamente angustiantes e prejudiciais causados por um fator de estresse identificável.

2 – Como fazer o diagnóstico?

O diagnóstico é realizado através da história clínica e exame mental e identificação de fatores de risco.

3 – Qual o tratamento para Transtorno de Adaptação?

Psicoterapia

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