O abdome oferece uma das avaliações mais ricas em semiologia, a ponto de exigir uma ordem específica no exame físico. Diferente de outras regiões, a sequência correta inclui inspeção, ausculta, percussão e, por fim, palpação. Essa adaptação ocorre porque a manipulação inicial do abdome pode alterar a distribuição dos gases no trato gastrointestinal, comprometendo a precisão dos achados.
A palpação, último passo do exame, muitas vezes é realizada superficialmente, mas é justamente essa etapa que fornece os achados semiológicos mais relevantes.
Antes de iniciar o exame, é fundamental conhecer as divisões do abdome e seus marcos anatômicos. Esse conhecimento permite interpretar corretamente manifestações como uma dor localizada no hipocôndrio direito, auxiliando no diagnóstico clínico.
Divisão do abdome e marcos anatômicos
Os marcos anatômicos representam a projeção dos órgãos abdominais sobre a parede abdominal, permitindo a delimitação precisa de cada estrutura. Dessa forma, esse conhecimento é essencial para correlacionar sintomas e sinais clínicos com órgãos específicos.

Por exemplo, o fígado, um dos órgãos com maior relevância semiológica, ocupa principalmente o hipocôndrio direito e o epigástrio. Em algumas pessoas, sua extensão pode alcançar o hipocôndrio esquerdo, o que deve ser considerado durante a avaliação clínica.


Exame do abdome: circulação colateral
A circulação colateral é um achado clínico caracterizado pela visualização de vasos dilatados na parede abdominal, resultante de uma obstrução no fluxo venoso. Sua identificação pode fornecer pistas importantes sobre a localização e a gravidade da obstrução.
Os principais tipos de circulação colateral incluem:
- Tipo porta: ocorre em casos de hipertensão portal, geralmente associada a doenças hepáticas, como cirrose
- Tipo veia cava inferior: sugere obstrução da veia cava inferior, com desvio do fluxo sanguíneo para veias colaterais
- Tipo veia cava superior: relaciona-se à obstrução da veia cava superior, levando à dilatação venosa na região toracoabdominal
- Tipo misto: caracteriza-se pela presença de padrões combinados de circulação colateral, indicando comprometimento de múltiplos sistemas venosos.
Circulação colateral do tipo portal
Corresponde ao tipo mais comum, e acontece pelo obstáculo do fluxo venoso em direção ao fígado. Geralmente é perceptível por meio da característica de “cabeça de medusa”, quando estão dilatadas próximas ao umbigo.
Tipo cava inferior
Consiste na obstrução da veia cava inferior por conta de uma trombose. Observa-se os vasos na região inferior e lateral do abdome, com fluxo ascendente.
Abdome: circulação colateral tipo cava superior
Representada pela dilatação dos vasos na região superior do abdome, com sentido da corrente descendente.
Circulação colateral do tipo misto
Junção das características da circulação colateral tipo portal e da circulação colateral tipo cava inferior, com fluxo ascendente.

Técnicas para detecção de ascite
A ascite é caracterizada pelo acúmulo de líquido na cavidade peritoneal, levando ao aumento do volume abdominal. Geralmente, está associada a doenças hepáticas graves, sendo consequência da hipertensão portal e da redução na síntese de albumina.
Para detectar a presença de ascite, utilizam-se três principais técnicas de percussão:
Abdome: macicez móvel
Utilizada para um grau mais leve de ascite, em que se pede para o paciente ficar em decúbito lateral direito e esquerdo enquanto se percute a região lateral e central do abdome.
Caso haja a presença de ascite, ao realizar a percussão, será perceptível a presença de som timpânico na lateral e som maciço no centro, isso acontece porque ao ficar em decúbito o líquido ascítico vai se deslocar conforme a gravidade.
Semicírculo de Skoda
Consiste em deixar o paciente em decúbito dorsal, em que ao percutir a região central do abdome obtém-se som timpânico, enquanto na periferia há som maciço pela presença do líquido ascítico. É uma técnica para verificação de uma ascite um pouco mais grave.
Manobra de Piparote
Corresponde a um teste para verificar a presença de ascite grave, e só pode ser realizada com a presença de dois médicos ou com a ajuda do paciente. É realizada por meio da colocação das mãos do paciente ou do médico auxiliador de forma vertical no sentido da linha médio-esternal, enquanto o médico examinador coloca suas mãos nas regiões laterais do abdome.
Dessa forma, o examinador com apenas uma mão percute a lateral do abdome, e caso haja ascite, ele sentirá a vibração do líquido ascítico no outro lado do abdome.

Sinal de Blumberg e Sinal de Rovsing no abdome
O sinal de Blumberg e o de Rovsing são utilizados para a detecção de apendicite. O Sinal de Blumberg, acontece quando há a descompressão rápida e dolorosa no ponto de McBurney (ponto apendicular) localizado na fossa ilíaca direita.
Também utiliza-se esse sinal para pesquisa de peritonite. Isso ocorre quando realiza-se o sinal em qualquer parte do abdome e o paciente apresenta dor à descompressão rápida. Já o Sinal de Rovsing, ocorre quando há a palpação do quadrante inferior esquerdo e o paciente sente dor no quadrante inferior direito. Portanto, esse evento acontece por conta do deslocamento dos gases do colo decente até o colo ascendente, distendendo o ceco provocando a dor da apendicite.


Sinal de Giordano
Utiliza-se o sinal de Giordano na pesquisa de pielonefrite ou litíase renal. Para detectá-lo, deve-se realizar uma percussão com a mão em forma de punho no dorso do paciente no nível da 11° e 12° costela, com uma mão realizando o amortecimento.
Caso o paciente apresente uma infecção renal, durante a realização do teste ele irá rapidamente se deslocar para frente sentindo dor.

Sinal de Murphy
O sinal de Murphy acontece quando o paciente reage em sua respiração de forma rápida à palpação profunda da vesícula biliar.
Dessa forma, palpa-se o ponto biliar ou ponto cístico, no hipocôndrio direito e pede-se para o paciente inspirar profundamente. Ao inspirar, o diafragma faz com que o fígado desça e assim a vesícula biliar possa ser palpada pela mão. Se houver a presença de colecistite o paciente ao inspirar sente muita dor e acaba expirando.


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