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Tecnologia e medicina: dados de pacientes e a eficiência médica | Especialistas

Tecnologia e medicina: dados de pacientes e a eficiência médica | Especialistas

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Imagem de perfil de Vinicius Côgo Destefani

Nesse séries de 4 artigos, eu, Cezar Taurion e Felipe Costa, estamos cavando fundo, desvendando e apontando os 4 pilares do declínio da relação médico-paciente e como a tecnologia, particularmente a face mais sedutora dessa — Inteligência Artificial, poderá ajudar no resgate ao Juramento de Hipócrates. Enxergaremos o problema pelo ângulo do paciente e prescreveremos — perdão pela presunção, um modelo de resgate do compromisso que jamais será atingido pela máquina: a empatia pelo seu semelhante — humanologia. 

Se você ainda não leu o primeiro pilar (artigo), sugerimos fortemente a fazer isso agora!  

Além da dificuldade de extrair os dados da anamnese, exame físico ou exames complementares, de forma completa, previsível e confiável, o médico também não consegue centralizar todos os dados coletados em uma grande base. Esse é o segundo pilar.

O problema do segundo pilar, não reside simplesmente em ter que registrar os dados para formalizar um exigência legal, ou padronizar o “como” de se fazer o registro, mas sim na capacidade de recuperar esse dados no futuro para assim poder tomar as decisões da forma mais embasada o possível.

Hoje, há uma redundância do registro dados no prontuário devido à necessidade legal por detrás dos documentos médicos, o que gera a desinformação e confusão, ao invés de contribuir de forma vetorial única para uma solução voltada e centrada no paciente.

Segundo o Conselho Federal de Medicina o “o prontuário médico é um documento elaborado pelo profissional e é uma ferramenta fundamental para seu trabalho. Nele constam, de forma organizada e concisa, todos os dados relativos ao paciente, como seu histórico familiar, anamnese, descrição e evolução de sintomas e exames, além das indicações de tratamentos e prescrições. Feito no consultório ou hospital, o prontuário é composto de informações valiosas tanto para o paciente como para o próprio médico. Seu principal objetivo é facilitar assistência ao paciente”.

Essa definição é perfeita, mas para um prontuário do século passado.

Não entenda mal: o prontuário ainda exerce o papel de registro das decisões em saúde e garantidor do sigilo! Mas a quantidade e a forma como os dados serão, e já são coletados, inviabiliza que um documento de texto, analógico ou digitalizado, supra a necessidade original pela qual o prontuário foi criado: armazenar, organizar e apresentar, sigilosamente, todas as métricas e checkpoints de vida de um paciente.

É impossível acreditar que folhas e mais folhas com avaliações de múltiplas equipes médicas, entremeadas por dados de exames, registros de intercorrências, anotações de cuidados, evoluções diárias, pareceres de equipes de enfermagem, fonoaudiologia, fisioterapia, farmácia clínica, nutrologia, e por fim, páginas de conciliação de despesas e materiais gastos, possam entregar uma linha do tempo clara da vida do paciente.

Se olharmos para a quantidade de dados imputados no prontuário, encontra-se outro problema: mesmo entre pares, os dados gerados pelos médicos não seguem uma padronização sobre a forma como devem ser registrados.

Mesmo que o problema do “onde armazenar de forma segura, completa e acessível” fosse resolvido, iríamos esbarrar nessa outra falha. E isso não é uma falha pontual.

É a consequência da incapacidade do médico de extrair os itens de forma completa, previsível e confiável. Isso é marcante quando se trata dos exames laboratoriais. 

Como múltiplas empresas, produzem múltiplos exames, para identificar a mesma coisa, caso um paciente faça o mesmo exame, por exemplo uma dosagem sérica de hormônio tireoestimulante (TSH), em duas redes de laboratório diferentes, ele provavelmente terá dois resultados dentro da normalidade, expressos de forma totalmente diferente. 

Isso, ao ser registrado em prontuário, exige perspicácia médica para atentar ao fato que no futuro, ao olhar novamente os exames, mesmo que eles tenham valores distintos, representam o mesmo padrão normal. Ou seja, alta chance de erro!

E isso não pára nos exames laboratoriais. No que se refere a exames de imagem, temos um problema maior ainda.

Além de das múltiplas modalidades — ultrassonografia, tomografia, ressonância magnética — gerarem arquivos diferentes, o mesmo exame, realizado em máquinas diferentes, é exportado em arquivos de formato diferente, e só permite ao médico compará-los se caso possui o programa específico de cada máquina. 

É Pandora, em pessoa. Mesmo que os exames pudessem ser acessados e lidos a qualquer hora e qualquer lugar (como já existe), o assincronismo de foco — incapacidade de múltiplos exames de técnicas diferentes, olharem para o mesmo alvo de forma instantânea — exige que o médico forme um cachê mental multimodal, para assim, interpretar, cruzar informações e checar à conclusão. 

Quem se prejudica nessa história é o paciente. O CD do exame esquecido em casa, a senha das várias plataformas que não são lembradas, o computador do médico que não é potente para ler o DICOM da RNM de 4,5T, o ecocardiograma que não foca na função diastólica ou não descreve as veias pulmonares, a tomografia de joelho, que irradia o paciente, não esclarece as partes moles da articulação e poderia ter sido trocada por um ultrassom… esse quebra-cabeça, às vezes, parece que foi feito para não ser solucionado!

Mas nem tudo é um mar revolto. Muitos bons exemplos têm surgido nesse cenário de armazenamento, categorização e acessibilidade de informações de saúde. A Augmedix, de São Francisco, é um serviço de documentação médica que permite que o médico gaste menos tempo em registrar dados e mais tempo com o paciente. 

Através de um ambiente híbrido entre a máquina e o humano, o paciente e o médico podem interagir de forma natural, enquanto, remotamente, um assistente virtual observa a interação, extrai e armazena informações importantes da consulta, compara com itens semelhantes do prontuário médico e apresenta o relatório da interação médico-paciente, bem como a decisão acordada. Isso tudo ao vivo e em segundos. Um outro exemplo é a DrChrono, que foca na formação de um caminho pré-determinado com formulários e organogramas que são automaticamente preenchidos e seguidos, ao passo que o paciente vai avançando dentro do atendimento da emergência hospitalar. Isso demonstrou melhorar a tanto a eficiência médica, quanto reduzir a chance de erros por “saltar” passos.

Um outro exemplo é a DrChrono, que foca na formação de um caminho pré-determinado com formulários e organogramas que são automaticamente preenchidos e seguidos, ao passo que o paciente vai avançando dentro do atendimento da emergência hospitalar. Isso demonstrou melhorar a tanto a eficiência médica, quanto reduzir a chance de erros por “saltar” passos.

Numa visão mais ampla, para solucionarmos essa lacuna da incapacidade do sistema médico de centralizar todos os dados coletados em uma grande base, vamos precisar seguir por pelo menos 2 caminhos.

O primeiro é o caminho da organização pela máquina dos dados crus ou da raw data. O médico irá imputar sem esforço os dados extraídos do paciente (o como não importa, seja via natural language como na Babylon Health, ou via abordagem híbrida como na Augmedix) e caberá à inteligência artificial, decidir, separar, categorizar e armazenar os diferentes inputs.

O segundo caminho é através da fencing data, na qual o médico será guiado pelo algoritmo, inteligente ou não, a extrair e armazenar exatamente o dado esperado pelo linha de decisão.

Se o primeiro é mais sedutor porém mais distante de ser tornar realizado, o segundo, apesar de engessar a decisão médica, já está entre nós!

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