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10 importantes sinais radiológicos no tórax que todo médico deve saber | Colunistas

10 importantes sinais radiológicos no tórax que todo médico deve saber | Colunistas

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Lavínia Prado

14 minhá 27 dias

Afinal, o que são sinais?

Um sinal, do latim signalis, significa indício ou manifestação, sendo basicamente um termo objetivo para descrever algo. Quando falamos em raciocínio clínico, é algo que vemos em um paciente durante um exame físico, por exemplo, como a turgência jugular em um paciente com insuficiência cardíaca congestiva. Ter esse indício não indica, necessariamente, que a doença está presente, mas auxilia no diagnóstico.

Figura 1: Turgência jugular patológica.

Fonte: https://bit.ly/31wnqne

Assim como na propedêutica, o diagnóstico por imagem também funciona por meios de sinais, sendo padrões característicos reconhecíveis ou altamente sugestivos para um grupo de patologias.

Entendi, agora, o que são os sinais – o que fazer em seguida? Bom, finalizada essa etapa, devemos prosseguir para uma análise dinâmica da radiografia torácica, ou seja, fazer o RIP e o ABCDE do tórax.

  • O que é o RIP? Depois de verificar a quem pertence essa imagem, analisar os critérios de qualidade dela baseado nos padrões de rotação, inspiração e penetração.
  • O que é o ABCDE do tórax?
  • Aéreas/Airways: verificar ar na traqueia, brônquios, pulmões e pleura.
  • Breath: verificar bordas dos pulmões;
  • Coração/Circulation: coração e centro, nessa fase medimos o índice cardiotorácico. Vemos basicamente coração, vasos e mediastino.
  • Diafragma: observar cúpulas e seios cardiofrênicos e costofrênicos.
  • Esqueleto, exterior: observar partes moles, esqueleto (costelas, vértebras, clavículas e escápulas).

Para uma leitura mais aprofundada, recomendo o artigo Desvendando o Raio-X de Tórax, além da visualização do módulo Imagem do Tórax da Sanarflix para fixar ainda mais o conteúdo.

1. Sinal do broncograma aéreo

  • Quais são as características desse sinal? Opacidades alveolares, associadas a brônquios fisiológicos pérvios, com conteúdo aéreo.

Figura 2: Ilustração do sinal do broncograma aéreo.

Fonte: Figura 1-c, referência bibliográfica 1.
  • A que tipo de lesão está associado? Comumente, é associado com uma consolidação, isto é, uma lesão onde ocorre redução da transparência (imagem fica mais “branca”, sem haver perda de volume pulmonar), porém pode estar associada também com nódulos, massas e também pode surgir na atelectasia.
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Costuma aparecer na pneumonia, outras situações são em casos de edema pulmonar e em tumores como o adenocarcinoma pulmonar.
  • Na tomografia torácica, como ele aparece? Na tomografia, fica mais fácil de visualizar o broncograma aéreo, sendo bem característico pela diferença de densidade.

Figura 3: Pneumonia lobar com broncograma aéreo (setas pretas), setas brancas indicam contorno pulmonar, raio-X de tórax em PA.

Fonte: https://bit.ly/35r03wr

Figura 4: Tomografia de tórax, broncograma aéreo gerado por pneumonia.

Fonte: https://bit.ly/3olLdQI

2. Sinal do S de Golden

  • Quais são as características desse sinal? Formação de um S invertido na radiografia de tórax, uma porção côncava e uma convexa.

Figura 5: Sinal do S de Golden, raio-X de tórax em PA.

Fonte: Google Imagens.
  • A que tipo de lesão está associado? Comumente, é associado com uma atelectasia, ou seja, uma lesão que reduz a transparência pulmonar (pulmão fica mais branco), com perda de volume. Observe que é diferente de uma consolidação; a atelectasia costuma “tracionar” estruturas, enquanto a consolidação não.
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Normalmente, vemos esse padrão em tumores do lobo superior do pulmão (carcinomas broncogênicos centrais, por exemplo). O sinal demonstra uma massa peri-hilar comprimindo brônquios do lobo superior, formando a porção côncava da opacidade (aspecto de S invertido) e a porção convexa representa a atelectasia pós-obstrutiva entrando em colapso.
  • Na tomografia torácica, como ele aparece? Na tomografia, o sinal pode estar também presente, segue imagem abaixo para comparação.

Figura 6: Sinal do S Golden, TCAR x RXT. A TCAR com contraste, em janela mediastinal, exibe atelectasia do lobo superior direito, o aspecto de S de Golden (linha amarela) e presença da massa (M) hipodensa são visíveis, sendo a massa a causa de obstrução do brônquio principal direito.

