Ciclo Clínico

Resumo de morfina: mecanismos de ação, farmacocinética, indicações e mais

Resumo de morfina: mecanismos de ação, farmacocinética, indicações e mais

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Sanar

6 min há 26 dias

Definição

A morfina é uma substância capaz de se ligar ao subtipo mu do receptor opióide. O receptor mu é tido clinicamente como o mais importante receptor opioide, por conta da sua ação analgésica principal, por meio da inibição das vias nociceptivas.

A estrutura da morfina foi determinada em 1902. É um derivado fenantrênico com dois anéis planares e duas estruturas alifáticas em anel. As partes mais importantes da molécula para a atividade opióide são os grupamentos hidroxila livres no anel benzênico que está ligado ao átomo de nitrogênio através de dois átomos de carbono. 

Desde então, muitos compostos opióides semissintéticos (produzidos por modificação química da morfina) e inteiramente sintéticos foram estudados.

Estruturas químicas de alguns opióides. Range & Dale, 2016.
Estruturas químicas de alguns opióides. Range & Dale, 2016. 

A utilização de morfina e derivados pode causar depressão respiratória grave, com risco de vida ou fatal. Nos EUA essa condição virou problema de saúde pública pela elevada incidência de dependência a essa classe de medicamentos. 

Importante saber que o antídoto para casos de intoxicação por morfina é a naloxona. Inclusive há protocolos nos EUA em que a utilização do naloxona deve ser feita por via inalatória nos atendimentos pré-hospitalares de pacientes encontrados inconscientes. 

Apresentação da morfina 

A morfina é comercializada no Brasil principalmente pela marca Dimorf com as seguintes apresentações:

  • Comprimidos com sulfato de morfina de 10 e 30 mg. 
  • Cápsulas de liberação prolongada  com sulfato e morfina de 30, 60 e 100 mg
  • Solução injetável com sulfato de morfina: 
    • 02 mg/ml em ampola de 1 ml; 
    • 1 mg/ml em ampolas de 2 ml e 10 ml; 
    • 10 mg/ml em ampola de 1 ml. 

Mecanismos de ação

A morfina liga-se aos receptores do tipo Mu opióides no sistema nervoso central (SNC), causando inibição das vias ascendentes da dor, alterando a percepção e a resposta à dor; produz depressão generalizada do SNC. 

Os opióides atuam promovendo a abertura dos canais de potássio e a inibição da abertura de canais de cálcio controlados por voltagem. Causando assim, hiperpolarização e redução da excitabilidade neuronal. 

Além disso, ocorre redução da liberação de transmissores (pela inibição da entrada de Ca2+). Contudo, os opióides também aumentam a atividade em algumas vias neuronais. Esse efeito ocorre devido a um processo de desinibição, em que acontece excitação dos neurônios de projeção por supressão da atividade de interneurônios inibitórios.

Farmacocinética e farmacodinâmica da morfina

Após administração oral, o pico de concentração plasmática é atingido em aproximadamente 60 minutos. A alimentação não altera a biodisponibilidade da morfina. Distribui-se ao músculo esquelético, fígado, rins, pulmões, trato intestinal, baço e cérebro.

A duração da ação varia de acordo com a formulação. Enquanto formulações de liberação imediata (comprimido, solução oral, injeção) a duração é cerca de 3 a 5 horas, as cápsulas de liberação prolongada duram entre 8 a 24 horas. 

A morfina é metabolizada formando morfina-3-glicuronídeo e morfina-6-glicuronídeo, tendo o último ação analgésica significativa. O primeiro é inativo, mas liga-se aos receptores, impedindo a ligação da morfina. 

Os metabólitos se acumulam em pacientes com insuficiência renal. É bem tolerada em pacientes com hepatopatias, sendo que, nestes pacientes, a sua meia-vida pode aumentar e a dose deve ser espaçada para três a quatro vezes ao dia.

Indicações e doses terapêuticas 

A morfina faz parte do tratamento da dor intensa. Dentro da escala da dor, é utilizado principalmente para os pacientes em que os tratamentos alternativos não melhoraram a dor.  

É utilizado em off-label para pacientes criticamente enfermos internados em UTI (analgesia e sedação) e dispneia em pacientes em cuidados paliativos. 

A dose analgésica varia de 5mg até mais de 200mg, a cada 4 horas. Na maioria dos casos, a dor é controlada com doses de 10 a 30mg, de 4/4 horas, devendo ser aumentada gradativamente, sendo que a dose noturna pode ser dobrada a fim de 

evitar dor ao despertar. A dose adequada é a dose que alivia a dor com mínimos efeitos adversos.

Efeitos adversos

Os efeitos adversos mais comuns são sonolência, constipação, náuseas, vômitos e retenção urinária, que podem superar 10% dos pacientes em uso de morfina.  Outros efeitos comuns incluem edema periférico, depressão, insônia parestesia, tontura, ansiedade, anormalidade de pensamento, confusão, convulsão, erupção cutânea, diaforese, dor abdominal, anorexia, diarreia, xerostomia, biliar cólica. 

A morfina e seus derivados podem causar dependência, por isso é importante saber os efeitos colaterais mais graves em caso de intoxicação. Estas podem causar depressão do SNC, o que pode prejudicar as habilidades físicas ou mentais, hipotensão grave e depressão respiratória. 

Contraindicações

As contraindicações são pacientes com hipersensibilidade à morfina ou a qualquer componente da formulação, depressão respiratória significativa, asma brônquica aguda ou grave em ambiente não monitorado ou na ausência de equipamento de ressuscitação, uso concomitante de inibidores da monoamina oxidase (IMAO) ou uso de IMAO nos últimos 14 dias, Obstrução gastrointestinal, incluindo íleo paralítico. 

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Referências:

  1. Rang, H.P; Dale, M.M. Editora Elsevier, 8a edição, 2016. 
  2. Morphine: Drug information. Waltham (MA): UpToDate, Inc., 2021. 
  3. UpToDate – Cancer pain management: General principles and risk management for patients receiving opioids, Russell K.
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