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Quando o uso clínico dos esteroides anabolizantes é permitido pelo CFM?

Quando o uso clínico dos esteroides anabolizantes é permitido pelo CFM?

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Confira neste artigo do Dr. Alexandre Câmara uma análise sobre o uso clínico dos esteroides anabolizantes!

Os derivados de testosterona e seus equivalentes sintéticos têm sido alvos de controvérsias há bastante tempo. Apesar de nunca terem sido oficialmente aprovados para uso estético, para aumento de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo, essas substâncias são frequentemente utilizadas de maneira inadequada por atletas, tanto profissionais quanto amadores, que buscam potencializar o desenvolvimento e a força muscular.

Embora o uso dessas drogas possa ser frequentemente abusivo, elas possuem propriedades farmacológicas significativas, com ações anabólicas que favorecem o armazenamento de proteínas e estimulam o crescimento ósseo e muscular. Essas características têm um grande potencial para serem aplicadas em diversas condições clínicas.

O objetivo deste artigo é abordar o uso clínico dos esteroides anabolizantes – indicações clínicas, efeitos colaterais e contraindicações. Com a última decisão do Conselho Federal de Medicina, se aprofundar nesse tema é fundamental para os profissionais de medicina.

Principais indicações clínicas para o uso dos esteroides anabolizantes

Existem diversas condições clínicas, além do hipogonadismo, nas quais há indícios de que os esteroides androgênicos (EA) podem ser benéficos. Essas condições incluem a: 

  • reabilitação de anorexia, 
  • recuperação de queimaduras graves,
  •  lesões musculares, 
  • osteoporose, 
  • determinados tipos de anemias e 
  • angioedema hereditário. 

Adicionalmente, a diminuição dos níveis de testosterona tem sido associada a condições relativas ao envelhecimento, tais como hipertensão, obesidade, diabetes, fadiga, depressão e declínio cognitivo.

Por isso, a terapia com testosterona tem sido investigada como uma possível estratégia para amenizar as mudanças relacionadas à idade.

O papel como drogas terapêuticas e potencial de efeitos colaterais podem variar conforme o análogo de testosterona. 

Principais andrógenos

Confira um resumo sobre os  principais andrógenos e suas peculiaridades:

Testosterona

Os seus ésteres (cipionato, decanoato, enantato, isobutirato, fenilpropionato, propionato, undecanoato) podem ser utilizados para hipogonadismo masculino, câncer de mama dependente de estrogênio em mulheres, adjuvante à terapia de reposição hormonal em mulheres na menopausa (para melhorar a libido), puberdade atrasada e hormonização para homens transgêneros. 

Metiltestosterona

Hipogonadismo, disfunção erétil, supressão dos sintomas da menopausa (ondas de calor, osteoporose, baixa libido) e no tratamento do câncer de mama. Tem hepatotoxicidade aumentada.

Boldenona

A boldenona aumenta o apetite e estimula a liberação de eritropoetina, mas atualmente é usado quase exclusivamente na medicina veterinária. 

Metandienona (dianabol ® )

Dificilmente são usados na prática clínica, sendo descontinuado na maioria dos países. Apesar de ter indicação clínica para hipogonadismo masculino, por ser um forte agonista dos receptores de estrogênio, pode causar ginecomastia e retenção de líquidos.

É comum que os usuários precisem usar moduladores seletivos de receptores de estrogênio (SERMs), como o tamoxifeno. Outros efeitos colaterais incluem transtornos mentais, aumento da agressividade e hepatotoxicidade. 

Metenolona

O metenolona é usado ​​principalmente no tratamento da anemia causada por falência da medula óssea, síndromes debilitantes, osteoporose, sarcopenia. Atividade androgênica e estrogênica fraca e baixa hepatotoxicidade. Por ter sido descontinuada para uso medicinal em muitos países, maior parte são adquiridos no mercado ilegal.

Oxandrolona

Foi estudada para diversas condições como: dor derivada da osteoporose, perda de peso, catabolismo proteico, emagrecimento induzido pela SIDA, hepatite alcoólica, queimaduras graves, anemia, angioedema hereditário, síndrome de Turner, hipogonadismo, baixa estatura idiopática.

Tem baixa atividade androgênica e hepatotoxicidade relativamente baixa (metabolizado principalmente pelos rins e não pelo fígado). Um dos efeitos colaterais mais comuns é a diminuição da lipoproteína de alta densidade (HDL).

