Gastroenterologia

Câncer colorretal: prevenção, rastreamento e tratamento | Colunistas

Câncer colorretal: prevenção, rastreamento e tratamento | Colunistas

Compartilhar
Imagem de perfil de Claudio Afonso Peixoto

Tudo que você precisa saber sobre o Câncer colorretal.

Introdução

Nos dias atuais é de conhecimento popular que câncer é uma doença importante que pode ter desfechos catastróficos. Trata-se de uma designação que engloba mais de 100 tipos de doenças malignas diferentes que possuem como ponto comum o fato de células crescerem desordenadamente, em um nível que pode mesmo invadir outros órgãos e tecidos vizinhos ou distantes em relação a lesão pioneira. Por se dividirem de forma assustadoramente rápida, esse grupo de células tendem a ser incontroláveis e agressivas da mesma forma que a doenças que acarretam é.

Fonte: INCA – Instituto Nacional de Câncer, 2020.

Mas o que é cólon e reto? Trata-se de partes do intestino grosso, o cólon se estende entre o ceco e o reto, e esse último é a última parte do sistema gastrointestinal humano. O cólon especificamente é o local onde há a absorção de nutrientes não digeridos previamente e água, e é composto pelos cólons ascendente, transverso, descendente e sigmoide, além do apêndice e do ceco. O reto é o órgão que liga o trato gastrintestinal ao meio externo.

OK, mas então o que é o câncer colorretal?  Segundo o INCA “os cânceres de cólon e reto, ou câncer colorretal, abrangem os tumores que acometem o intestino grosso (o cólon) e o reto, sendo que cerca de 50% localizam-se no reto e sigmoide e 30% no ceco.” Além disso, seguindo as estatísticas divulgadas pela mesma instituição no ano de 2021, observamos que o câncer colorretal além de definições é muito incidente.

Em 2020, o câncer de cólon e reto foi o segundo mais incidente tanto em homens quanto em mulheres, ultrapassando inclusive o câncer de colo de útero. Além disso foi o terceiro câncer mais mortal tanto em mulheres quanto nos homens.

Fatores de Risco para o Câncer colorretal

Esse tipo de câncer se associa fortemente aos hábitos alimentares, principalmente por integrar o trato gastrointestinal. A incidência cada vez maior dessa doença associa-se a exposição cada vez maior da população de forma geral em relação aos fatores de risco. Dentre os fatores de risco figuram:

  • Idade superior aos 50 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 59% dos casos ocorrem naqueles entre 50 e 74 anos.
  • História familiar de câncer colorretal.
  • Presença de pólipos intestinais.
  • Doenças inflamatórias do intestino (retocolite ulcerativa e doença de Crohn).
  • Obesidade e sobrepeso, a gordura corporal em excesso relaciona-se a níveis inflamatório e insulínicos aumentados, que levam a uma inibição de apoptose celular e aumento do processo de crescimento celular. A OMS recomenda manter os níveis de índice de massa corporal entre 18.5 e 24.9 Kg/m² para minimizar as chances de desenvolvimento desse tipo de câncer.
  • Sedentarismo – atividade física é um fator protetor por reduzir os níveis insulínicos e os marcadores inflamatórios e acelerar o trânsito intestinal, reduzindo o tempo de contato entre a mucosa intestinal e substâncias que favorecem a carcinogênese. A OMS recomenda a realização de atividade física de intensidade moderada a vigorosa por 150 minutos ou mais durante a semana.
  • Tabagismo.
  • Álcool – o risco aumentado é evidenciado quando se ingere mais que 30 gramas de etanol por dia (o que equivale a cerca de duas doses de bebida alcoólica). Esse risco é explicado pelo etanol ser convertido em acetaldeído no organismo (uma substância identificada como carcinogênica) e por facilitar a entrada de substâncias carcinogênicas nas células da mucosa gastrintestinal.
  • Dieta – a ingesta de carnes vermelhas ou processadas é um fator de risco por promover o contato com substancias potencialmente carcinogênicas para aqueles que já possuem pré-disposição genética, bem como a baixa ingestão de frutas, legumes e verduras (o que é considerado fator de proteção por induzir a apoptose de células defeituosas e ajudar na regulação de fatores inflamatórios). Segundo a OMS, recomenda-se o consumo de carne vermelha de até 500 gramas de carne cozida por semana e evitar o consumo de carnes processadas.

Prevenção do Câncer colorretal

Visando seus fatores de risco mais importantes e a forma como a doença progride, a promoção de hábitos de vida saudáveis é um dos pilares da prevenção desta doença. Assim, o incentivo a adoção de uma vida ativa evitando o sedentarismo e longos períodos parado frente a telas, a preferência por alimentos ‘de verdade’ como frutas, legumes e vegetais, além do controle do consumo de álcool e cessação do tabagismo deve ser rotineiramente realizado por todos os profissionais da saúde, uma vez que a prevenção dos canceres não é responsabilidade exclusiva dos oncologistas.