Fonte da imagem: Google Imagens.

3. Sinal da silhueta

  • Quais são as características desse sinal? Indica perda da definição da borda ou margem de uma estrutura (“perda da silhueta”) que está em contato com opacidade de atenuação semelhante, ou seja, as porções do tórax são quase da mesma densidade radiológica.
  • A que tipo de lesão está associado? Aparece mais em consolidações ou massas. Os nódulos e massas são outros tipos de lesões que aparecem no diagnóstico por imagem, são basicamente opacidades ovaladas que se diferenciam pelo seu tamanho: quando menores de 3 cm de diâmetro, são chamadas de nódulos; quando maiores, de massas.
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Diversos achados podem gerar apagamento da silhueta, como a pneumonia total, pneumonias lobares (lobo médio e língua fazem silhueta com o coração), aneurisma (arco da aorta), derrame pleural (lobos inferiores), neoplasias, entre outras situações.
  • Na tomografia torácica, como ele aparece?

Figura 7: Sinal da Silhueta. Imagem A: Radiografia do tórax em PA, lesão radiopaca na borda direita cardíaca (seta). Imagem B: Tomografia de tórax, janela mediastinal, demonstrando lesão cística (cisto pericárdico).

Fonte: Figura 2-a, b. Referência bibliográfica 1.

4. Sinal da asa de borboleta

  • Quais são as características desse sinal? Opacidades alveolares distribuídas ao redor dos hilos pulmonares, simetricamente.
  • A que tipo de lesão está associado? Pode aparecer com consolidações, mas normalmente está associado com lesões reticulares devido a alterações do interstício pulmonar.

Figura 8: Sinal da Asa de Borboleta, radiografia torácica em PA (sem marcação).

Fonte: Google Imagens.

Figura 9: Sinal da Asa de Borboleta, radiografia torácica em PA (com marcação).

Fonte: Google Imagens.

Figura 10: Sinal da Asa de Borboleta, radiografia torácica em PA (comparação com borboleta).

Fonte: Google Imagens.
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Muito associado com edema alveolar pulmonar cardiogênico (edema agudo de pulmão), pode aparecer na insuficiência cardíaca congestiva, silicose, entre outros quadros.

5. Sinal da corcova de Hampton

  • Quais são as características desse sinal? Opacidades com base pleural e vértice voltado para o hilo.

Figura 11: Corcova de Hampton, a radiografia em PA evidencia opacidade na base pulmonar esquerda e outra superpondo-se ao hilo direito.

Fonte: https://bit.ly/35u2fDs

Figura 12: Corcova de Hampton, delimitação por setas, raio-X de tórax em PA.

Fonte: Google Imagens.
  • A que tipo de lesão está associado? Aparece normalmente como uma consolidação, o acometimento mais frequente é na região dos seios costofrênicos.
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Costuma ser associado com infarto pulmonar secundário ao tromboembolismo pulmonar (TEP) agudo. Não é altamente específico para TEP, mas colabora para diagnóstico.
  • Na tomografia torácica, como ele aparece? Bem mais visível na TC, formato de “cunha” preservado, lesão normalmente de caráter hiperdenso na janela pulmonar tomográfica.

Figura 13: Raio-X de tórax em PA, paciente com TEP agudo em base pulmonar esquerda e imagem de infarto, caracterizando o sinal da corcova de Hampton (seta azul). Na angioTC, é visualizado o êmbolo (janela mediastinal) e o infarto pulmonar correspondente (seta na imagem da janela pulmonar).

Fonte: Figura 8, referência bibliográfica 2.

6. Sinal de Westermark:

  • Quais são as características desse sinal e a que tipo de lesão está associado? Aparece normalmente como uma região de hipertransparência (pulmão mais escuro), com diminuição das marcas vasculares.

Figura 14: Sinal de Westermark, região hipertransparente apontada pelas setas brancas.

Fonte: Google Imagens.

Figura 15: Sinal de Westermark, região hipertransparente em pulmão esquerdo.

Fonte: https://bit.ly/35wxL3G
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Costuma ser associado com TEP sem infarto pulmonar. Quando aparece, indica que a região ainda não sofreu um infarto, podendo reverter o quadro clínico apresentado, o que melhora o prognóstico do paciente.

