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Novos tratamentos para vários tipos de câncer | Colunistas

Novos tratamentos para vários tipos de câncer | Colunistas

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Imagem de perfil de Natália Paniágua Andrade

A Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) realizou, entre os dias 4 e 8 de junho, o ASCO Annual Meeting 2021, o evento mais importante sobre câncer no mundo. Um dos destaques foi o assunto sobre o avanço dos tratamentos para tumores.

O que é o câncer?

Primeiramente, deve-se entender o que é o câncer. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), é um termo que abrange mais de 100 diferentes tipos de doenças malignas que têm em comum o crescimento desordenado de células, que podem invadir tecidos adjacentes ou órgãos a distância. 

Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo.

Os diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células do corpo. Quando começam em tecidos epiteliais, como pele ou mucosas, são denominados carcinomas. Se o ponto de partida são os tecidos conjuntivos, como osso, músculo ou cartilagem, são chamados sarcomas.

Figura 1. Ilustração de uma célula normal até uma célula cancerosa.
Fonte: https://www.inca.gov.br/como-surge-o-cancer

Outras características que diferenciam os diversos tipos de câncer entre si são a velocidade de multiplicação das células e a capacidade de invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes, conhecida como metástase.

Pode surgir em qualquer parte do corpo. Entretanto, alguns órgãos são mais afetados do que outros; e cada órgão, por sua vez, pode ser acometido por tipos diferenciados de tumor, mais ou menos agressivos.

Manifesta-se partir de uma mutação genética, ou seja, de uma alteração no DNA da célula, que passa a receber instruções erradas para as suas atividades. As alterações podem ocorrer em genes especiais, denominados proto-oncogenes, que a princípio são inativos em células normais. Quando ativados, os proto-oncogenes tornam-se oncogenes, responsáveis por transformar as células normais em células cancerosas.

Quais as novidades nos tratamentos atuais?

Até hoje, a oncologia sempre vinculou os tratamentos quimioterápicos a um determinado tipo de câncer, originário de um órgão específico, resistente aos tratamentos padronizados atualmente. Por exemplo, o tratamento de adenocarcinoma (subtipo de câncer muito comum) de mama utiliza drogas quimioterápicas muito diferentes do adenocarcinoma de intestino, ou de pulmão.
Em uma ação absolutamente incrível, a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulatório de medicamentos nos EUA, aprovou um medicamento de imunoterapia chamado pembrolizumabe, para o tratamento de câncer avançado, com metástases disseminadas pelo corpo, independentemente do tipo ou de seu órgão de origem.

O requerimento básico para sua indicação e eficácia é a detecção, nas biópsias do tumor, de alterações moleculares biológicas específicas.
Estudos realizados até o momento confirmaram que a presença de elevada instabilidade de microssatélites ou de deficiência de MMR (dMMR), ambas detectadas por exames de anatomia patológica, confere aos tumores alta sensibilidade à imunoterapia com pembrolizumabe.

Os pacientes portadores de tumores com essas alterações moleculares, que já estariam sem possibilidade de controle eficiente com os tratamentos convencionais, tiveram respostas variando de 36% a 47% dos casos. Esses resultados, apesar de preliminares, foram tão incríveis que a FDA liberou o uso da droga de forma acelerada.

O doutor Jacques Tabacof, coordenador da Oncologia Clínica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, comemorou a notícia: “É uma revolução na oncologia podermos concentrar nossa atenção para indicar um tratamento não mais no tipo de tumor e no seu órgão de origem, mas na presença de um aspecto molecular específico desse câncer”.

Tipos de câncer mais recorrentes e tratamentos

  • Câncer de mama

A partir de dados do estudo MonarchE, o abemaciclibe é agora indicado para tratamento do câncer de mama HR+/HER2-, tanto na doença inicial com alto risco de recorrência, quanto na doença metastática indolente ou agressiva.