Nos últimos anos, a quimioprevenção (como o uso da aspirina prevenindo a incidência e recorrência de adenomas) vem sendo estudada e mostra resultados benéficos, contudo, apresenta efeitos colaterais importantes como o risco de sangramento gastrointestinal e de acidente vascular cerebral hemorrágico aumentados.

Exames para Rastreamento

Para promover o controle adequado do câncer colorretal, a OMS indica ações de prevenção, detecção precoce e acesso ao tratamento como caminho a ser trilhado. Dentre elas, a detecção é uma das mais visadas, uma vez que, quanto mais cedo o câncer é identificado, melhor o seu prognóstico.

Entendi, mas o que é rastreamento? O rastreamento é caracterizado como a aplicação de testes em uma população-alvo previamente definida que não tenha sintomas, objetivando reduzir a morbimortalidade de uma doença. E caso haja a identificação de alguma doença iniciar medidas visando um melhor desfecho clínico.

Fonte: Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, 2021.

Screening

Para os cânceres de cólon e reto, a OMS recomenda ações de rastreamento e de diagnóstico precoce. Para se ter maior entendimento sobre quem deve ser rastreado o Ministério de Saúde brasileiro divide a população em relação ao risco de ter esse tipo câncer:

Classificação de risco para câncer colorretal. Fonte: Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, 2021.

            Em relação aos exames utilizados para o rastreio são utilizados principalmente o sangue oculto nas fezes, os testes imunológicos fecais (ambos não invasivos), a colonoscopia e a retossigmoidoscopia (invasivos):

  • Não invasivos: O exame de sangue oculto nas fezes (FOBT, do inglês, fecal occult blood test) é utilizado em um primeiro momento quando há suspeição, nos casos positivos, triará para um exame confirmatório (invasivo).
  • Invasivos: Os exames endoscópicos, como retossigmoidoscopia e colonoscopia, são não apenas formas alternativas de rastreio, mas exames confirmatórios sendo o próximo passo ao sangue oculto alterado ou sinais e sintomas de suspeição, além disso, permitem a biopsia de achados suspeitos e retirada de lesões pré-malignas.
Métodos e características dos exames para o rastreamento do câncer colorretal. Fonte: Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva, 2021.

Assim, atualmente no Brasil, o rastreio desse tipo de câncer é previsto pelo Caderno de Atenção Primária sobre o rastreamento (CAB 29), sendo recomendado para pessoas de 50 a 75 anos, usando sangue oculto de fezes de formal bienal, e seguido de colonoscopia ou retossigmoidoscopia caso haja sinais e sintomas de suspeição ou alteração no sangue oculto. 

Tratamento do Câncer colorretal

Hoje em dia, segue-se o preceito de que cada tipo de tumor tem um tipo diferente de tratamento. Caso não haja tumor metastático (presença de focos cancerígenos em outro local que não seja o cólon, reto ou regiões próximas a eles) indica-se a cirurgia objetivando a cura, caso haja metástase precisamos iniciar a quimioterapia em um primeiro momento e o que restar após esse tratamento inicial é retirado de forma cirúrgica. Nos casos mais extremos, indica-se a quimioterapia paliativa.

Concluindo, com esse artigo espero ter conseguido demonstrar a importância da identificação precoce dos casos do câncer colorretal e consequentemente da necessidade de inserimos e termos em mente a rotina de rastreio para a população alvo, objetivando sempre o melhor para os nossos pacientes. Espero que eu tenha contribuído para melhorar seu atendimento clínico e sua prática médica diária! Bons estudos, querido(a) leitor(a)!

Autor: Claudio Afonso Caetano Pereira Peixoto

Instagram: @claudioafon

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2010.

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Detecção precoce do câncer / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2021.

DE PAULA PIRES, Maria Eugênia et al. Rastreamento do câncer colorretal: revisão de literatura. Brazilian Journal of Health Review, v. 4, n. 2, p. 6866-6881, 2021.

DE PAULA SCANDIUZZI, Maria Cristina; CAMARGO, Erika Barbosa; ELIAS, Flavia Tavares Silva. Câncer colorretal no Brasil: perspectivas para detecção precoce. Brasília Med, v. 56, p. 8-13, 2019.

O que é câncer? INCA – Instituto Nacional de Câncer, 2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/o-que-e-cancer. Acesso em 22 de abril de 2022. 

ESTATÍSTICAS de câncer. INCA – Instituto Nacional de Câncer, 2021. Disponível em: https://www.inca.gov.br/numeros-de-cancer. Acesso em 22 de abril de 2022. 

RESUMO sobre câncer colorretal (completo) – Sanarflix. SANAR, 2020. Disponível em: https://sanarmed.com/resumo-sobre-cancer-colorretal-completo-sanarflix. Acesso em 22 de abril de 2022. 

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.