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Tudo o que você precisa saber sobre agitação psicomotora e agressividade | Colunistas

Tudo o que você precisa saber sobre agitação psicomotora e agressividade | Colunistas

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A agitação psicomotora consiste na emergência psiquiátrica mais comum. No consultório psiquiátrico essa frequência é ainda mais evidente, uma vez que uma ampla faixa de pacientes com transtornos psiquiátricos prévios pode desenvolvê-la ou apresentá-la durante a consulta.

Ela é definida como uma síndrome comportamental caracterizada por um estado de excitação psíquica e aumento da atividade verbal e motora que geralmente antecede um comportamento violento/agressivo.

Diante disso, é crucial a garantia da devida segurança de todos os presentes no local: paciente e equipe.

Anamnese, exame físico e mental: fique atento aos achados!

Figura 1 – Consulta psiquiátrica          
Fonte: Hospital Santa Mônica, 2018

Na admissão, é importante colher o máximo de informação possível sobre o paciente, já que são diversas as causas de agitação e agressividade. O quadro em si pode ser considerado inespecífico.

Para diferenciar essas de um transtorno mental primário, é necessário um raciocínio clínico organizado. É importante que a história clínica seja feita de forma rápida e precisa, juntamente com o exame físico e mental, além de algum tipo de intervenção física ou medicamentosa, se necessária.

Dessa forma, você deve coletar, da forma mais completa possível, o comportamento de agitação, se atentando, principalmente, a quando teve início, como se caracteriza, se é o primeiro episódio, se há histórico de doenças prévias e tratamentos clínicos e/ou psiquiátricos, uso de substância psicoativa, história sugestiva de trauma cranioencefálico (TCE) e/ou eventos estressores ou emocionais recentes.

A agitação psicomotora é compreendida como uma atividade motora excessiva associada a uma experiência subjetiva de tensão, observada por meio de manifestações clínicas caracterizadas por fala de cunho provocativo e ameaçador, podendo ser acompanhada por tensão muscular, hiperatividade, impaciência e desconfiança.

Ao exame físico, é essencial verificar os sinais vitais do paciente, descartando a possibilidade de a agitação ser devida à hipóxia ou por dor intensa, que devem ser tratadas rapidamente.

Figura 2 – Achados ao exame físico para diferentes causas de agitação
Fonte: MedicinaNET, 2013

Diagnósticos diferenciais: saiba o que investigar

Há três grupos principais de transtornos que podem cursar com quadro de agitação psicomotora e devem ser pesquisados, para que seja feita a abordagem terapêutica adequada para cada caso. Esses grupos são os transtornos mentais orgânicos, transtornos psicóticos primários e transtornos não-psicóticos e não-orgânicos.

Transtornos mentais orgânicos: são decorrentes de causas como TCE, epilepsia, intoxicações (solventes, inseticidas, medicamentos), abstinência e intoxicação por substâncias psicoativas (álcool, cocaína, heroína), distúrbios metabólicos (hipoglicemia, hiperglicemia, hipertireoidismo, uremia, insuficiência hepática), delirium, demência.

Transtornos psicóticos primários: são contemplados por transtorno afetivo bipolar, esquizofrenia e outros transtornos psicóticos.

Transtornos não-psicóticos e não-orgânicos: englobam os transtornos dissociativos, síndromes fóbico-ansiosas, oligofrenia, transtornos da personalidade (borderline, antissocial), reação aguda a estresse.

É importante salientar que, na hipótese de diagnóstico de etiologia orgânica, você deve lançar mão de exames complementares.

Os exames básicos que são solicitados nesses casos são: hemograma completo com diferencial de leucócitos, eletrólitos, índices renais e hepáticos, glicemia, testes de função da tireoide, testes sorológicos para sífilis, teste sorológico para HIV, análise de urina, eletrocardiograma, eletroencefalograma, radiografia torácica, triagem para drogas no sangue e na urina.

Já os exames adicionais solicitados nesses casos podem ser: cultura de sangue urina e líquido cefalorraquidiano (LCR); concentração de ácido fólico, vitamina B12; tomografia computadorizada ou ressonância magnética do cérebro.

