Psiquiatria

Transtornos do afeto em psiquiatria e suas alterações

Transtornos do afeto em psiquiatria e suas alterações

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Transtornos do afeto é um termo genérico que compreende várias modalidades de vivências afetivas. Na tradição psicopatológica distinguem-se 5 tipos básicos de vivências afetivas: 

  1. Humor ou estado de ânimo; 
  2. Emoções; 
  3. Sentimentos; 
  4. Afetos; 
  5. Paixões.

Humor ou estado de ânimo

É definido como o tônus afetivo do indivíduo. Nesse sentido, trata-se do estado emocional basal e difuso em que se encontra a pessoa em determinado momento e que é capaz de ampliar ou reduzir o impacto das experiências reais, modificando, muitas vezes, a natureza e o sentido das experiências vivenciadas. Em boa parte das vezes, é vivido corporalmente e relaciona-se de forma considerável às condições corporais, vegetativas e do organismo. 

Emoções

São reações afetivas momentâneas, agudas, de curta duração, desencadeadas por estímulos significativos, internos ou externos, conscientes ou inconscientes. São frequentemente acompanhadas de reações somáticas, corporais (neurovegetativas, motoras, hormonais, viscerais e vasomotoras). Desse modo, assim como o humor, é uma experiência tanto psíquica quanto somática e revela a psicossomática básica do ser humano. 

Sentimentos

São estados e configurações afetivas estáveis, de menor intensidade e menos reativos a estímulos passageiros do que as emoções. Configuram um fenômeno muito mais mental do que somático, estando comumente associados a conteúdos intelectuais, valores, representações. Nesse contexto, podem variar a depender da cultura e do universo semântico linguístico de cada povo, sendo, portanto, um estado mais complexo do que a emoção. 

Paixões

É um estado afetivo extremamente intenso, que domina a atividade psíquica do indivíduo, captando e dirigindo a atenção e o interesse deste em uma só direção, inibindo os demais interesses.

Segundo Pieron (1996), a paixão intensa impede o exercício de uma lógica imparcial. 

Afetos

Capacidade do indivíduo de expressar/externalizar seu humor, sua emoção, seu sentimento, sua afetividade por meios além da fala. É a qualidade e o tônus emocional que acompanham uma ideia ou representação mental. 

Exemplo: 

Ideia: “eu estou feliz” → sentimento: felicidade, emoção: alegria, humor: euforia → externalizada através do tom de voz (aumentado), da mímica facial (sorrisos, risos, olhar feliz) etc. 

Reação afetiva

Tendo em vista que a vida afetiva ocorre em um contexto de relações do Eu com o mundo e com as pessoas, a afetividade caracteriza-se particularmente por sua dimensão de reatividade. Nesse contexto, há duas dimensões da resposta ou reação afetiva de um indivíduo: 

1. Sintonização afetiva: capacidade de o indivíduo ser influenciado afetivamente por estímulos externos, entrando em sintonia com o ambiente. Ex.: alegrar-se com eventos positivos, entristecer-se com momentos dolorosos etc. 

2. Irradiação afetiva: capacidade que o indivíduo tem de transmitir, irradiar ou contaminar os outros com seu estado afetivo momentâneo. Assim, faz os outros entrarem em sintonia com ele.

Na rigidez afetiva, o indivíduo não deseja/tem dificuldade ou impossibilidade tanto de sintonização como de irradiação afetiva. Portanto, trata-se de uma característica das pessoas que têm alteração do afeto (embotamento afetivo, distanciamento afetivo etc.), presentes em algumas doenças como autismo e esquizofrenia.

Tipo e classificação das emoções

Emoções positivas

São aquelas que promovem o bem-estar, favorecem a socialização e resultam, geralmente, de gratificações quando um desejo ou necessidade é satisfeito. 

Emoções negativas

Resultam ou interferem nas desavenças nas relações interpessoais. Relacionam-se, portanto, com as sensações de repulsa, raiva e agressividade. 

Sistemas de valência

Sistemas de valência negativa

Incluem respostas a situações aversivas, como resposta a ameaça aguda ou medo, resposta a ameaça potencial ou ansiedade, resposta a ameaça constante, experiências de perda e não recompensa frustrante. 

