Pediatria

Caso Clínico de Sífilis Congênita

Caso Clínico de Sífilis Congênita

Compartilhar
Imagem de perfil de Sanar

História clínica

Recém-nascido, sexo masculino, parto normal, com idade gestacional de trinta e nove semanas e oito dias, pesando 3,375 kg, apgar 9/9. A mãe apresentou VDRL positivo no primeiro mês de gestação, com valor de 1/64. No quarto mês esse resultado passou para 1/16 e no sétimo mês para 1/8. A mãe relata tratamento com três doses de penicilina benzatina e informa que seu parceiro foi também medicado. O recém-nascido foi admitido ao alojamento conjunto em bom estado geral, recebendo aleitamento materno exclusivo e com suas funções fisiológicas preservadas.

Foram feitas as devidas precauções com relação às vacinas primárias do neonato, como também a solicitação de teste não treponêmico.

Exame físico

sinais vitais: FC 120 bpm (normal para a idade: 100 a 160 bpm).

Geral: bom estado geral, ativo, eupneico, afebril, choro forte, cianose em extremidades, resposta reflexa presente, aleitamento materno com êxito.

Cabeça: sem linfonodomegalia palpáveis.

Neurológico: Reflexos de Moro, preensão palmar e plantar e sucção preservados.

Pulmonar: expansibilidade preservada, murmúrio vesicular presente bem distribuído em ambos os hemitórax.

Cardíaco: bulhas rítmicas e normofonéticas em 2 tempos, sem sopros.

Abdome: globoso, ruídos hidroaéreos presentes, ausência de massas e visceromegalias.

Membro inferior: pulso palpável e simétrico, ausência de edemas.

Exames complementares

Exames laboratoriais do recém nascido

Exames de imagem

Radiografia de ossos longos: sem alterações dignas de nota.

Figura 1. Radiografia de ossos longos

QUESTÕES PARA ORIENTAR A DISCUSSÃO

1. Qual a hipótese diagnóstica esperada para o caso?

2. O recém-nascido pode vir a nascer sem sintomas?

3. Quais exames pedir quando há suspeita desse diagnóstico?

4. Qual a classificação da doença para esse quadro e quais os possíveis sintomas?

5. Qual a conduta terapêutica?

Discussão

A hipótese diagnóstica de sífilis congênita para o recém-nascido advém do fato da mãe ter contraído essa enfermidade durante a gestação e do exame sorológico do neonato ser positivo. O Treponema pallidum, agente causador da sífilis congênita, infecta o concepto através da placenta, por via hematogênica.1 Outra via de contaminação é no momento do parto normal, caso hajam lesões vaginais, ou no aleitamento materno, se as mamas estiverem lesionadas.1 A transmissão pode ocorrer em toda a fase gestacional, mas ocorre com mais frequência na sífilis materna primária e secundária.1 A sífilis é umas das doenças do ciclo gestacional que apresenta as maiores taxas de transmissibilidade.2

A dificuldade em reconhecer os sintomas da doença, a ausência de diagnóstico, a falha em aderir corretamente ao tratamento e a falta de informação sobre a gravidade da doença são fatores que se relacionam a um pré-natal inadequado.3 A mãe do recém-nascido em estudo relatou ter feito o tratamento solicitado, mas sem respaldo de que aderiu corretamente à prescrição. Essa falta de comprometimento que algumas mães têm em relação a essas doenças e ao pré-natal explica os diversos casos de sífilis congênita.3

Cerca de 60% dos pacientes portadores de sífilis congênita que nascem vivos são assintomáticos, por isso a importância de um pré-natal e uma anamnese completa, para não haver atrasos no diagnóstico e no início do tratamento do neonato.4 O recém-nascido em evidência nasceu a termo, sem nenhuma complicação e assintomático. As manifestações clínicas dessa doença podem vir a aparecer com três a oito semanas e com três meses de idade os sintomas já são apresentáveis.4

O caso evidenciado é definido como sífilis congênita precoce, pois foi apresentada antes dos dois anos de vida; após essa idade é reconhecida como sífilis congênita tardia.1 Alguns sintomas encontrados nessa comorbidade são: exantema maculopapular, fissuras radiadas periorificiais, pseudoparalisia dos membros, periostite, osteíte, osteocondrite, rinite sero-sanguinolenta, icterícia, anemia e linfadenopatia generalizada.2