Estanozolol

Anemia, osteoporose, queimaduras, lesões musculares esqueléticas, angioedema hereditário. O efeito colateral mais comum é a hepatotoxicidade e impotência sexual. À longo prazo está relacionado a insuficiência cardíaca. 

Turinabol

Foi desenvolvido para o tratamento de doenças debilitantes, especialmente para pacientes que perdem resistência e massa óssea. Está relacionado com o risco de eventos como trombose e embolia. Está proibida pela ANVISA. 

Nandrolona

Queimaduras, câncer de mama, anemia, osteoporose, emagrecimento induzido pelo HIV. Maior risco de retenção hídrica e alterações dermatológicas (acne, especialmente no rosto e nas costas.

Trembolona

É usado em animais para estimular o crescimento muscular e o apetite. Frequentemente adquirida no mercado ilegal, os efeitos colaterais mais comuns são disfunção erétil, redução do desejo sexual, suores noturnos, insônia, aumento da agressividade, ansiedade e problemas cardiovasculares.

Outros efeitos colaterais específicos são a “tosse de trembolona” (interação com os receptores de prostaglandina) e coloração laranja dos fluidos corporais (devido ao grupo cromóforo), incluindo a urina.

Efeitos colaterais do uso dos esteroides androgênicos (EA)

Independente do tipo da testosterona utilizada, seu uso pode resultar em graves efeitos adversos. Entre os mais frequentes estão: 

  • elevação da pressão arterial, 
  • alterações lipídicas com a redução do HDL e aumento dos triglicerídeos, disfunção hepática, 
  • aparecimento ou agravamento da acne (em 40-70% dos casos),
  • eritrocitose, 
  • elevação do risco de trombose, 
  • mudanças psicológicas e
  •  comportamento agressivo.

Adicionalmente aos efeitos colaterais citados, a utilização de esteroides androgênicos (EA) pode resultar em sintomas de abstinência após a interrupção do uso desses medicamentos. 

Esses sintomas se assemelham bastante aos observados em indivíduos que apresentam queda nos níveis de testosterona devido ao envelhecimento, incluindo o aumento do acúmulo de gordura, perda de massa muscular e de força óssea, alterações de humor, irritabilidade, fadiga intensa e depressão. 

Por isso, para muitos usuários, a única forma de reduzir esses sintomas é retomar o uso dos EA, levando eventualmente à dependência dessas substâncias – ainda que seja um tipo de dependência bastante específico e distinto de outras drogas. No entanto, com os indícios de que o abuso de EA está crescendo entre atletas amadores, isso pode representar um desafio para o sistema de saúde.

Contraindicações médicas uso dos esteroides anabolizantes

Mesmo que o paciente possua alguma condição clínica onde a terapia com testosterona tenha potencialmente um efeito benéfico, é fundamental avaliar as contraindicações absolutas. 

As principais contraindicações são:

  1. Câncer de próstata: A terapia com testosterona pode estimular o crescimento de um câncer de próstata existente. 
  2. Câncer de mama masculino: Embora seja raro, os homens podem desenvolver câncer de mama, e a terapia com testosterona pode potencialmente estimular o crescimento de células cancerígenas.
  3. Apneia do sono grave e não tratada: A terapia com testosterona pode agravar a apneia do sono.
  4. Insuficiência cardíaca grave: A terapia com testosterona pode causar retenção de fluidos, o que pode agravar a insuficiência cardíaca em algumas pessoas.
  5. Doença hepática ou renal grave: O fígado e o rim desempenham um papel crucial na metabolização da testosterona.

Conclusões 

Os esteroides anabolizantes, como a testosterona e seus derivados, têm várias aplicações clínicas legítimas baseadas em evidências científicas. No entanto, eles também podem causar uma série de efeitos colaterais graves, especialmente quando usados em doses elevadas ou por longos períodos. 

Por isso, é importante que o uso desses medicamentos seja sempre sob a supervisão de um médico qualificado e de acordo com as regulamentações.

Sugestão de leitura complementar 

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Veja também: 

Referências do artigo 

  • DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO. Publicado em: 11/04/2023 | Edição: 69 | Seção  1 | Página: 226
  • Tauchen J, Jurášek M, Huml L, Rimpelová S. Medicinal Use of Testosterone and Related Steroids Revisited. Molecules. 2021 Feb 15;26(4):1032.
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  • https://www.uptodate.com/contents/use-of-androgens-and-other-hormones-by-athletes . Acesso em maio/2023
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