Sistemas de valência positiva

Incluem respostas anímicas e comportamentais positivas, como motivação para aproximação, avaliação de recompensas, aprendizado positivo de recompensas ou de hábitos que libere outros recursos psíquicos, como, por exemplo, os cognitivos. 

Características da emoção

Podem ser divididas em três grandes grupos: primárias, secundárias ou de fundo. 

Emoções universais, primárias ou básicas

São aquelas que podem ser identificadas através de comportamentos faciais específicos universalmente compartilhados e, portanto, passíveis de reconhecimento. Em algumas culturas, certas emoções só possam ser exibidas de uma forma ditada por regras sociais, de modo que emoções universais passam ser camufladas por expressões culturalmente controladas. Entretanto, ainda assim há um padrão muscular facial comum, reproduzido fielmente dentro deste povo, permitindo o seu reconhecimento e diferenciação de outras emoções naquele local. Inicialmente foi postulado que havia 6 emoções humanas básicas e universais: alegria, tristeza, medo, raiva, nojo (aversão ou repugnância) e surpresa. Tal que ao longo dos anos, vários estudiosos propuseram novas emoções consideradas básicas. Ademais, é válido salientar que não existe necessariamente apenas uma expressão facial para cada emoção, mas uma variedade de manifestações discretamente diferentes para cada uma delas (famílias de emoções). 

Emoções secundárias ou sociais (não universais)

São mais aprendidas socialmente e mais variáveis entre os subgrupos culturais. Elas seriam construídas com mesclas de emoções primárias, de fundo e outras emoções sociais. Alguns exemplos são: vergonha, culpa, remorso, simpatia, compaixão, embaraço, orgulho, ciúmes, inveja, gratidão, admiração, submissão, indignação e desprezo. 

Emoções de fundo

São estados basais; mais basais, inclusive, do que o humor, sendo, muitas vezes, difícil a sua diferenciação. Compreendem as sensações de bem ou mal-estar, de fadiga, lassidão, de ter mais ou menos energia etc. 

Emoções não conscientes 

São emoções processadas de forma automática, não controlada e ultrarrápida, de modo que ocorrem sem que haja tomada de consciência pelo indivíduo que as experimenta. Assim, mesmo que os sujeitos se mantenham totalmente não conscientes da presença de estímulos ou conteúdos emocionais (não se lembrem do ocorrido), são capazes de influenciar e alterar comportamentos e tomadas de decisão.

Alterações de humor

Distimia

Na prática, é um diagnóstico que se refere a um transtorno depressivo leve e crônico. 

Disforia

Diz respeito a uma alteração do humor acompanhada de uma tonalidade afetiva desagradável, mal-humorada. É sinônimo de irritabilidade elevada. Assim, quando se fala em depressão disfórica ou mania disfórica, está sendo designado um quadro de depressão ou mania acompanhado de forte componente de irritação. amargura, desgosto ou agressividade. 

Irritabilidade patológica

Sintoma bastante frequente e inespecífico, indicando, não raramente, quadro de natureza orgânica. O profissional deve sempre diferenciar a irritabilidade primária, oriunda de um transtorno mental (depressão, ansiedade, mania, esquizofrenia), da irritabilidade secundária, relacionada a transtorno neurocognitivo e/ou pacientes com lesões/disfunções cerebrais. 

Em psiquiatria, esse termo muitas vezes é substituído por disforia, visto que ambos correspondem a um estado de irritabilidade anormalmente elevado. 

Euforia

Na mania, o termo euforia define o humor morbidamente exagerado, no qual predomina um estado de alegria intensa e desproporcional às circunstâncias. 

Elação

Estado em que há, além da alegria patológica, a expansão do Eu, uma sensação subjetiva de grandeza e de poder. 

Hipotimia

Diminuição do humor; humor entristecido

Puerilidade

Alteração do humor que se caracteriza pelo aspecto infantil, simplório, regredido. Nesses casos, o indivíduo ri ou chora por motivos banais e sua vida afetiva é superficial, sem afetos profundos, consistentes e duradouros. Pode estar presente em alguns pacientes com esquizofrenia, déficit intelectual/retardo mental, transtorno de personalidade histriônica e em personalidades imaturas de modo geral. Moria, por sua vez, é uma forma de alegria muito pueril, ingênua e boba, a qual pode estar presente em pacientes com lesões extensas de lobo frontal, deficiência mental e/ou com quadros demenciais acentuados. 