Sobre os recém-nascidos de mães portadoras de sífilis que não foram medicadas ou nas quais houve inadequação ao tratamento é solicitado o VDRL do recém-nascido, radiografia de ossos longos, hemograma, líquor cefalorraquidiano.2

A radiografia de ossos longos é um exame importante no diagnóstico da doença. As lesões de ossos longos são moderadamente incidentes na sífilis congênita e são as primeiras manifestações encontradas na vida fetal.5 O caso exibido não apresentou alterações radiológicas. O líquor positivo é mais comum em crianças sintomáticas do que em crianças que não apresentam sintomas. Esse exame irá avaliar a celularidade, o perfil protéico e o VDRL.2 O Líquor do neonato referido no caso apresentou negativo para o VDRL. A anemia, trombocitopenia, leucopenia ou leucocitose podem estar presentes nas manifestações clínica dessa patologia.6 Os valores obtidos tanto no VDRL da mãe como no do neonato comprovaram a hipótese diagnóstica de sífilis congênita.

Há indicação de tratamento para todos aqueles pacientes com diagnóstico provável ou confirmado de Sífilis Congênita.6 Aqueles casos que tiveram alterações clínicas, sorológicas, liquóricas, radiológicas, hematológicas ou recém- -nascido assintomático, no qual a mãe não comprovou o uso adequado do tratamento, requerem intervenção terapêutica.6 É recomendado o uso de penicilina G cristalina na dose de 50.000 UI/ Kg/dose, via endovenosa, durante 10 dias, de doze em doze horas. Em casos que não houver alteração do líquor cefalorraquidiano, pode ser utilizada a penicilina G procaína 50.000 UI/Kg, dose única diária, por via intramuscular, durante 10 dias.2

Toda mãe que contraiu sífilis durante a gestação merece acompanhamento para o recém-nascido até seus dois anos de vida. Essa assistência deverá ser feita durante o 1º, 2º, 3º, 6º, 12º, 18º mês e 2º ano de idade, juntamente com exames sorológicos não treponêmicos.6

O tratamento prescrito para o referido caso foi antibioticoterapia com penicilina G cristalina 50.000UI/Kg/dose, por via endovenosa, de doze em doze horas, durante dez dias. O recém-nascido respondeu bem ao tratamento. Permaneceu assintomático, em bom estado geral, recebendo alta hospitalar após dez dias de tratamento.

Diagnósticos diferenciais principais

Objetivos de aprendizado/ competências

• Identificar na anamnese e no pré- -natal mãe portadora de sífilis;

• Priorizar a conduta quando se suspeita de sífilis congênita;

• Reconhecer que mesmo com a carga alta de VRDL, o paciente pode estar assintomático;

• Fazer o diagnóstico diferencial da sífilis congênita;

• Priorizar o tratamento, mesmo com recém-nascido assintomático.

Pontos importantes

• Anamnese e pré-natal são essenciais para um bom acompanhamento e um parto sem complicações.

• A contaminação pelo canal do parto e por aleitamento materno ocorre se houver lesões nessas áreas.

• Recém-nascidos portadores de sífilis congênita, em sua maioria, são assintomáticos.

• Os exames mais importantes a serem solicitados quando há suspeita de sífilis congênita são: VDRL, líquido cefalorraquidiano, radiografia de ossos longos e hemograma.

• O líquor costuma ser negativo em crianças que são assintomáticas.

• A sífilis congênita pode ser precoce ou tardia.

• As manifestações clínicas da sífilis precoce são: lesões de ossos longos, lesões cutâneas e pseudoparalisia dos membros, dentre outras.

• O tratamento é indicado para todos recém-nascido com diagnóstico provável ou comprovado de sífilis congênita.

• É necessário o acompanhamento do recém-nascido até seus dois anos de vida.

• A recomendação do tratamento de Sífilis Congênita precoce é Penicilina G cristalina de 50.000UI/ Kg/dose, durante dez dias.

• Mães que foram acometidas por essa doença merecem acompanhamento do recém-nascido até os dois anos de vida.

Posts relacionados:

Compartilhe com seus amigos: