Colunistas

Anemia ferropriva em crianças de 0 a 5 anos | Colunistas

Anemia ferropriva em crianças de 0 a 5 anos | Colunistas

Compartilhar

Wesley Vinicius

13 min há 628 dias

1. Definição

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), anemia é a condição em que a concentração sanguínea de hemoglobina encontra-se abaixo dos valores de referência. Dessa forma, ela se torna insuficiente para atender as necessidades fisiológicas, variando de acordo com sexo, idade, gestação e altitude. A anemia ferropriva é um tipo de anemia em que além da deficiência de hemoglobina há também quantidade reduzida de ferro no sangue. Essa patologia causa defeitos no desenvolvimento neuropsicomotor, na aprendizagem da criança e no sistema imunológico.

2. Epidemiologia

Esse tipo de anemia é responsável por mais de 60% dos casos de anemia no mundo e possui maior incidência em pacientes com um menor nível socioeconômico. A prevalência dessa patologia em crianças menores de 5 anos equivale a 42% em países em desenvolvimento e 17% nos países industrializados acometendo principalmente crianças na idade de 6 a 18 meses de vida.

Em um estudo brasileiro realizado em 2009, a prevalência da anemia ferropriva no Brasil foi de 53% com altos índices na região Norte e Nordeste. Os lactantes e as gestantes estão incluídos no grupo de risco para anemia ferropriva, uma vez que há o aumento da necessidade diárias de ferro ou por conta da baixa ingestão de ferro. Outros fatores de risco para os lactentes incluem a desmame antes de completar 6 meses sendo amamentado com leite de vaca, uma dieta pobre em ferro ou a ausência de suplementação de ferro.

Para mais conteúdos sobre Medicina:

Inscreva-se na Sanar Newsletter

Participe do canal Sanar Medicina no Telegram

Inscreva-se no YouTube da Sanar

Siga no Instagram

Curta no Facebook

3. Metabolismo do ferro

O ferro no corpo humano está presente em algumas proteínas funcionais como a hemoglobina e a Mioglobina, em proteínas funcionais como a Ferritina ou em proteínas de transporte como a Transferrina. Esse mineral em grande parte possui origem a partir da reciclagem das hemácias e também por meio da dieta com ingestão do ferro heme (Ferroso – Fe2+) e do ferro não heme (Férrico – Fe3+). O ferro heme está presente em carnes e vísceras, absorvido diretamente no duodeno. Já o ferro não heme possui origem vegetal e é muito difícil de ser absorvido sofrendo influência de fatores facilitadores como a vitamina C (Ácido ascórbico) ou fatores inibidores como o cálcio, a cafeína e os fitatos presentes nos cereais.

Tabela 1. Ferro presente na alimentação e sua biodisponibilidade

Alimento Quantidade de ferro (mg/100 g) Biodisponibilidade
Carnes      Bovina      Suína      Peixes      Aves   3,2 2,9 2,5 1,3   Alta Alta Alta Alta
Vísceras      Fígado bovino      Miúdos de Galinha      Coração      Língua   8,2 4,3 3,7 1,9   Alta Alta Alta Alta
Ovo      Gema      Inteiro      Clara   5,5 3,2 0,4   Baixa Baixa Baixa
Leite      Humano      Vaca   0,5 0,3   Alta Baixa
Leguminosas      Lentilha      Soja      Feijão      Ervilha   8,6 8,5 7,0 5,8   Baixa Baixa Baixa Baixa
Cereais      Cereais matinais      Farinha láctea      Aveia (farinha)      Aveia (flocos)   12,5 4,0 4,5 3,4   Alta Alta Baixa Baixa
Hortaliças      Nabo      Brócolis      Couve      Batata      Cenoura      Espinafre      Beterraba   2,4 1,1 2,2 1,0 0,4 3,3 0,8   Alta Alta Média Média Média Baixa Baixa
Outros      Açúcar mascavo      Rapadura   4,2 4,2   Alta Alta

Adaptado de: Franco, G., 1999.

4. Apresentação clínica

A anemia ferropriva clinicamente pode estar sendo apresentada em sua forma inicial, ou seja, só a deficiência de ferro, ou pode estar no estágio mais desenvolvido com baixa da hemoglobina.

A criança portadora de deficiência de ferro apresenta como sintomas astenia, dor em membro inferiores, unhas quebradiças e rugosas, estomatite angular e também a perversão do apetite (pica) que leva a criança a ingerir substâncias não habituais como terra ou sujeira, e também essa criança apresenta redução de atenção causando distúrbios de conduta e percepção e também prejuízo na aprendizagem.

Já a criança que possui a fase da anemia instalada apresenta apatia, irritabilidade, palidez cutâneo-mucosa, sopro cardíaco, taquicardia e dificuldade para realizar exercícios físicos.

