Ciclo Básico

Epidemiologia: o que é e qual a diferença da abordagem clínica?

Epidemiologia: o que é e qual a diferença da abordagem clínica?

Compartilhar
Imagem de perfil de Graduação Médica

Confira um artigo completo sobre a Epidemiologia e a sua Importância para esclarecer todas as suas dúvidas. Ao final, confira alguns materiais educativos para complementar ainda mais os seus estudos.

A epidemiologia é uma área muito importante para a medicina por subsidiar dados e informações que são válidas para a clínica e para a melhora de indicadores de saúde das populações.

Essa ciência é conhecida como a base da saúde pública e, por isso, é imperativo conhecê-la! Pensando nisso, preparamos esse artigo com os conceitos mais importantes em epidemiologia e qual sua diferença com a abordagem clínica.

Boa leitura!

Abordagem da Clínica X Abordagem da Epidemiologia

A abordagem médica no dia a dia é a abordagem clínica. Ela difere em muitos fatores da abordagem epidemiológica. 

A primeira, se não a principal diferença entre as duas abordagens, se dá no diagnóstico e isso é descrito pela Associação Internacional de Epidemiologia (IEA), em seu Guia de Métodos de Ensino (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD, 1973):

“Enquanto a clínica dedica-se ao estudo da doença no indivíduo, analisando caso a caso, a epidemiologia debruça-se sobre os problemas de saúde em grupos de pessoas, às vezes grupos pequenos, na maioria das vezes envolvendo populações numerosas.”

Significado do termo

O termo Epidemiologia deriva do grego, onde compreendemos cada prefixo da seguinte forma: epi (sobre) + demos (povo) + logos (ciência). Etimologicamente, epidemiologia significa ciência do que ocorre com o povo.

Como sabemos, para melhorar a saúde na comunidade, é preciso melhorar a saúde de maneira individual. Isso reforça o quanto a epidemiologia precisa de dados derivados da clínica. 

Por isso, é evidente que os avanços da clínica se beneficiam da epidemiologia tanto quanto a epidemiologia da clínica, embora sejam abordagens diferentes como mostramos e continuaremos explorando a seguir.

Fonte de informação da clínica e fonte de informação da epidemiologia

Outra diferença importante entre as duas abordagens é a fonte de informação que elas utilizam primariamente. 

Quando precisamos tratar um indivíduo, utilizamos a anamnese, exame físico e os exames complementares para chegar ao diagnóstico da doença. Essa é a fonte de informação da clínica.

Já na epidemiologia, como o objetivo não é o de curar alguém individualmente, mas sim de melhorar a saúde em uma determinada comunidade e diminuir os fatores de risco que ali existem, a fonte de informação são os indicadores de saúde.

Indicadores de saúde

Os indicadores de saúde são medidas desenvolvidas para facilitar a quantificação e avaliação das informações sobre atributos de saúde de uma população. Por meio delas é possível identificar também o desempenho do sistema de saúde.

Esses indicadores são comparados, analisados e interpretados por profissionais da saúde pública que atuam na gestão dos serviços e do sistema. Os seus resultados podem nortear os processos decisórios e de elaboração de políticas públicas, por exemplo. 

Desta forma, a informação epidemiológica serve principalmente para se identificar quais os programas de saúde que serão realizados naquela região, se estão sendo eficazes e ajudam a compreender como uma situação de saúde se manifesta naquele grupo.

Exemplificando os conceitos

Vamos pensar no seguinte cenário:

Existem duas comunidades: a comunidade A, com muitos idosos hipertensos e diabéticos, e a comunidade B, com muitos indivíduos jovens e envolvidos com o tráfico de drogas. 

Nessa condição, qual o melhor local para se realizar um programa de combate às drogas?

Se refletirmos, conseguimos compreender dois pontos importantes com esse enunciado e correlacioná-los com os indicadores de saúde:

  1. Sem os indicadores em saúde não saberíamos em qual comunidade existe esse problema;
  2. Sem essas informações, não saberíamos para qual comunidade desviar um determinado recurso.

É dessa forma que funciona o pensamento epidemiológico.

Uma vez que essa informação é conhecida, surge uma dúvida: como sabemos por quanto tempo acompanhar uma população? 

