Prática médica

Gastroenterite aguda: o que é, agente etiológico e mais

Gastroenterite aguda: o que é, agente etiológico e mais

Compartilhar
Imagem de perfil de Prática Médica

Gastroenterite é a inflamação que afeta o revestimento do estômago, intestino grosso e intestino delgado. Embora muitos casos sejam de origem infecciosa, a gastroenterite também pode ocorrer como uma resposta secundária à ingestão de medicamentos, substâncias químicas tóxicas e drogas.

É considerada uma das maiores causas de mortalidade na infância, particularmente em menores de 5 anos. Essa alta mortalidade vem diminuindo nos últimos 20 anos. Em 1991, foram registrados 3,5 milhões de óbitos por gastroenterite ao redor do mundo. Em 2011, esse número caiu para 1,5 milhões de mortes. No Brasil, em 2015, a diarreia foi responsável por 4,1% dos óbitos, ocupando o quarto lugar entre as causas de mortalidade infantil, em 1980, sustentava a segunda posição.

Etiologia da gastroenterite aguda

A gastroenterite aguda é causada pela presença de agentes infecciosos que podem ser vírus, protozoários, fungos ou bactérias, no trato gastrointestinal.

Possui transmissão fecal-oral e por vezes através de secreções respiratórias, provocando alteração na função intestinal e causando lesão através de diversos mecanismos.

Vírus

Os vírus são os agentes etiológicos mais comuns da gastroenterite aguda. Eles agem ao infectar o enterócito no epitélio do intestino delgado, promovendo aumento da liberação de sais e água na luz do intestino. Os principais são:

  • Rotavírus
  • Coronavírus
  • Adenovírus
  • Norovírus
  • Astrovírus.

O rotavírus teve sua incidência diminuída com a introdução da vacina em 2006, mas ainda é a causa mais comum de diarreia grave com desidratação em crianças, principalmente nas menores de 2 anos.

O norovírus é o principal causador de gastroenterite em todas as faixas etárias, atingindo prioritariamente lactentes entre 6 e 18 meses.

Gastroenterites bacterianas

Gastroenterites bacterianas são menos comuns que as virais. Elas podem provocar liberação de enterotoxinas que se fixam à mucosa sem invasão e bloqueiam as trocas de sódio e potássio. Com isso, acaba proporcionando secreção ativa de Cl, sódio e água na luz intestinal. Este mecanismo é causado principalmente por:

  • Vibrio cholerae
  • Estirpes enterotóxicas de E. coli.

Bactérias como Shigella, Salmonella e Campylovacter jejuni podem invadir a mucosa intestinal e promover a formação de úlceras microscópicas, que levam a diarreia com presença de leucócitos e eritrócitos. Dentre os agentes bacterianos, a Salmonella e o Campylobacter são os mais comuns.

Protozoários

Certos protozoários, como a giardia lamblia, também podem levar a gastroenterite ao aderir e invadir a mucosa intestinal.

A giardíase pode se transformar em uma infecção crônica e levar a má absorção de nutrientes. Outros parasitas que podem causar diarreia são entamoeba histolytica e Cryptosporidium Isospora.

Manifestações da gastroenterite aguda

A natureza e a intensidade dos sintomas da gastroenterite podem variar. Em geral, o início é abrupto, com:

  • Perda de apetite
  • Náuseas
  • Vômitos
  • Cólicas abdominais
  • Diarreia, podendo incluir sangue e muco
  • Mal-estar e mialgia podem acompanhar esses sintomas.

Exame físico do paciente com gastroenterite

O abdome pode apresentar distensão e sensibilidade leve. Em casos mais graves, pode ocorrer uma reação de defesa muscular. Alças intestinais distendidas por gás podem ser palpáveis. Sons intestinais hiperativos podem ser auscultados, mesmo na ausência de diarreia, diferenciando-se do íleo paralítico, onde esses sons estão ausentes ou diminuídos.

Além disso, vômitos persistentes e diarreia podem levar à desidratação, manifestando-se por hipotensão e taquicardia. Nos casos mais graves, pode ocorrer choque hipovolêmico, com colapso vascular e insuficiência renal oligúrica. Quando os vômitos são a principal causa da perda de líquidos, pode ocorrer alcalose metabólica com hipocloremia.

Gastroenterite viral

Em infecções virais, a diarreia aquosa é o sintoma mais prevalente, raramente apresentando muco ou sangue nas fezes.