Tabela 2. Manifestações clínicas na anemia ferropriva

Anemia Achados semiológicos
Deficiência de ferro ➥ Astenia                                ➥ Dor nos MII ➥ Estomatite angular              ➥Pica 
Anemia ferropriva ➥ Apatia                                  ➥ Irritabilidade ➥ Palidez cutâneo-mucosa     ➥ Dificuldade em realizar exercício físico

5. Exames laboratoriais

A maior parte do diagnóstico da anemia ferropriva é realizada por meio dos exames laboratoriais, para isso são utilizados os seguintes exames:

  • Ferritina: Para visualização do estoque de ferro. Na criança de até 5 anos a depleção dos estoques de ferro, ou seja, o rebaixamento da ferritina é diagnosticado quando a mesma encontra-se abaixo de 12 microgramas por litro. 
  • Ferro sérico/Saturação de transferrina/Capacidade total de ligação de transferrina: Para quantificação da quantidade de ferro presente na criança. A deficiência de ferro é diagnosticada quando o ferro sérico está abaixo de 30 miligramas por decilitros; a saturação de transferrina está abaixo de 16%; e a capacidade total de ligação de transferrina está acima de 250-390 microgramas por decilitros. 
  • Hemoglobina/Hematócrito: Para verificação do quadro de anemia a criança deve estar com hemoglobina abaixo de 11 gramas por decilitro e o hematócrito abaixo de 33%.  
Saiba mais sobre a Pós-graduação SANAR em Medicina de Emergência

Outros parâmetros no hemograma podem estar ajudando para fechar o diagnóstico de anemia ferropriva. O VCM (Volume Corpuscular Médio) estará reduzido; o HCM (Hemoglobina Corpuscular Média) e o CHCM (Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média) estarão reduzidos; o RDW estará elevado. Dessa forma, as hemácias estarão microcíticas (↓ VCM) e hipocrômicas (↓ HCM e CHCM) apresentando anisocitose (↑ RDW), reticulopenia (↓ número de Reticulócitos), leucopenia (↓ número de Leucócitos) e também trombocitose (↑ número de Plaquetas).  

Tabela 3. Apresentação laboratorial da anemia ferropriva

  Anemia ferropriva em crianças de 0 a 5 anos  
Perfil férrico: Ferritina Ferro sérico Saturação de transferrina Capacidade total de ligação de transferrina < 12 μg/L < 30 mg/dL < 16% > 250 – 390 μg/dL
Eritrograma: Hemoglobina Hematócrito VCM HCM CHCM RDW Reticulócitos   < 11 g/dL < 33% Reduzido – Microcitose Reduzido – Hipocromia  Reduzido – Hipocromia Elevado – Anisocitose Reduzido – Reticulopenia  
Leucograma: Leucócitos   < 4.000 – Leucopenia  
Plaquetograma: Plaquetas   > 400.000 – Trombocitose  

6. Tratamento

O tratamento deve ser feito por meio de orientações nutricionais com reposição de ferro via oral na dose de 3-5 mg/kg/dia por no mínimo 8 semanas. Essa reposição pode ser feita por sais de ferro, mais baratos, porém causa mais efeitos adversos e também deve ser ingerido 1 hora antes das refeições de preferência acompanhado com um suco de laranja; ou por sais férricos e aminoquelato, que apresentam menos efeitos adversos e possuem maior biodiversidade. Em casos muitos extremos em que a suplementação não esteja funcionando, pode ser realizado uma injeção intravenosa ou intramuscular de ferro.

Para ser feito a monitoração do tratamento, deve ser refeito a dosagem de reticulócitos e hemograma a cada 30-60 dias e o perfil de ferro e ferritina com 30 e 90 dias. É esperado que após o início do tratamento, com 3-4 dias os reticulócitos já estejam normais, 30 dias para hemoglobina voltar ao normal e de 60 a 90 dias para a ferritina se estabilizar. O tratamento deve durar no mínimo 2 a 3 meses só podendo cessar quando a ferritina estiver acima de 12 microgramas por decilitro. 

7. Profilaxia

A profilaxia para anemia ferropriva em crianças consiste no incentivo ao aleitamento materno exclusivo durante 6 meses, garantir uma alimentação rica em ferro heme e evitar o consumo de leite de vaca antes dos 12 meses de vida. Além disso, pode ser realizado a suplementação profilática de ferro. Para recém-nascidos a termo com peso adequado o Ministério de Saúde recomenda que a suplementação começa aos 6 meses de vida ou quando há o desmame com a dose de 1 mg/Kg/dia até os 24 meses de vida.

Enquanto a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que a suplementação deve começar com 3 meses de vida com a mesma dose e a mesma duração. Os recém-nascidos prematuros e/ ou com baixo de peso deve começar a suplementação deve começar pelo menos 30 dias após o nascimento, se a suplementação for até os 12 meses de vida a dose deverá ser de 2 mg/Kg/dia, quando o bebê está muito abaixo do peso (1000 – 1500 g)  a dose passa a ser 3 mg/Kg/dia, já o bebê abaixo de 1000 g, com extremo baixo peso a dose deve ser de 4 mg/Kg/dia. Após os 12 meses até os 24 meses a suplementação deve ser de 1 mg/Kg/dia. 

Confira o vídeo:

Saiba mais sobre o curso gratuito: “Você melhor no plantão!”
Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade © Copyright, Todos os direitos reservados.