Oncologia

Diretrizes para o Diagnóstico Precoce do Câncer de Mama | Colunistas

Detecção precoce

O objetivo geral das ações de diagnóstico precoce é diminuir as barreiras de acesso e qualificar a demanda e a oferta de serviços, de forma a possibilitar a confirmação diagnóstica do câncer de mama o mais precocemente possível.

As estratégias de diagnóstico precoce devem ser formadas por uma tríade: população informada sobre os sinais e sintomas suspeitosos de câncer, profissionais de saúde capacitados para avaliação dos casos suspeitos e acesso facilitado aos serviços de saúde para garantir a confirmação diagnóstica oportuna, com qualidade, além da integralidade e continuidade da assistência em toda a linha de cuidado.

Na atenção primária, a avaliação de sinais e sintomas suspeitosos de câncer de mama não visa ao diagnóstico final de neoplasia maligna nem à instituição do tratamento oncológico, pois seu objetivo é a correta classificação de risco de câncer para que a investigação diagnóstica possa prosseguir corretamente.

Estratégia de Conscientização: discussão sobre a recomendação

Mesmo com profissionais de saúde capacitados, população informada e até em países com programas de rastreamento com grande cobertura, como o Reino Unido, mais de 75% dos pacientes com câncer de mama apresentam-se inicialmente com sinais e sintomas. As principais explicações são a existência de casos com resultados falso-negativos no rastreamento, cânceres de intervalo e casos de câncer fora da população-alvo do rastreamento. Essa proporção de casos sintomáticos poderia ser ainda maior se fossem considerados apenas os casos de câncer com significância clínica, já que a maioria dos casos diagnosticados exclusivamente por meio do rastreamento mamográfico é composta por casos de sobrediagnóstico.

Ao final da década de 1990, grandes ensaios clínicos não demonstraram redução da mortalidade por câncer de mama por meio da educação para o Autoexame da Mama (AEM). Há evidências, ainda, que a estratégia do ensino do AEM aumentaria o número de biópsias com resultados benignos. Vale ressaltar que as evidências atuais em torno do autoexame mamário como método de rastreio de carcinoma mamário revelam que este procedimento não traz benefício na redução da mortalidade pela neoplasia.

No entanto, diversos países passaram a adotar o breast awareness, que não é interpretado por nenhuma sociedade como um método de rastreio, mas sim como um complemento ao rastreio traçado pelo exame mamográfico. O breast awareness consiste numa familiarização da mulher com a problemática do cancro da mama e com as características normais dos seus seios, que são mutáveis com o avançar da idade.

As mamas de cada mulher apresentam características próprias à inspeção (contornos) e palpação (textura) e que variam ao longo do tempo desde a adolescência até a fase adulta e a senescência. A observação e a autopalpação ocasional das mamas podem contribuir para que as mulheres avaliem melhor o que é normal para elas e percebam possíveis mudanças. As alterações devem ser valorizadas e merecem uma avaliação médica imediata.

Outubro é o mês do Outubro Rosa, movimento que vem ganhando força a cada ano com o objetivo de levar conscientização sobre a prevenção do câncer de mama. O movimento, que surgiu nos anos 90 na primeira Corrida pela Cura, realizada em Nova York (EUA), ganhou âmbito mundial, tendo diversos monumentos ganhando a cor rosa associada à luta e cura da doença. Este ajuda a conscientizar a mulher sobre a prevenção do câncer de mama e a aliviar a ansiedade inerente ao autoexame, pois, quanto mais falamos, mais saberemos lidar e mais encontraremos apoio.

Recomendação sobre a identificação de sinais e sintomas suspeitosos

O Ministério da Saúde recomenda que os seguintes sinais e sintomas sejam considerados como de referência urgente para serviços de diagnóstico mamário (recomendação favorável fraca: os possíveis benefícios provavelmente superam os possíveis danos):

  • Qualquer nódulo mamário em mulheres com mais de 50 anos.
  • Nódulo mamário em mulheres com mais de 30 anos, que persistem por mais de um ciclo menstrual. 
  • Nódulo mamário de consistência endurecida e fixo ou que vem aumentando de tamanho, em mulheres adultas de qualquer idade.
  • Descarga papilar sanguinolenta unilateral.
  • Lesão eczematosa da pele que não responde a tratamentos tópicos.
  • Homens com mais de 50 anos com tumoração palpável unilateral.
  • Presença de linfadenopatia axilar. 
  • Aumento progressivo do tamanho da mama com a presença de sinais de edema, como pele com aspecto de casca de laranja ou peau d’orange.
  • Retração na pele da mama.
  • Mudança no formato do mamilo.

As mulheres devem ser informadas sobre as vantagens e limitações do autoexame mamário, sendo que aquelas que queiram iniciar o autoexame deverão ter um ensino estruturado da inspeção e palpação. Salienta-se que nenhuma técnica de autoexame deverá ser ensinada rotineiramente à mulher.

Diagnóstico

A anamnese e o exame clínico das mamas estão entre os pilares da investigação diagnóstica de pacientes com queixas mamárias, tanto em uma primeira avaliação na atenção primária quanto em consultas em serviços de referência para diagnóstico de doença mamária. Os médicos da atenção primária devem dominar a técnica do Exame Clínico da Mama (ECM) e conhecer os principais sinais e sintomas sugestivos de câncer de mama, especialmente aqueles associados às fases iniciais da doença.

Quanto aos serviços de atenção primária, é preciso ressaltar a necessidade de possibilitar consultas de urgência para mulheres e homens sintomáticos sem a necessidade de agendamento prévio. A rotina dos serviços de saúde deve possibilitar a inserção imediata desses pacientes em agenda de demanda espontânea, encaixe ou espaços de acolhimento. Tecnologias leves, como a realização de anamnese e ECM, permitem uma grande capilaridade do acesso a essa primeira etapa da investigação diagnóstica do câncer de mama.

Com relação ao nível secundário, é fundamental que os serviços de diagnóstico mamário tenham autonomia para esgotar a investigação diagnóstica de cada caso suspeito referenciado, sem a necessidade de retornar à atenção primária após o resultado de cada exame de confirmação diagnóstica.

A organização da rede de atenção à saúde é fundamental para que se tenha o sucesso das ações de diagnóstico precoce e deve contemplar alguns aspectos centrais, tais como: facilidade de acesso, agilidade no tempo até o atendimento e a resolução das necessidades de saúde, qualidade do processo de confirmação diagnóstica, garantia da integralidade e continuidade do cuidado. O acesso à confirmação diagnóstica dos casos suspeitos deve ser garantido por meio de mecanismos como a regulação de vagas, que deve priorizar os casos sintomáticos e, especialmente, os casos com os sinais e sintomas suspeitos descritos nessa recomendação.

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