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Ética médica: dilemas e conciliações | Colunistas

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Jackson Pinheiro

6 minhá 252 dias

Ética: palavra originada do grego “ethos”, tendo seu significado resumido a “hábito” ou “modo de ser”. De acordo com o dicionário do Google, a ética seria um “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade”.

Mas… O que seria de fato a ética médica? O que você, caro leitor, faria se fosse colocado à prova em uma situação que lhe obrigasse a “escolher” quem vive e quem morre?

Ao longo deste artigo, iremos apresentar alguns breves dilemas éticos, que podem ilustrar melhor essas escolhas.

Para os mais práticos, a ética médica poderia ser definida tão somente como a ética “comum” de um indivíduo que veio a tornar-se médico.

Relutantemente, devo admitir que essa definição não está de um todo errada, embora seja apenas a “pontinha do iceberg”, se pararmos para analisar a totalidade de caminhos que se pode seguir através de uma única situação.

Todos os dias, milhares de profissionais da saúde têm de tomar inúmeras decisões em seus postos de trabalho. Sejam médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos…

Todos seguem um código de ética, uma bússola, que os orienta para a decisão mais assertiva, segundo aqueles que o formularam. Esse código, contudo, muitas vezes vai de encontro à ética pessoal do indivíduo.

E é aí que entramos em nosso primeiro dilema: “Existem várias éticas? Qual devo seguir?”. Diante disso, podemos afirmar que sim: a ética médica é a ética de um indivíduo que também é médico, mas não apenas isso.

Ela seria a ética desse indivíduo por ser impossível a dissociação completa de seus valores. Porém, ela é mais, por – muitas vezes – colocar-se à frente de valores individuais.

Diante de uma situação de conflito entre as éticas, à qual não se pode “escapar”, deve ser escolhida aquela que seja mais benéfica para o paciente, que – em quase toda a totalidade dos casos – não é a nossa ética pessoal.

Nisso, devemos lembrar do juramento de Hipócrates que, enfatizando apenas um trecho, nos diz:

“Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal, nem um conselho que induza à perda”.

A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal, nem um conselho que induza à perda”.

Esses dilemas, porém, nem sempre são tão fáceis de serem respondidos.

Imagine a seguinte situação: você é um médico cirurgião, numa noite tranquila de plantão em determinada unidade de saúde.

Eis que, simultaneamente, chegam duas ambulâncias: cada uma com um paciente, vítimas de determinado acidente e com risco iminente de vida, necessitando urgentemente de intervenção cirúrgica.

Você, como indivíduo único que é, pode atender apenas a um deles (imagine o cara do filme O Poço falando “óbvio” bem aqui). E então? Como escolher? Um vai viver… O outro, infelizmente, não.

Agora, imagine que – hipoteticamente – você conheça os dois. De um deles, é amigo. Do outro, cultiva sentimentos “pouco amistosos”.

Seguindo sua ética pessoal, você seria levado a salvar o seu amigo, correto? Eu acho que sim… Mas, ainda hipoteticamente, e se seu amigo fosse jovem, saudável e – talvez, muito talvez – pudesse aguentar a espera pelo atendimento e o outro, não tão saudável assim, com certeza não aguentasse esperar, mas sobrevivesse caso fosse atendido naquele momento? É nesse ponto que as éticas entram em conflito.

Existem, claro, protocolos próprios para esse tipo de situação descrita anteriormente. E são a esses protocolos que nós recorremos à tomada de decisão.

Vários critérios serão avaliados – de forma muito rápida – para que se chegue a uma conciliação. No caso específico descrito acima, muito provavelmente o segundo paciente teria preferência no atendimento. A ética médica sobrepõe a ética pessoal.

Outro dilema conhecidíssimo é muito bem ilustrado na série de televisão “The Good Place” (aos que não assistiram, fica aqui a recomendação), onde um dos protagonistas – Michael – recria in persona o famoso dilema do bonde, para outro dos protagonistas – Chidi Anagonye – que é filósofo.

Para os que desconhecem tal dilema (duvidando muito, eu, que existam) eis aí:

Um bonde está fora de controle em sua linha. Em seu caminho, cinco pessoas desavisadas trabalham, sem se dar conta do que está por vir. Felizmente, é possível apertar um botão que encaminhará o bonde para um percurso diferente, mas ali, encontra-se outro trabalhador também desavisado. Deveria apertar-se o botão?”.

Decidir entre uma ou cinco pessoas pode parecer fácil, não? Talvez. Mas… E se o dilema fosse levado a uma situação médica?

Imagine mais uma vez: você, cirurgião, encontra-se em uma sala de cirurgia. Sob sua custódia encontram-se seis pessoas: uma, saudável; as outras cinco, doentes.

Você pode, porém, salvar as cinco se transplantar alguns órgãos da primeira pessoa – o que certamente lhe custaria a vida. Mas e se a primeira pessoa estivesse em coma e, segundo seus colegas, sem possibilidade de retorno?

(Nota: Imagino eu que, em qualquer lugar do mundo, isso nem seja permitido. Mas, tratando-se apenas de um dilema ilustrativo, deixo a reflexão sobre o exposto acima).

Não existem respostas certas ou erradas, apenas respostas diferentes que seguem diferentes escolas éticas.

A ética médica, assim como qualquer outra, se baseia em princípios fundamentais, tendo o Código de Ética Médica como seu principal norteador e que, além de abranger questões como as expostas outrora, também versa sobre todos os direitos do profissional médico, suas atribuições, deveres e demais condutas.

E sendo a leitura desse indispensável a qualquer atual ou futuro profissional.

Na medicina, não existem respostas prontas. Não existe alguém para lhe dizer o que fazer a todo o tempo. Existe, porém, a necessidade de buscar sempre o melhor para o paciente, bem como para a sociedade de modo geral.

Sejamos éticos e, acima de tudo, humanos. Para que, dia após dia, possamos construir uma medicina cada vez melhor.

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