Fique por dentro das doenças que o médico deve solicitar a USG de abdome total para auxiliar no diagnóstico e prognóstico.
Que a clínica é soberana, a gente já sabe. A anamnese e o exame físico representam mais de 80% da parte do diagnóstico do paciente. Porém, algumas vezes é preciso lançar mão de exames complementares para confirmar algumas doenças e, ainda, poder acompanhar a evolução do quadro clínico.
Dentre esses exames, a ultrassonografia (USG) de abdome total é uma ferramenta diagnóstica essencial para o médico clínico, fornecendo informações detalhadas sobre as estruturas abdominais.
Neste artigo, abordaremos os principais diagnósticos que o médico clínico deve estar ciente ao realizar ou interpretar uma USG de abdome total. Além disso, exploraremos as inovações recentes no uso da ultrassonografia à beira do leito, conhecida como Pocus, e discutiremos os protocolos de avaliação rápida FAST e eFAST.
Revisando anatomia: estruturas do abdome
A cavidade abdominal é divida por quatro planos: dois horizontais e dois verticais, delimitando as seguintes regiões e estruturas:
- Hipocôndrio direito (HCD): fígado, vesícula biliar, rim direito;
- Epigástrio: lobo esquerdo do fígado, piloro, duodeno, cólon transverso e cabeça e corpo do pâncreas;
- Hipocôndrio esquerdo: baço, estômago, rim esquerdo, cauda do pâncreas;
- Flanco direito (ou região lateral): cólon ascendente, rim direito e jejuno;
- Mesogástrio (ou região umbilical): duodeno, jejuno, íleo, aorta abdominal, mesentério, linfonodos;
- Flanco esquerdo (ou região lateral): cólon descendente, jejuno, íleo;
- Fossa ilíaca direita (ou região inguinal): ceco, apêndice, ovário e tuba uterina direita;
- Hipogástrio: bexiga, útero, ureter;
- Fossa ilíaca esquerda (ou região inguinal): cólon sigmoide, ovário e tuba esquerda.
A cavidade abdominal também pode ser divida em quatro quadrantes. A partir do plano mediano (vertical), seguindo o trajeto da linha alba e o plano transumbilical (horizontal) entre L3 e L4.
Quando a USG é indicada?
A ultrassonografia é indicada para uma ampla variedade de condições e é especialmente útil na visualização de estruturas e tecidos moles do corpo humano. A USG é não invasiva, segura, amplamente disponível e não utiliza radiação ionizante, tornando-a uma opção de imagem bastante popular.
Além disso, a USG pode ser utilizada em procedimentos como guia, como é o caso da punção aspirativa da tireoide.
Uma questão que é preciso ter atenção é que este é um exame operador dependente. Então, deve-se escolher bem onde realizar a USG.
Estruturas bem visualizadas pelo exame de USG
A ultrassonografia é um método de imagem versátil e amplamente utilizado, sendo indicado para a visualização de uma variedade de órgãos e estruturas do corpo humano. Seu uso varia de acordo com a condição clínica e as necessidades diagnósticas de cada paciente.
Este exame é particularmente eficaz na visualização dos seguintes órgãos e estruturas:
Abdome
É frequentemente utilizada para avaliar órgãos como o fígado, vesícula biliar, pâncreas, rins, baço e órgãos do trato gastrointestinal. Ela pode detectar cálculos biliares, tumores, cistos, obstruções, esteatose hepática, anormalidades renais, entre outros.
Sistema Urinário
A USG é amplamente utilizada para avaliar os rins, a bexiga e a próstata. Pode detectar cálculos renais, obstruções, tumores, infecções do trato urinário, entre outros.
Sistema Reprodutivo
É muito utilizada para avaliar o útero, os ovários e as estruturas adjacentes em mulheres. Também é útil para avaliar a próstata e os testículos em homens. Ela pode detectar tumores, cistos, anormalidades estruturais, gravidez ectópica, entre outros.
Músculos e Tendões
Pode ser utilizada para avaliar lesões musculoesqueléticas, como entorses, tendinites e rupturas musculares. Ela fornece imagens em tempo real, permitindo uma visualização dinâmica durante o movimento.
Vasos Sanguíneos
A USG é frequentemente usada para avaliar a circulação sanguínea e os vasos sanguíneos, como artérias e veias. Ela pode detectar anormalidades como trombos, estenoses, aneurismas, entre outros.
Coração
A ultrassonografia cardíaca, também conhecida como ecocardiografia, é uma técnica especializada que permite avaliar a estrutura e a função do coração. É utilizada para diagnosticar e monitorar doenças cardíacas, como doença das válvulas cardíacas, insuficiência cardíaca, entre outras.
