Coronavírus

A alta incidência de doenças neurológicas e psiquiátricas pós COVID-19

A alta incidência de doenças neurológicas e psiquiátricas pós COVID-19

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Neste post buscaremos tratar sobre um assunto muito importante: a alta incidência de doenças neurológicas e psiquiátricas pós COVID-19. Sabemos que a COVID-19 tem deixado sequelas naqueles que enfrentam a doença, especialmente na manifestação grave. Sabemos também que uma importante porcentagem destas sequelas se dá na esfera neuropsiquiátrica. Aqui traremos mais um dado que corrobora com os estudos feitos até o momento, e discutiremos a importância do assunto para os médicos.

A alta incidência de sequelas neuropsiquiátricas

No Reino Unido foi realizado um estudo com dados de prontuários eletrônicos de múltiplas instituições de saúde. A partir destes dados, foi calculada a incidência de sequelas neurológicas e psiquiátricas em 236.000 pacientes com COVID-19. 

Os resultados mostraram que, durante um follow-up de 6 meses, 13% receberam o primeiro diagnóstico de alguma condição neurológica ou psiquiátrica.

Importante ressaltar que estes pacientes não tinham histórico de doenças neuropsiquiátricas prévias. 

Já entre aqueles que já possuíam pelo menos um diagnóstico prévio, 21% desenvolveram uma nova condição neurológica ou psiquiátrica associada. 

Comparação com outras doenças respiratórias

Os dados foram comparados com a incidência de tais condições em outras doenças respiratórias. Cerca de 342.000 pacientes, com Influenza ou outra doença respiratória, foram pareados (de acordo com variáveis pertinentes) e comparados aos pacientes com COVID-19.

O resultado aponta para algo peculiar: a incidência de condições neuropsiquiátricas foi significativamente maior nos pacientes com COVID-19. 

O que nos leva na direção de pensar que há algo de particular na infecção pelo SARS-CoV-2 que predispõe os indivíduos às sequelas neurológicas e/ou psiquiátricas. 

Sequelas neuropsiquiátricas mais comuns

Dentre as sequelas neuropsiquiátricas mais comuns, temos desordens de ansiedade, representando cerca de 17,4% dos diagnósticos; desordens psicóticas (2,8%); AVC isquêmico (2,1%); demência (0,7%) e hemorragia intracraniana (0,6%). 

Além disso, sequelas neurológicas ou psiquiátricas tiveram incidência maior naqueles pacientes com manifestação grave da COVID-19, ou com encefalopatia associada. 

Nestes pacientes com encefalopatia, definida como a presença de delirium ou outra alteração de consciência, a incidência das sequelas foi muito mais preocupante.

Nestes, desordens de humor e ansiedade apresentaram incidência de 22%; AVC isquêmico com 9% de incidência; e psicose e demência com 7% e 5%, respectivamente. 

Conclusões

Os dados apresentados pelo estudo chamam a atenção, pois envolvem um tamanho amostral significativo, que apontam para alta incidência de condições neuropsiquiátricas em até 6 meses após a COVID-19. 

Os dados mostram que a presença da condição aparece mesmo naqueles sem um diagnóstico prévio, embora naqueles com histórico a incidência seja maior. 

Todos estes dados apontam para a necessidade urgente de buscarmos um modo de diminuir estas sequelas. Mais estudos que mostrem o caminho a seguir nesta direção serão necessários. 

Por fim, é importante para o médico estar ciente de tais incidências, pois estes pacientes poderão ser diagnosticados nas consultas de rotina em até muito tempo depois de terem vencido a COVID-19. 

Atualização: limitações e sugestões

Um artigo de correspondência trouxe alguns pontos acerca da pesquisa realizada e acima discutida.

A alta taxa de incidência de demência (4,72%) dentro de 6 meses após o paciente apresentar encefalopatia relacionada a COVID-19, fez os autores da correspondência pedirem por mais informações.

Por exemplo, é importante saber se estes pacientes apresentavam histórico prévio de transtorno cognitivo leve ou delirium, ou estas condições foram excluídas de forma garantida.

Isto importa para definir se a encefalopatia associada a COVID-19, por si só, foi suficiente para causar demência em período tão curto, ou se estes pacientes já apresentavam condições predisponentes que foram agravadas.

Os autores também sugerem a presença de psiquiatras nas clínicas de reabilitação pós COVID-19, o que é uma sugestão bastante interessante, tendo em vista o tema deste post.

Por fim, será necessário incorporar a prática de questionar infecção prévia pelo SARS-CoV-2 na vigência de uma coleta de dados da história clínica de qualquer doente.

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Referências

High Incidence of Neurological and Psychiatric Illness After COVID-19 – NEJM

Neuropsychiatric disorders and COVID-19

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