7. Sinal do 1-2-3 ou tríade de Garland

  • Quais são as características desse sinal? Alargamento mediastinal (paratraqueal direita, normalmente) e hilar bilateral (gânglios hilares) devido à linfoadenomegalia, visto na radiografia em póstero-anterior (PA).

Figura 16: Tríade de Garland, raio-X de tórax em PA (sem marcação).

Fonte: https://bit.ly/3kCGnMN.

Figura 17: Sinal do 1-2-3 (com marcação), raio-X de tórax em PA.

Fonte: Google Imagens.
  • A que tipo de lesão está associado? Lesões reticulares finas ou em forma de consolidação por acúmulo de células nos gânglios linfáticos, nesse caso, apagando a trama vascular pulmonar (imagem esbranquiçada).
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Lesão típica de sarcoidose­.
  • Na tomografia torácica, como ele aparece?

Figura 18: Raio-X de tórax, em PA, demonstrando achado de sarcoidose, não sendo comum em câncer pulmonar ou linfoma, outras causas de linfoadenopatia na radiografia torácica. Tomografia com achado da tríade de Garland.

Fonte: Radiopedia.org

8. Sinal de Chilaiditi:

  • Quais são as características desse sinal? Área hipotransparente aparece na região diafragmática.

Figura 19: Sinal de Chilaiditi, radiografia em PA, termo usado quando o cólon (seta branca), intestino delgado ou estômago é visto interposto entre o fígado e o diafragma direito.

Fonte: https://bit.ly/3oo23OC

Figura 20: Sinal de Chilaiditi, radiografia em perfil, cólon interposto abaixo do diafragma e anteriormente (setas brancas).

Fonte: https://bit.ly/3oo23OC
  • A que tipo de lesão está associado e em quais tipos de cenários clínicos pode estar presente? Não é uma lesão, costuma ocorrer por interposição assintomática de vísceras. Pode simular um pneumoperitônio (acúmulo de ar na região peritoneal), mas geralmente é assintomático.
  • Na tomografia torácica, como ele aparece?

Figura 21: Sinal de Chilaiditi, tomografia confirmando a interposição do cólon.

Fonte: https://bit.ly/3dPTZlb

9. Sinal da “vela” ou do barco à vela:

  • Quais são as características desse sinal? Imagem radiopaca de aspecto triangular na porção superior torácica.
  • A que tipo de lesão está associado? Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Achado radiológico normal entre recém-nascidos e lactentes. Esse sinal, na verdade, é o timo dessas crianças, podendo ser percebido até por voltas dos 3 anos de idade, época em que ele começa a involuir. A importância em conhecê-lo é devido ao fato de que seu desconhecimento pode levar a uma interpretação errônea de alargamento do mediastino ou aumento da área cardíaca.

Figura 22: Sinal da “vela”. Lactente, 8 meses, lobo tímico direito com aspecto triangular, base nitidamente demarcada pela fissura menor.

Fonte: ALVARES, Beatriz Regina; PEREIRA, Inês Carmelita Minniti Rodrigues; ARAUJO NETO, Severino Aires de and SAKUMA; Emerson Taro Inoue. Achados normais no exame radiológico de tórax do recém-nascido. Radiol Bras. 2006, vol.39, n.6, pp.435-440.

10. Sinal da Cimitarra:

  • Quais são suas características? Opacidade pulmonar alongada, curva e verticalizada, lembrando a espada árabe Cimitarra.

Figura 23: Cimitarra.

Fonte: Google Imagens.
  • Pode estar presente em quais tipos de cenários clínicos? Comumente associada com pacientes com anomalia no retorno venoso (alteração aparece à direita).

Figura 24: Anatomia da Síndrome da Cimitarra.

Fonte: J. Pediatr. (Rio J.), p. 479-82, 1998.

Figura 25: Sinal da Cimitarra em paciente com retorno parcial anômalo à direita, radiografia torácica em PA.

Fonte: Figura 5, referência bibliográfica 2.

É valido lembrar que muitas vezes utilizamos essas ferramentas; mesmo que você não seja radiologista, muito comumente terá que analisar diversas radiografias ao longo de sua carreira. É sempre bom aprofundar seus conhecimentos na Imagiologia Médica, não esquecendo (é claro) da clínica do paciente.

Reservo a vocês a seguinte máxima do grande neurologista Oliver Sacks: “ao exame, ganhamos sabedoria sobre anatomia, fisiologia e biologia. Ao examinar a pessoa com a doença, ganhamos sabedoria sobre a vida”.

Muito obrigada se chegou até aqui!

Autoria: Lavínia Prado

Instagram: @m3dsecene

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