Estado de êxtase

Sensação de fusão entre o Eu e o mundo, em que o indivíduo perde a noção de onde termina seu corpo e o mundo começa (não consegue precisar os limites que separam seu corpo do restante). Comum em contextos religiosos ou místicos. Em geral, indivíduos em estado de êxtase podem demonstrar certa perplexidade diante da situação.

Catatimia

Termo usado para se referir a importante influência que a vida afetiva, sobretudo o estado de humor, exerce constantemente sobre as demais funções psíquicas (atenção, vivência do tempo, memória, sensopercepção, vontade etc.). De forma mais simples, é quando o humor contamina/nubla as outras funções mentais. Exemplo: A euforia (alteração de humor) pode afetar o juízo de realidade das pessoas na Mania. 

Ansiedade

Estado de apreensão em relação ao futuro, inquietação interna desagradável. Inclui manifestações somáticas e fisiológicas (dispneia, taquicardia, tensão muscular, tremores, sudorese, tontura etc.) e manifestações psíquicas (desconforto mental, expectativa ruim quanto ao futuro etc.). 

Angústia

Ansiedade corporificada. São, portanto, as reações corporais (sensação de aperto no peito e na garganta, dispneia, tremores etc.) secundárias ao desconforto mental (manifestação psíquica). O medo diferencia-se da ansiedade e da angústia por se referir a um objeto mais ou menos preciso (o medo é, quase sempre, medo de algo). 

Alterações das emoções e dos sentimentos

Medo

É um estado de progressiva insegurança, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que o indivíduo quer evitar, o que progressivamente se considera menos capaz de fazer. Em geral, é uma condição fisiológica. Pode ser dividido em seis fases, de acordo com o grau de extensão e intensidade que nele alcançam as manifestações de inativação. São elas: 

  1. Prudência; 
  2. Cautela; 
  3. Alarme; 
  4. Ansiedade; 
  5. Pânico (medo intenso); 
  6. Terror (medo intensíssimo). 

Fobias

São medos desproporcionais e incompatíveis com as possibilidades de perigo real oferecidas pelos desencadeantes, chamados de objetos ou situações fobígenas. Comumente, no indivíduo fóbico, o contato com os objetos ou situações fobígenas desencadeia intensa crise de ansiedade. 

Existem vários tipos de fobias classificadas de acordo com o objeto ou situação fobígenos, dentre as quais se destacam: 

  • Fobia simples: medo intenso e desproporcional de determinados objetos, geralmente pequenos animais (barata, sapo, cachorro etc.). 
  • Fobia social: medo de contato e interação social. 
  • Claustrofobia: medo de entrar (e ficar preso) em espaços fechados, como elevadores, salas pequenas, túneis etc. 
  • Agorofobia: Corresponde ao medo de estar em locais de difícil escapatória, nos quais há a sensação de perda de controle e de que, caso fosse necessário, seria difícil conseguir ajuda. 

Em função disso, é comum que pessoas com agorofobia evitem multidões, engarrafamentos, espaços com grande circulação de pessoas (como shoppings, supermercados etc.). 

Pânico

O pânico se manifesta quase sempre através das crises de pânico. Essas são crises agudas e intensas de ansiedade, caracterizadas por uma sensação de morte iminente e medo de perder o controle/enlouquecer. Comumente, as crises duram alguns minutos (cerca de 10 a 15 min) e tendem a se repetir com periodicidade variável. 

O medo de ter uma nova crise é uma característica marcante nos pacientes com pânico. As crises de pânico podem ocorrer após exposição a desencadeantes (contato com situações ou objetos fobígenos, morte de pessoa próxima e/ou significativa, estresse intenso etc.), mas, em muitos casos, não se consegue identificar o fator que as provocou. Quando não há motivo claro que explique essas crises, denominamos síndrome do pânico. 

