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Por que temos menos médicos no interior do Brasil?

Por que temos menos médicos no interior do Brasil?

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Por que temos menos médicos no interior do país? Qual o contexto histórico desse movimento? Saiba mais com este texto!

Anualmente, a quantidade de novos médicos formados no Brasil cresce. Por outro lado, uma pergunta não deixa de ser feita: onde estão os médicos no interior do Brasil?

Essa pergunta, adiantamos logo, não possui uma resposta direta e objetiva.

Vamos fazer algumas reflexões, analisando dados sobre a distribuição de médicos no território brasileiro?

Desigualdades na distribuição geográfica de médicos

Para entender o problema, é fundamental que analisemos a proporção de médicos por habitantes de capitais e cidades interioranas. 

Para o estudo Estimativas de População dos Municípios 2017, apenas 23,8% da população brasileira se concentra nas capitais do país. Num exercício lógico, seria esperado que a maior parte dos médicos se concentrasse no interior, certo?

Por mais lógico que possa parecer, não é assim que a realidade funciona. A Demografia Médica no Brasil 2020 joga sobre esta questão de uma maneira única:

  • A cada mil habitantes das cidades do interior do país, temos 1,49 médico
  • A cada mil habitantes das capitais do país, temos 5,65 médico

Esses dados, entretanto, não podem ser enxergados isolados, sem sua devida contextualização. É fundamental, por exemplo, que pensemos a história da urbanização brasileira.

Urbanização no Brasil e seus efeitos na oferta de serviços básicos 

Compreender a proporção médicos no interior é, também, entender como o Brasil se desenhou nos últimos anos.

De que maneira as capitais do país se desenvolveram? Em quais regiões esse desenvolvimento se deu?

Assim, explica-se o por que do Norte apresentar as capitais com menor número de médicos por habitantes. Também explica o por que de o Nordeste ser mais desigual na relação entre médicos no interior e médicos nas capitais.

História da urbanização no Brasil

Quando falamos em urbanização, estamos abordando, também, acesso à direitos básicos, como saneamento, educação e, é claro, saúde. 

A tabela a seguir, da análise de Taxa de Urbanização das Regiões Brasileiras, do IBGE, é reveladora para que entendamos o Brasil que conhecemos hoje:

Na série histórica que vai desde 1940 até 2010, conseguimos perceber alguns movimentos interessantes. Em 2010, última vez que o estudo foi feito, as regiões que apresentavam as menores taxas de urbanização do país eram o Norte o Nordeste.

Em 1993, Milton Santos, dos principais geógrafos da história do Brasil, lançou “A urbanização brasileira”, livro que faz importantes reflexões sobre como o território brasileiro se reorganizou a partir dos processos de urbanização.

Sobre a evolução dessas taxas e a situação do Nordeste, Milton pontua que “uma estrutura fundiária hostil desde cedo ajudava a a manter na pobreza milhões de pessoas”.

Esse breve panorama histórico faz com que a realidade enfrentada por médicos hoje seja mais fácil de ser compreendida, não é mesmo?!

Ser médico na capital x ser médico no interior

Antes de qualquer coisa, você já se perguntou o que faz alguém querer morar numa capital brasileira? O contexto histórico ocasionou na concentração de serviços em cidades de grande porte. Até hoje, elas são as que possuem maior oferta de lazer, cultura, educação e afins.

Dessa forma, fica até mais fácil encontrar respostas quando o médico precisa decidir entre atuar na capital ou no interior.

Além disso, é importante que lembremos que os principais centros médicos do país estão nas capitais. Capitais estas que, por sua vez, se concentram nas regiões Sul e Sudeste. 

Pesquisador comenta a situação da desigualdade na distribuição de profissionais

Em entrevista para o Conselho Federal de Medicina, Mario Scheffer, pesquisador da Universidade de São Paulo, destacou que o aumento no número de médicos nos últimos anos não pode ser analisado de maneira isolada.

Para Mario, “há falta deles na atenção primária, nos municípios sem assistência, nos serviços do SUS e nas periferias”.

Com a Demografia Médica, podemos salientar que o Pará e Maranhão (voltando para a desigualdade histórica no N/NE) são os estados que possuem a menor quantidade de médico em relação ao número de habitantes.

Como resolver o problema da distribuição desigual de médicos no país?

O problema passa, antes de tudo, pela compreensão do médico enquanto um profissional, como qualquer outro. Se falássemos, a título de exemplo, sobre onde estão os engenheiros do Brasil, iríamos esperar que eles estivessem concentrados onde estão as melhores oportunidades, não é mesmo?!

Problemas como esse, de natureza estrutural, devem ser combatidos e analisados a partir do prisma de políticas públicas. 

Por mais que exista um processo de conscientização individual sobre a importância de ocupar o interior do país, tal movimento só surtirá efeitos reais quando for sustentado em mudanças mais radicais.

É fundamental que as autoridades públicas concentrem seus esforços para equilibrar essa balança de oferta de serviços básicos e oportunidades profissionais. Feito isso, daqui a um bom punhado de anos podemos (e esperamos) reescrever este texto com outra perspectiva da situação!

Sugestão de leitura complementar

Fontes: Conselho Federal de Medicina, Demografia Médica no Brasil 2020 e A urbanização brasileira