Pelo raciocínio da epidemiologia, compreendemos que o acompanhamento deve ser constante! Para isso, existem os serviços da vigilância epidemiológica, que fornece dados para alimentar os sistemas de saúde.

As ações sobre o problema encontrado tendem a ser mantidas pelo tempo em os indicadores de saúde estiverem alterados. Nesse caso que usamos como exemplo, o envolvimento com o tráfico de drogas.

Nesse ponto, há uma semelhança com o acompanhamento clínico, já que o paciente segue sendo observado até ele fique curado e, caso ele não possa ser curado, é acompanhado em sua reabilitação e/ou cuidados paliativos. 

Na epidemiologia, portanto, o acompanhamento de uma população é traduzido em dados de indicadores em saúde; são lançados os programas para que esses indicadores melhorem ou não piorem; e são verificados ao longo do tempo para averiguar a efetividade desses programas.

Caso eles melhorem os indicadores, verifica-se a necessidade de manutenção ou encerramento, caso não sejam mais necessários.

A tabela abaixo resume as informações que apresentamos até aqui.

Tabela sobre as diferentes características da abordagem clínica e epidemiológica.

Epidemiologia: medidas de significância estatística

A análise da significância estatística é considerada um procedimento para verificar a discrepância de uma hipótese estatística em relação aos dados observados, utilizando uma medida de evidência conhecida como “p-valor”.

Em um teste de hipótese estatística, verifica-se a existência da significância estatística quando o “p-valor” observado for menor que o nível de significância definido para o estudo. 

A significância estatística é de extrema importância para se verificar se o resultado encontrado em um estudo ocorreu pela associação ou pelo acaso.

O nível de significância é geralmente determinado pelo pesquisador antes da coleta dos dados e é tradicionalmente fixado em 0,05 ou menos, dependendo da área de estudo.

Exemplificando os conceitos

Mas o que isso significa?

O conceito de “p-valor” pode ficar meio abstrato na nossa mente, então vamos ao exemplo:

Quando eu faço um estudo, descrevo nele a metodologia utilizada, correto? Se alguém quiser reproduzir meu estudo, reproduzirá nas mesmas condições que eu fiz. Utilizando uma população diferente, um “n” de mesmo valor, porém com pessoas diferentes das utilizadas por mim.

Vamos supor então que 100 pesquisadores reproduzam meu estudo. 

Em condições perfeitas, essas 100 pesquisas devem chegar ao mesmo resultado (100% das vezes). Porém, normalmente, admite-se que exista 5% de resultados diferentes no estudo (daí o número 0,05 para “p”). 

Ou seja, a cada 100 pesquisas reproduzidas, 95% ou mais têm de ter o mesmo resultado para que esse estudo seja considerado estatisticamente relevante. 

Quanto menor o valor de “p”, maior a associação e mais relevante é o estudo, pois indica que a associação não foi feita ao acaso.

Quanto maior o “n” de um estudo, significa que a população estudada foi maior e, sendo assim, esse estudo apresenta maior significância estatística.

Acaso x Vieses

Um estudo epidemiológico está sujeito a erros que podem alterar ou interferir no resultado dele. Esses erros podem ser sistemáticos ou aleatórios.

As distorções de um estudo relacionadas com erros aleatórios são chamadas de erros de precisão.Já as relacionadas com erros sistemáticos são chamadas de erros de validade ou vieses

O viés refere-se ao tamanho da discrepância entre o valor verdadeiro medido em uma população real e o valor de sua estimativa no estudo. Assim, compreendemos que o viés é um erro metodológico.

Tipos de vieses

Existem vários tipos de vieses. Iremos exemplificar o viés de seleção e o viés de informação.

Viés de seleção

Esse viés está relacionado com a metodologia de seleção dos sujeitos da pesquisa ou a fatores que influenciam a participação desses sujeitos na pesquisa. 

A associação entre a exposição e o desfecho difere entre os que participaram e os que não participaram do estudo.

Confira alguns exemplos de vieses de seleção em estudos de caso-controle e em estudos de coorte viés de seleção em estudo:

  • Caso-controle: quando você realiza coleta de sangue de familiares de pacientes com AVC para estudo de biomarcadores, você está verificando em pacientes mais expostos do que a população fonte.
  • Coorte: tabagistas tendem a não responder questionários, o que faz com que você tenha menos indivíduos desse grupo em seu estudo.