Apatia

É a diminuição da excitabilidade emocional. Nesse caso, apesar de saberem da importância afetiva que determinada experiência deveria ter para eles, não conseguem sentir nada, não reagem efetivamente. O paciente torna-se hiporreativo; é um “tanto faz quanto tanto fez” para tudo na vida. Em contrapartida, na hipomodulação o indivíduo tem uma incapacidade de modular a sua resposta de acordo com os estímulos externos, embora ainda consiga sentir (o que não acontece na apatia). Já na abulia, a pessoa tem sentimento, fica triste, mas não tem vontade de fazer nada. 

Sentimento de falta de sentimo

É a vivência de incapacidade para sentir emoções, experimentada de forma muito penosa pelo indivíduo. O paciente, nesses casos, queixa-se de se sentir “morto por dentro” ou em estado de vazio afetivo. Diferentemente da apatia, o “não sentir” é vivenciado com muito sofrimento, como uma tortura. 

Anedonia

É a incapacidade total ou parcial de sentir prazer com determinadas atividades e experiências da vida que antes eram prazerosas. 

Indiferença afetiva e “bela indiferença”

Trata-se de certa frieza afetiva incompreensível diante dos sintomas que o paciente apresenta por conta de déficits psicogênicos e/ou potencialmente reversíveis. Ocorre em pacientes com transtorno de personalidade histriônica, borderline, conversão, dissociação. 

Labilidade afetiva e incontinência afetiva

Estados nos quais ocorrem mudanças súbitas e imotivadas de humor, sentimentos ou emoções. São formas de hiperestesia emocional, indicando exagero e inadequação da reatividade afetiva. Na labilidade afetiva, o indivíduo oscila de forma abrupta, rápida e inesperada de um estado afetivo para outro. Enquanto na incontinência afetiva, o indivíduo não consegue conter de forma alguma sua reação afetiva. 

A resposta afetiva ocorre geralmente em consequência de estímulos apropriados, mas é sempre muito desproporcional. Podem ocorrer em quadros de depressão ou mania, estados graves de ansiedade e esquizofrenia. Ainda podem estar presentes em quadros psico-orgânicos. 

O riso patológico e o choro patológico ocorrem como episódios motivados de choro e/ou riso intensos e abruptos, de curta duração, em forma de crises, associados geralmente a lesões e/ou disfunções neuronais. 

Redução dos afetos nas psicoses

Hipomodulação do afeto

Incapacidade do paciente de modular a resposta afetiva de acordo com a situação existencial, indicando rigidez afetiva na sua relação com o mundo. 

Distanciamento afetivo e pobreza de sentimentos

Perda progressiva e patológica das vivências afetivas. Há, aqui, o empobrecimento relativo à possibilidade de vivenciar alternâncias e variações sutis na esfera afetiva. 

Embotamento afetivo e devastação afetiva

Perda profunda (devastação) de todo tipo de vivência afetiva. Isso não significa necessariamente que o indivíduo não sente, mas sim que ele não consegue transmitir o que está sentindo. Nesse sentido, o embotamento afetivo é observável, através da mímica, postura e da atitude do paciente. , 

Afetos qualitativamente alterados nas psicoses

Ambivalência afetiva

Caracteriza-se pela experiência de sentimentos opostos (p.ex.: amor e ódio) em relação a um mesmo estímulo, de modo simultâneo. 

Quando ocorre de forma radical e intensa, acompanhada de desarmonia profunda das vivências psíquicas, caracteriza um aspecto importante da experiência afetiva de alguns pacientes com esquizofrenia, sendo denominada ataxia intrapsíquica. 

Inadequação do afeto ou paratimia

Reação completamente incongruente a situações existenciais ou a determinados conteúdos ideológicos, revelando desarmonia profunda da vida psíquica; grande contradição entre a esfera ideativa e a afetiva. 

Neotimia

É a designação para sentimentos e experiências afetivas inteiramente novos, estranhos e bizarros, vivenciados por pacientes em estado psicótico, geralmente, esquizofrênicos.

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Perguntas Frequentes:

1 – O que é anedonia?

É a incapacidade total ou parcial de sentir prazer com determinadas atividades e experiências da vida que antes eram prazerosas. 

2 – O que é euforia?

O termo euforia define o humor morbidamente exagerado, no qual predomina um estado de alegria intensa e desproporcional às circunstâncias. 

3 – O que é crise de pânico?

Essas são crises agudas e intensas de ansiedade, caracterizadas por uma sensação de morte iminente e medo de perder o controle/enlouquecer.