O Pocus, protocolo FAST e eFAST
Além dos avanços na USG de abdome total, a inovação no campo da ultrassonografia à beira do leito, conhecida como Pocus (Point-of-Care Ultrasound), tem desempenhado um papel fundamental no cuidado do paciente.
O Pocus permite que o médico clínico realize avaliações rápidas e direcionadas utilizando um aparelho de ultrassom portátil. Isso possibilita a obtenção de informações imediatas em tempo real, auxiliando na tomada de decisões clínicas e no monitoramento de pacientes em condições críticas.
Protocolo FAST
Um exemplo de aplicação do Pocus é o protocolo FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma), que é utilizado para avaliar rapidamente pacientes vítimas de trauma abdominal em situações de emergência.
Esse protocolo permite identificar a presença de líquido livre na cavidade abdominal, indicando sangramento interno e ajudando na triagem e no direcionamento do tratamento.
Protocolo eFAST
Outro protocolo importante é o eFAST (Extended Focused Assessment with Sonography for Trauma), que inclui a avaliação não apenas do abdome, mas também do tórax, permitindo a detecção de líquido livre em outras áreas, como o espaço pleural e pericárdico, em casos de trauma torácico.
USG de abdome total
A USG de abdome total é amplamente utilizada para investigar uma variedade de condições abdominais. Ela permite a visualização dos órgãos internos, como o fígado, vesícula biliar, pâncreas, rins, baço e órgãos do trato gastrointestinal.
Também é capaz de identificar anomalias estruturais, como cistos, tumores, abscessos e obstruções. Além disso, a USG auxilia na avaliação de vasos sanguíneos, linfonodos e identificação de líquido livre na cavidade abdominal, o que pode ser indicativo de sangramento interno.
Principais diagnósticos que a USG abdominal é importante
Entre os principais diagnósticos que o médico clínico deve estar familiarizado ao interpretar uma USG de abdome total, incluem-se:
- Colelitíase: detecção de cálculos na vesícula biliar, que podem causar cólica biliar aguda e complicações como a colecistite.
- Esteatose hepática: avaliação do grau de acúmulo de gordura no fígado, que pode estar relacionado a condições como obesidade, diabetes e abuso de álcool.
- Hepatite: identificação de alterações no parênquima hepático que podem ser indicativas de inflamação ou infecção viral.
- Nefrolitíase: visualização de cálculos nos rins, que podem causar dor intensa e obstrução do fluxo urinário.
- Pancreatite: avaliação do pâncreas em casos de suspeita de inflamação aguda ou crônica.
- Massas abdominais: detecção de tumores sólidos ou cistos em órgãos como o fígado, pâncreas, rins ou baço.
- Ascite: identificação de acúmulo anormal de líquido na cavidade abdominal, muitas vezes associado a doenças hepáticas, insuficiência cardíaca ou malignidades.
Confira os achados da USG de abdome em algumas dessas patologias e outras em que esse exame é utilizado como padrão-ouro.
USG abdome total total no diagnóstico pancreatite aguda
O diagnóstico da pancreatite aguda, apesar de ser clínico e laboratorial, às vezes necessita de exame de imagem.
Nesse contexto, o USG é o exame de escolha. Ele serve para identificar casos de coledocolitíase (causa biliar), exclusão de outras causas (como a cólica nefrética, colecistite, etc).
USG abdome total no diagnóstico das doenças hepáticas
Confira os achados nas principais doenças do fígado:
Achados da USG na cirrose hepática
Em casos de suspeita de cirrose hepática, a ultrassonografia é o primeiro exame a ser solicitado. Pode ser solicitado ainda um Doppler hepático para analisar a vascularização do fígado.
As alterações observadas na USG são:
- Fígado com atrofia do lobo direito e hipertrofia dos lobos esquerdo e caudado;
- Margem lobulada ou irregular;
- Bordas rombas;
- Heterogeneidade difusa do parênquima;
- Aumento do diâmetro da veia porta, circulação colateral e redução do fluxo ao Doppler.
Esse último achado, a depender da clínica do paciente, pode ser sugestivo de hipertensão portal.
A USG na esteatose hepática
Na esteatose hepática, o médico pode lançar mão tanto da ultrassonografia, ressonância magnética (RM) e tomografia computadorizada (TC). Entretanto, inicialmente é solicitado uma USG para avaliação e graduação da esteatose.
Dentre os principais achados e graduação, temos:
- Esteatose leve: textura levemente hiperecóica (mais brilhante que os parênquimas esplênicos e renal);
- Esteatose moderada: perda da visualização dos limites dos vasos intra-hepáticos;
- Acentuada: perda da definição do diafragma devido à baixa penetração sonora.