Abemaciclibe é um inibidor de CDK4/6 que já vem sendo estudado no contexto do câncer de mama avançado, e agora recebeu aprovação da ANVISA para uso em doença inicial com alto risco de recorrência, em associação com terapia endócrina no tratamento adjuvante. 

  • Câncer de próstata

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a inclusão da indicação terapêutica de enzalutamida para o tratamento de homens adultos com câncer de próstata metastático sensível à castração (CPSCm) sem uso concomitante de docetaxel. Esta é uma fase da doença anterior ao estágio resistente à castração.

Essa nova indicação é baseada nos resultados dos estudos de fase 3 ARCHES e ENZAMET e foi priorizada pela Anvisa por considerar não só que o CPSCm é uma doença séria e debilitante, mas também os benefícios de eficácia da droga sobre a alternativa terapêutica existente.

  • Câncer de pulmão

Amivantamabe é o primeiro anticorpo biespecífico para pacientes que possuem câncer de pulmão não pequenas células com mutações de inserção no éxon 20 do EGFR.

A partir de 20 de setembro de 2021, a ANVISA liberou o uso de amivantambe em monoterapia em pacientes com câncer de pulmão não pequena células (CPNPC) com mutações de inserção no exon 20 do EGFR (Exon20ins) após progressão à quimioterapia a base platina. A aprovação teve como base os dados do estudo CHRYSALIS, que mostram que o amivantamabe apresentou taxa de resposta objetiva de 40% em pacientes com CPNPC avançado com Exon20ins do EGFR após terapias de primeira linha.    

O amivantamabe é um anticorpo totalmente humanizado com afinidade ao domínio extracelular do EGFR e do MET. Decorrente dessa interação, há inibição da ativação dos receptores pelos respectivos ligantes, que leva a fagocitose das células por macrófagos e ataque citotóxico por linfócitos natural killers. 

Conclusão

Em virtude do que foi mencionado, é possível perceber que a maioria dos novos tratamentos para vários tipos de câncer – levando em consideração os mais recorrentes – se devem aos fármacos. 

Dentre outros aspectos, são novidades de grande impacto para a medicina, uma vez que, uma gama de tratamentos é descoberta a cada pesquisa e teste, oferecendo esperança aos médicos e qualidade de vida aos pacientes. 

Autora: Natália Paniágua de Andrade

Instagram: @natipaniagua_

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Referências

Os novos estudos que prometem mudar o tratamento contra o câncer. https://veja.abril.com.br/blog/letra-de-medico/os-novos-estudos-que-prometem-mudar-o-tratamento-contra-o-cancer/

Como surge o câncer? https://www.inca.gov.br/como-surge-o-cancer

Estado do tratamento do câncer na América. https://ascopubs.org/op/special/series/state-cancer-care-america

Uma revolução no tratamento do câncer. https://centrodeoncologia.org.br/noticias-cancer/uma revolucao-no-tratamento-do-cancer/

Anvisa aprova nova indicação para abemaciclibe: tratamento adjuvante de câncer de mama precoce hr+/her2- com alto risco de recorrência. https://oncologiabrasil.com.br/anvisa-aprova-nova-indicacao-para-abemaciclibe-tratamento-adjuvante-de-cancer-de-mama-precoce-hrher2-com-alto-risco-de-recorrencia/

Anvisa aprova nova indicação de enzalutamida para pacientes com câncer de próstata metastático sensível à castração sem uso de docetaxel concomitante. https://oncologiabrasil.com.br/anvisa-aprova-nova-indicacao-de-enzalutamida-para-pacientes-com-cancer-de-prostata-metastatico-sensivel-a-castracao-sem-uso-de-docetaxel-concomitante/ 

Anvisa aprova o uso de amivantamabe em pacientes com cpnpc com mutações de inserção no exon 20 do egfr após progressão a platina. https://oncologiabrasil.com.br/anvisa-aprova-o-uso-de-amivantamabe-em-pacientes-com-cpnpc-com-mutacoes-de-insercao-no-exon-20-do-egfr-apos-progressao-a-platina/