Gastroenterites por adenovírus são marcadas por diarreia com duração de 1 a 2 semanas. Lactentes e crianças podem ter vômitos leves, iniciando tipicamente 1 a 2 dias após o início da diarreia. Cerca de 50% dos pacientes podem desenvolver febre baixa, e sintomas respiratórios podem estar presentes. Os sintomas, geralmente leves, podem prolongar-se mais do que em outras causas virais de gastroenterite.

Gastroenterite bacteriana

Bactérias causadoras de doença invasiva (por exemplo, Shigella, Salmonella) têm maior probabilidade de induzir:

  • Febre
  • Prostração
  • Diarreia com presença de sangue.

A infecção por E. coli frequentemente inicia-se com cólicas abdominais intensas e diarreia aquosa por 1 a 2 dias, seguida por diarreia sanguinolenta. Febre é geralmente ausente ou baixa.

Bactérias que produzem enterotoxina (por exemplo, S. aureus, B. cereus, C. perfringens) geralmente causam diarreia aquosa. Já a S. aureus e algumas cepas de B. cereus provocam predominantemente vômitos.

Gastroenterite parasitária

Infestações parasitárias frequentemente resultam em diarreia subaguda ou crônica.

Na maioria dos casos, a diarreia é sem sangue, com a exceção de E. histolytica, que causa disenteria amébica (consulte Amebíase). Na gastroenterite parasitária a fadiga e perda de peso são comuns em casos de diarreia persistente.

Como fazer o diagnostico da gastroenterite aguda?

O diagnóstico da gastroenterite aguda é geralmente baseado na avaliação clínica dos sintomas apresentados pelo paciente, associada a exames laboratoriais e, em alguns casos, exames de imagem.

O médico deve realizar uma entrevista detalhada para obter informações sobre os sintomas e histórico médico do paciente, incluindo:

  • Ingestão recente de alimentos
  • Viagens
  • Exposição a pessoas doentes
  • Contato com ambientes potencialmente contaminados.

Amostras de fezes são frequentemente coletadas para análise laboratorial. Isso pode incluir testes de cultura para identificar bactérias, testes de PCR (reação em cadeia da polimerase) para detecção de vírus, e exames microscópicos para parasitas. A análise das fezes pode revelar a presença de sangue, leucócitos e outros indicadores de infecção.

Em alguns casos, exames de sangue podem ser solicitados para avaliar a presença de infecção, inflamação ou outros marcadores relevantes. Esses testes podem incluir hemograma completo, eletrólitos e, em casos graves, marcadores de função renal.

Em situações específicas, como quando há preocupações com complicações ou diagnóstico diferencial, o médico pode solicitar exames de imagem, como ultrassonografia abdominal ou tomografia computadorizada (TC), para avaliar o estado do trato gastrointestinal.

Diagnóstico diferencial da gastroenterite aguda

O diagnóstico diferencial da gastroenterite aguda envolve a distinção entre essa condição e outras doenças que podem causar sintomas semelhantes. Algumas das condições que fazem parte do diagnóstico diferencial incluem:

  • Intoxicação alimentar
  • Doenças inflamatórias intestinais (DII)
  • Apendicite
  • Infecções do trato urinário
  • Gastroenterite viral diferenciada
  • Amebíase
  • Doença celíaca.

Como manejar a gastroenterite aguda?


O manejo da gastroenterite aguda visa aliviar os sintomas, prevenir a desidratação e tratar a causa subjacente, se for identificada.

As soluções de reidratação oral são formulados para repor eletrólitos perdidos durante a diarreia. Podem ser adquiridos em farmácias e são particularmente úteis em casos de desidratação moderada. Além disso, deve-se evitar bebidas com alto teor de açúcar, cafeína ou álcool.

A identificação da causa subjacente da gastroenterite é essencial. Se a infecção for de origem bacteriana, a prescrição de antibióticos específicos pode ser necessária.

Estudos sugerem que probióticos podem desempenhar um papel na restauração da flora intestinal saudável. A discussão sobre o uso de probióticos deve ser considerada no contexto clínico.

Conheça nossa pós em Clínica Médica!

Não perca a chance de elevar sua prática clínica a um novo patamar!

O curso, que é focado na prática, capacita os médicos a manejarem com confiança e competência uma ampla gama de afecções, preparando-os para responder efetivamente aos desafios clínicos.

[SABER MAIS SOBRE O CURSO DA SANAR]

Referência bibliográfica

  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Doenças diarreicas agudas. Disponível aqui.
  • TORRES, M. Use of BioFire FilmArray gastrointestinal PCR panel associated with reductions in antibiotic use, time to optimal antibiotics, and length of stay. BMC Gastroenterol 20(1):246, 2020. doi: 10.1186/s12876-020-01394-w.

Sugestão de leitura complementar