USG abdome total no diagnóstico das doenças das vias biliares
Confira os achados das principais doenças biliares:
Colecistolitíase
Essa patologia, a ultrassonografia é o padrão-ouro. Deve-se orientar que o paciente esteja em jejum de no mínimo 8h, quando não for situação de emergência.
Dentre os achados, temos:
- Cálculos biliares, que se apresentam como hiperecogênicos com sombra acústica posterior. Estes cálculos são móveis à mudança de posição do paciente;
- Lama biliar;
- Espessamento da parede da vesícula.
Colecistite
Quanto na colecistite litiásica, como na alitiásica, a USG é considerada o exame padrão-ouro.
Os principais achados são:
- Sinal de Murphy: O sinal de Murphy é um achado clínico que também pode ser avaliado durante a USG. Consiste em dor ou desconforto no quadrante superior direito do abdome durante a compressão suave da sonda de ultrassom sobre a vesícula biliar inflamada. Esse sinal indica sensibilidade e inflamação da vesícula biliar;
- Cálculos biliares;
- Sinal do halo: Espessamento e edema da parede da vesícula (>4mm);
- Presença de líquido pericolecístico/edema;
- Aumento do volume e distensão da vesícula biliar (hidrópica);
- Presença de gás intramural (colecistite enfisematosa).
Coledocolitíase
Os cálculos no colédoco podem ser detectados por USG, sendo o achado de dilatação deste (>6cm em não colecistectomizados e >9cm em colecistectomizados) e das vias biliares intra-hepáticas e sinal de obstrução.
USG abdome total no diagnóstico litíase urinária e da Doença Renal Crônica
A investigação de um paciente com clínica suspeita de litíase renal é iniciada com a ultrassonografia. Através dela é possível identificar nefrolitíase, dilatação do sistema pielocalicinal e ureterolitíase, no terço proximal.
Na USG o cálculo é visto como uma estrutura hiperecogênica, com artefato cintilante e em cauda de cometa. Geralmente possui sombra acústica posterior.
Algumas vezes, como em situações de cálculos muito pequenos, é importante que seja feito outro exame de imagem, como a TC para excluir outros possíveis diagnósticos.
Principais achados na USG de abdome total na doença renal crônica (DRC)
A USG é solicitada quando há dúvidas e o paciente que apresenta o quadro urêmico é decorrente de uma insuficiência renal crônica ou aguda. Apesar de não existir características específicas na imagem para determinar a DRC, temos alguns achados que favorecem a suspeita:
- Tamanho renal diminuído (menor que 8 a 8,5cm): Os rins afetados pela doença renal crônica tendem a ter um tamanho reduzido em comparação com rins saudáveis. Esse achado pode ser indicativo de perda progressiva de função renal.
- Ecogenicidade renal alterada: Os rins afetados pela doença podem ter uma ecogenicidade aumentada, tornando-se mais brilhantes em relação ao fígado, baço e outros órgãos adjacentes. Esse achado está relacionado ao acúmulo de tecido fibroso e cicatrizes nos rins.
- Atrofia cortical: A DRC pode causar atrofia cortical, que é a diminuição da espessura da camada externa do rim, conhecida como córtex renal. Na USG, a atrofia cortical pode ser visualizada como uma redução na espessura da área cortical em relação à medula renal (< 6mm);
- Rim policístico: Em alguns casos de doença renal crônica, como na doença renal policística, podem ocorrer múltiplos cistos nos rins. Esses cistos podem ser identificados na USG como estruturas arredondadas, cheias de líquido, espalhados por toda a região renal.
- Calcificações renais: A presença de calcificações renais pode ser observada na USG em alguns casos de DRC. As calcificações podem ser encontradas tanto nos rins como nos vasos sanguíneos associados. A presença de calcificações renais pode indicar um processo de calcificação patológica associado à doença renal crônica.

A clínica através da imagem
É importante ressaltar que a interpretação adequada da USG de abdome total requer conhecimento clínico e habilidades técnicas. Portanto, é recomendado que o médico clínico busque aprofundar seu treinamento nessa área, a fim de obter resultados precisos e tomar decisões clínicas embasadas.
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Ele explora os princípios básicos da radiologia e das diversas técnicas de imagem, como a radiografia, ultrassonografia, tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM). Cada modalidade é abordada de forma detalhada, fornecendo informações essenciais sobre aquisição de imagens, interpretação correta e reconhecimento das principais patologias.
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Sugestão de leitura complementar
- Princípios e Usos da Ultrassonografia à Beira Leito na Medicina | Colunistas
- Ultrassonografia pulmonar à beira leito | Colunistas
- Resumo: FAST e eFAST | Ligas
Referência
LIMA, Matheus Eugênio de Souza et. al. Clínica através da imagem. 1ed, Salvador: Editora Sanar, 2020.