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Tudo o que você precisa saber sobre a otoscopia na pediatria | Colunistas

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A otoscopia é um exame que avalia a orelha externa, a orelha média, o conduto auditivo e a membrana timpânica. Juntamente à anamnese, ela é importante no diagnóstico otológico. Para a realização correta deste exame na pediatria, é necessário que o examinador reconheça as variações de imagem otoscópica de acordo com a idade. 

As estruturas anatômicas visualizadas na otoscopia propriamente dita são: 

  • Os ossículos: cabeça e cabo do martelo;
  • O cone luminoso;
  • Prega malear anterior e posterior;
  • Umbigo da membrana timpânica;
  • Parte flácida do tímpano;
  • Parte tensa do tímpano;
  • Annulus timpânico.

No exame, deve-se realizar a inspeção da orelha externa, a palpação do pavilhão auricular e da região pré e retroauricular e, por fim, a otoscopia propriamente dita. 

Detalhes do exame na criança

As estruturas anatômicas não mudam nas crianças, porém, existem considerações importantes que devem ser feitas. Das situações que podem dificultar a realização da otoscopia, pode-se citar: crianças pouco colaborativas, choro, conduto auditivo estreito e grande presença de cerúmen.

Para tentar tornar mais fácil a realização da otoscopia, o examinador pode usar de alguns métodos, como iniciar o exame pela orelha sem queixas, tentar acalmar a criança usando a “voz pediátrica” e, para retificar o conduto auditivo e facilitar a visualização da membrana timpânica, o examinador deve tracionar o pavilhão auricular inferiormente em recém-nascidos e lactentes jovens; e póstero-superiormente em crianças maiores.

Isso ocorre porque o desenvolvimento do ouvido não está completo ao nascimento. Existem alterações de cor, transparência, posição e mobilidade da membrana timpânica durante o primeiro ano de vida. Para explicar isso, existem 3 causas principais:

  • Presença de líquido amniótico na orelha média, que desaparece entre o 3º ao 14º dia de vida, mas pode permanecer em pequenas quantidades.
  • Presença de tecido mesenquimatoso na orelha média, que é reabsorvido geralmente até 1 ano de idade. 
  • Presença de malformações congênitas do ouvido.

Principais patologias

Definições de otite média

  • Otite Média Aguda: Infecção aguda no ouvido médio com início rápido dos sinais e sintomas.
  • Otite Média Recorrente: 3 episódios de otite média aguda em 6 meses ou 4 episódios em 12 meses.
  • Otite Média Secretora: Inflamação da orelha média em que há uma coleção líquida no seu espaço, mas a membrana timpânica está intacta.
  • Secreção ou efusão da orelha média: É o líquido resultante da otite média. Pode ser serosa (fina e líquida), mucóide (espessa e viscosa) ou purulenta (secreção purulenta).

Otite média aguda 

A otite média aguda é uma infecção muito comum na pediatria, sendo a principal causa de consultas médicas e prescrição de antimicrobianos aos pacientes pediátricos. A sua incidência é maior até os dois anos de idade, de forma que 80% das crianças apresentam pelo menos um episódio ao final deste período. No entanto, não é raro que essas crianças manifestem múltiplos episódios durante os primeiros anos de vida.

Otite média com efusão

A otite média com efusão é um problema crônico, que constitui um fator de risco para otite média aguda, para distúrbios do sono e perda de apetite. Ela caracteriza-se por uma inflamação na orelha média, preenchida por líquido (efusão) e sem sinais clínicos de infecção (geralmente, as crianças e adolescentes são assintomáticos). A longo prazo, ela também pode causar distúrbios de comportamento e de desenvolvimento da fala e linguagem. Além disso, sabe-se que ela pode ocorrer devido a função reduzida da tuba auditiva ou por algum processo infeccioso prévio, sendo o seu diagnóstico difícil em lactentes; não só pelas condições anatômicas, mas principalmente pela não colaboração do paciente.

Corpo estranho

Casos de corpos estranhos, comumente, são sintomáticos. Nos ouvidos, o principal local de introdução dos corpos estranhos é no conduto auditivo externo. O quadro clínico vai variar de acordo com o tipo de objeto que foi introduzido naquele local. Geralmente, os sintomas incluem: hipoacusia, incômodo, otalgia e zumbido, porém, pode-se ter otorragia nas lesões da pele do conduto auditivo externo ou até da membrana timpânica, desencadeadas por objetos pontiagudos (exemplos: lápis e caneta). Além disso, o paciente pode ter otorreia e otorragia devido a manipulação prévia e tentativas fracassadas de remoção.

Entretanto, alguns casos podem passar despercebidos pelos pais ou responsáveis e até pela criança, como nos casos de objetos que não acarretam muito incômodo (exemplos: pedaços de algodão e areia). Nesses casos, o diagnóstico só é feito através da otoscopia.

Malformações congênitas da orelha

Nas crianças, a hipoacusia de condução é principalmente por causas adquiridas. No entanto, ela também pode ser congênita em determinados casos, decorrente de deformidades da orelha média, orelha externa e até de malformações isoladas da cadeia ossicular. Além disso, sabe-se que as malformações da orelha média podem afetar a configuração da caixa do tímpano e causar variações de número, tamanho e configuração dos ossículos; sendo que a deformidade ossicular isolada mais comum atinge a supraestrutura do estribo e a longa apófise da bigorna.

Conclusão

Assim sendo, torna-se evidente as diferenças da realização de uma otoscopia em um adulto de uma otoscopia realizada em uma criança. Apesar das estruturas anatômicas visualizadas serem as mesmas, existem várias considerações que devem ser feitas ao realizar a otoscopia em crianças. Por isso, o estudo e o preparo para atender as demandas de pediatria são indispensáveis. Crianças não são adultos pequenos e, devido a isso, sua anamnese e exame físico precisam ser diferenciados. 

Autora: Letícia de Paula Santos.

Instagram: @leticiapaula.santos 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

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