Domine o manejo desse paciente!

A abordagem terapêutica do paciente agitado consiste em três métodos:  intervenção comportamental, ambiental e verbal; farmacológica; contenção física.

Intervenção comportamental, ambiental e verbal: essa consiste na primeira abordagem terapêutica do paciente agitado, configurando-se como uma medida não coercitiva.

No manejo comportamental e ambiental, é preciso manter-se em postura vigilante; deixe o paciente fisicamente confortável; evite movimentos bruscos; esteja atento à linguagem não verbal; procure atender o paciente em uma sala ou área grande e calma, não isolada. O ambiente deve ser seguro, então retire todos os objetos que possam ser potencialmente perigosos.

Ao dialogar com paciente, utilize uma linguagem simples, clara e concreta, evite elevar o tom de voz; estabeleça limites de maneira respeitosa; estimule a expressão verbal de sentimentos; assegure o paciente que você pretende ajudá-lo a controlar os próprios impulsos; evite ceder a testes, desafios e manipulações e explique para ele as condutas terapêuticas.

Tratamento farmacológico: as principais indicações do manejo farmacológico são comportamento violento ou agressivo, pânico ou ansiedade intensos e reações extrapiramidais, como distonia e acatisia.

As três classes de medicação tradicionalmente utilizadas são: antipsicóticos típicos, benzodiazepínicos e antipsicóticos atípicos e, sempre que possível, você deve oferecer medicamento via oral.

Se o paciente for cooperativo: haloperidol 2,5 a 5 mg por via oral ou diazepam 10 mg por via oral; ou haloperidol 2,5 a 5 mg associado a diazepam 10 mg por via oral. Obs.: se houver condição médica geral presente, evitar benzodiazepínicos.

Se o paciente não for cooperativo e estiver agitado, agressivo: haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular ou olanzapina 5 a 10 mg por via intramuscular ou ziprasidona 5 a 10 mg por via intramuscular.

Contenção física: é o último recurso utilizado no manejo da agitação psicomotora. Seu uso restringe-se às situações em que os demais recursos falharam e há risco iminente de auto e /ou heteroagressividade.

Figura 3 – Representação ilustrativa dos graus de imobilização
Fonte: Ebook Psiquiatria na Emergência Sanar, 2020

Essa técnica deve ser realizada por vários membros da equipe (preferencialmente por cinco pessoas, no mínimo), já que um maior número de pessoas pode, por si só, levar à cooperação do paciente. Além disso, é importante que haja um plano específico de ação, em que cada membro da equipe saiba qual será a sua função naquele momento. O paciente deve ser constantemente orientado sobre os passos envolvidos no procedimento e o motivo e você deve estar presente durante todo o procedimento.

A medicação parenteral deve estar disponível e ser administrada assim que possível para tranquilizar o paciente e diminuir o tempo necessário de contenção física. Quando contido, o paciente deve ser mantido em uma posição confortável.

Atente-se para as condições de hidratação, bem como de necessidade de reposição calórica e de eletrólitos, e para as condições de higiene e necessidades fisiológicas do paciente. A remoção da contenção física deve ser feita na presença de outros membros da equipe.

Algoritmo para abordagem do paciente agitado

Figura 4 – Algoritmo – manejo do paciente agitado
Fonte: Pronto-Socorro: Condutas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 2027.

Você também pode ler sobre o manejo das emergências psiquiátricas em geral e dominar ainda mais o assunto!

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências:

  1. https://www.scielo.br/pdf/rbp/v32s2/v32s2a06.pdf
  2. https://www.medicinanet.com.br/m/conteudos/revisoes/1436/agitacao_psicomotora.htm
  3. https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://www.revistas.usp.br/rmrp/article/download/127543/124637/243312&ved=2ahUKEwimgobBxMnvAhVyK7kGHTUAC6YQFjAWegQIGhAC&usg=AOvVaw1fIPM-2z9VYl0BovsmOf7m
  4. https://s3.sanar.online/images/d/eb00k-psiquiatrainaemergencia-manejocompleto.pdf
  5. https://www.sanarmed.com/emergencias-psiquiatricas-como-manejar