Viés de informação

O viés de informação está relacionado com a coleta errônea das informações em um estudo clínico. Pode ser pela classificação incorreta das variáveis (em variáveis categóricas) ou pela mensuração incorretas (em variáveis numéricas).

Os vieses de informação podem ser diferenciais, quando o erro difere de acordo com outras variáveis do estudo, ou não diferenciais, quando ele não tem relação com outras variáveis do estudo. 

O viés de recordação é um exemplo de viés de informação diferencial. Nele, o paciente tem uma tendência a lembrar de eventos e experiências relacionados com a exposição.

Confundimento

O confundimento não é tecnicamente um viés. 

Ele é fenômeno particularmente importante no processo inferencial de estudos observacionais, por ser praticamente universal nesse tipo de estudo.

O confundimento (ou o uso de uma variável confundidora) se refere a existência de fatores com potencial preditor para o desfecho e esses fatores estão distribuídos diferentemente entre os grupos de exposição. 

Com isso, o efeito da exposição está “misturado” com o efeito de outra variável, levando a um viés do resultado.

Hipótese nula

A hipótese nula é uma hipótese na qual se pretende confrontar os fatos, sendo, muitas vezes, uma afirmação quanto a um parâmetro que é uma propriedade estatística na população. 

Ela geralmente afirma a não existência de relação entre dois fenômenos medidos.

Em uma hipótese nula não se consegue identificar se um determinado fator é de risco ou proteção.

Eficácia x Efetividade x Eficiência

eficácia é o benefício adquirido em condições ideais em um estudo. Quando você utiliza esse estudo em uma população real e verifica se os benefícios foram mantidos, você está medindo a efetividade

Já a eficiência é a utilização dos recursos disponíveis da melhor maneira possível, no menor tempo possível e com menor custo, evitando “desperdícios”.

A validade interna e a validade externa são dois conceitos que se relacionam com os conceitos de eficácia e efetividade.

Como estudar epidemiologia?

Devido a importância das informações que a epidemiologia fornece para a prática clínica, é indispensável que todos os médicos sejam capazes de compreender os conceitos-chave por trás dessa ciência.

A epidemiologia é assunto recorrente na vida do médico desde a graduação. Os conceitos e possíveis aplicações da epidemiologia facilitam a compreensão dos desenhos de estudo e possibilitam uma melhor criticidade ao ler um artigo científico, por exemplo.

Por ser a ciência base da saúde pública, esse também é um conteúdo que cai nas provas de residência médica. Vale dizer que não aparece apenas na seção de medicina preventiva!

Epidemiologia nas provas da faculdade e da residência médica: o que é cobrado?

Tudo começa pelo domínio dos conceitos básicos, assim como várias outras matérias como microbiologia e fisiologia, por exemplo.

A epidemiologia caminha lado a lado com a bioestatística e você pode se beneficiar muito com os estudos dessas matérias de forma concomitante.

Dica para potencializar os estudos

A utilização de flashcards ou mapas mentais podem ser estratégias muito úteis para te ajudar a fixar os conceitos da epidemiologia. Também é importante fixá-los por meio de questões e com a leitura de artigos científicos. 

Pensando nisso, o Sanarflix desenvolveu um banco de questões supercompleto e atualizado para você!

Quer ter acesso a uma série de conteúdos ricos sobre microbiologia médica e outros inúmeros assuntos em medicina? Vale a pena você conhecer o SanarFlix, a plataforma de estudo mais completa para a jornada do estudante de medicina

Referências

FRANCO, L. J; PASSOS, A. D. C. Fundamentos de Epidemiologia. 2 ed. Barueri, SP: Manole, 2011. 424 p.

LEON, Gordis. Epidemiologia. 5 ed. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações, 2017.

VILLELA, E.D.M; OLIVEIRA, F.M. Epidemiologia sem mistérios: tudo aquilo que você precisa saber! Jundiaí: Paco Editorial, 2018.

Sugestão de leitura complementar

Esses artigos também podem ser do seu interesse: