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Doença Pulmonar Associada ao Uso de Produtos de Cigarro Eletrônico (EVALI): Da Prevenção ao Tratamento. | Colunistas

Doença Pulmonar Associada ao Uso de Produtos de Cigarro Eletrônico (EVALI): Da Prevenção ao Tratamento. | Colunistas

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Os cigarros eletrônicos são constituídos basicamente por um bocal, um vaporizador/inalador (onde o usuário suga o vapor), um cartucho/atomizador (em que o líquido é armazenado e evaporado). Eles têm sido utilizados como forma alternativa para a cessação do tabagismo e também para a substituição dos cigarros convencionais. No entanto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não comprovou quaisquer benefícios desta prática e, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), as pessoas que usam cigarros eletrônicos têm mais chances de iniciar o uso do cigarro convencional. 

O uso deste produto popularizou-se nos últimos anos, principalmente por possuírem uma diversidade de sabores e aromas diferentes, o que os torna mais atrativos para jovens e adolescentes. 

Todavia, a composição desses líquidos aromatizados e saborizados não é verdadeiramente informada pelas fábricas. Estudos já demonstram que, geralmente, esses cigarros contém glicerina, propileno glicol, água, flavorizantes e nicotina (em variações de 16-22 mg/ml), e, nos cartuchos de nicotina, também são encontradas substâncias como formaldeído, acroleína, acetaldeído, metais   pesados, compostos orgânicos voláteis e nitrosaminas derivadas do tabaco. A presença de todas essas substâncias torna-se um fator de preocupação devido à toxicidade.

Assim, a popularização de um produto de composição não esclarecida e possivelmente tóxica fez com que os profissionais de saúde tivessem que se atualizar em uma nova doença: EVALI, que significa “doença pulmonar associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico” (ou vaping), traduzida do inglês (E-cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury).

Epidemiologia

Análises do perfil social dos usuários de cigarro eletrônico revelam que 66% são homens, sendo o grupo principal formado por adolescentes e jovens, com idade entre 15 a 34 anos.

Fisiopatologia

A fisiopatologia das lesões pulmonares causadas pelo uso do cigarro eletrônico ainda não é muito bem esclarecida. Porém, sabe-se que este mecanismo inclui a participação dos surfactantes pulmonares, da depuração mucociliar e da fagocitose de partículas inaladas.

Os macrófagos alveolares são responsáveis pela fagocitose e degradação dos diferentes vapores inalados, fazendo parte do nosso sistema imunológico inato. No entanto, a sua atividade é suprimida quando exposta aos vapores que alteram o seu fenótipo e, consequentemente, a sua função. Dessa forma, a diminuição da depuração celular leva ao desequilíbrio da cascata inflamatória, do mecanismo de reparo celular e da depuração mucociliar das vias aéreas. Além disso, ocorre redução da função pulmonar associada a mecanismos de apoptose. 

Pode ocorrer nos usuários de cigarro eletrônicos, ainda, queimaduras térmicas pelo vapor aquecido na combustão do líquido, acúmulo de lipídeos no pulmão devido aos aditivos ricos em óleo, reações alérgicas (pneumonia de hipersensibilidade/pneumonia eosinofílica) e lesões tóxicas causadas pelas substâncias contidas no vapor.

Ademais, os cigarros eletrônicos contêm nicotina, assim como os cigarros convencionais. Desse modo, já se sabe que essa substância pode causar lesões na pele, no trato gastrointestinal, nos pulmões e nas vias aéreas por ser facilmente absorvida e também pode levar a um envenenamento por exposição excessiva.

Sinais e sintomas

Os principais sintomas de pacientes com EVALI incluem: 

  • Falta de ar;
  • Tosse;
  • Febre; 
  • Fadiga; 
  • Dor no peito; 
  • Dor abdominal; 
  • Diarreia;
  • Vômito.

Achados laboratoriais e de imagem

Os principais achados laboratoriais de pacientes com EVALI são: 

  • Leucocitose;
  • Elevação do nível de Proteína C reativa;
  • Elevação da taxa de hemossedimentação;
  • Transaminite.

Já os principais achados radiológicos incluem:

  • Nódulos centrolobulares em vidro fosco com preservação subpleural;
  • Infiltrados bilaterais na imagem de tórax.

Diagnóstico

Para confirmar o diagnóstico de EVALI, o paciente deve ter utilizado um cigarro eletrônico dentro de 90 dias antes do início dos sintomas, associado a clínica de infiltrados bilaterais na radiografia de tórax, avaliação negativa para infecção e nenhum outro diagnóstico diferencial plausível (o diagnóstico é de exclusão).

Tratamento

O tratamento da EVALI consiste na suspensão do uso do cigarro eletrônico, juntamente a medidas de suporte clínico, incluindo oxigenoterapia e, se necessário, ventilação não invasiva ou invasiva. Ademais, os antivirais e/ou antimicrobianos são prescritos somente para os casos de suspeita de infecção concomitante.

Campanhas de prevenção

Em 1987, foi criado o “Dia Mundial sem Tabaco” para alertar a população sobre as doenças e mortes evitáveis relacionadas ao uso do cigarro. Em 2021, o tema da campanha do INCA para o Dia Mundial sem Tabaco foi “Comprometa-se a parar de fumar”, que teve por objetivo principal a redução da quantidade de fumantes e, consequentemente, da morbimortalidade relacionada ao consumo de derivados do tabaco. Essa campanha contou com ações educativas, juntamente a medidas legislativas para prevenir a iniciação ao tabagismo.

O sucesso da campanha foi reconhecido com o prêmio “Dia Mundial sem tabaco de 2021 das Américas” concedido pela OMS à secretária-executiva da Comissão Nacional para  Implementação da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (Conicq), Tania Cavalcante.

Já na Nova Zelândia, foi aprovada a lei que proíbe a venda de cigarros para a próxima geração a partir deste ano (2022), ou seja,  as pessoas nascidas após 2008 não poderão comprar cigarros de forma legal em qualquer idade no território neozelandês. O objetivo dessa medida é garantir que os jovens nunca comecem a fumar.

Conclusão

A substituição dos cigarros convencionais por cigarros eletrônicos não possui benefícios comprovados cientificamente. Pelo contrário, os usuários de cigarros eletrônicos podem desenvolver EVALI, que é a doença pulmonar associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico, causada pelas substâncias tóxicas contidas nesses produtos. Além disso, sabe-se que pessoas que usam cigarros eletrônicos possuem maiores chances de usar o cigarro convencional. Assim, torna-se necessário a criação de campanhas de prevenção, pois a melhor forma de reduzir a morbimortalidade associada às substâncias contidas nos cigarros é a conscientização da população em não fumar.

Autora: Letícia de Paula Santos.

Instagram: @leticiapaula.santos 

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