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Trauma raquimedular: a prevenção ainda é o melhor tratamento

Trauma raquimedular: a prevenção ainda é o melhor tratamento

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1. Introdução:

O trauma raquimedular (TRM) é por definição qualquer injúria causada à coluna vertebral, incluindo ou não a medula espinhal e suas raízes nervosas. Em 15 a 20% desses casos ocorre lesão medular, o que piora muito o prognóstico da pessoa traumatizada.

Em seu livro autobiográfico “Feliz Ano Velho”, Marcelo Rubens Paiva narra suas fraquezas e vitórias após ficar tetraplégico por conta de um mergulho de cabeça nas águas rasas de um lago, com passagens emblemáticas, que nos alertam para a falta de informação e necessidade de conscientização da população frente a esse tipo de acidente e suas possíveis consequências.

Mesmo tendo sido lançado na década de 1980, até hoje o alerta ainda se mostra necessário, visto que muitas pessoas não são bem informadas sobre o risco de diversas atividades para a saúde do corpo e muitos traumas evitáveis ainda continuam ocorrendo. Dica de leitura: Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva.

2. Epidemiologia do trauma raquimedular:

O TRM apresenta maior prevalência no sexo masculino, mais especificamente de 4:1, e ocorre na maior parte das vezes entre os 15 e 40 anos, compreendendo idades de vida produtiva e economicamente ativa. Dentre as suas principais causas no Brasil, estão os acidentes automobilísticos, ferimentos com arma de fogo, quedas e mergulho em águas rasas. Tendo em vista esse quadro epidemiológico, nota-se que a lesão medular possui dentre suas principais causas, muitas evitáveis.

3. Qual a grande importância de prevenir o TRM? Como a injúria da medula espinhal afeta o corpo?

O grande ponto que indica a necessidade de prevenção desse tipo de trauma são as suas possíveis consequências, que geram alta taxa de morbimortalidade na população brasileira. Mas como isso acontece?

A medula espinhal consiste em uma massa de tecido nervoso em formato cilíndrico, que ocupa, (não completamente), o canal vertebral, espaço formado pelos forames das vértebras e é responsável pela conexão entre sistema nervoso e nossos membros e tronco.

Essa conexão só é possível graças às vias ascendentes e descendentes da medula, compostas por tratos (aglomerados de substância branca), que estão conectados às raízes nervosas dos nervos espinhais, e ambas as partes, senstitiva e motora, onde a primeira irá compor uma via ascendente e a segunda uma descendente.

Dessa forma, os impulsos chegam de determinado dermátomo, porção do corpo que corresponde a um ou mais nervos espinhais em sua parte sensitiva ou são direcionados a partir do córtex cerebral para um determinado miótomo, porção do corpo que corresponde a determinados músculos inervados por um nervo espinhal. Essas correspondências são demonstradas nas Figuras 1, 2 e 3 e ajudam a determinar o nível da lesão neurológica clinicamente.

Com isso, há tratos de grande importância para o diagnóstico, pois a partir das manifestações clínicas do paciente, nota-se em quais locais a medula foi mais comprometida.

Os principais são: o trato espinotalâmico ventral, responsável pelo tato protopático e pressão do lado oposto do corpo (contralateral), pois o cruza em seu trajeto; trato espinotalâmico lateral, que comanda as sensibilidades térmica e dolorosa também contralateral; trato grácil e cuneiforme, responsável pela propriocepção consciente e tato epicrítico do mesmo lado do corpo (ipsilateral), pois seu trajeto é direto, sem cruzamentos.

Por fim, os tratos corticoespinhais lateral e anterior, componentes de via descendente, são responsáveis pela força motora, possibilitando a contração muscular a partir dos estímulos corticais.

Suas fibras originam-se juntas no córtex, constituindo um único trato corticoespinhal, porém, ao nível da decussação das pirâmides bulbares, uma parte das fibras se cruzam, formando o trato corticoespinhal lateral, enquanto outra parte não se cruza (10-25%), originando o trato corticoespinhal anterior.

No entanto, também acabam se cruzando após entrar na medula, o que nos evidencia que a motricidade de um lado do corpo é comandada pelo hemisfério oposto (contralateral).

Com uma injúria causada à medula espinhal, por um TRM, há um estímulo mecânico direcionado ao órgão, ocorrendo uma transferência de energia cinética responsável pela destruição de neurônios, células gliais e vasos sanguíneos ali presentes. Essa etapa é tida como a lesão primária e uma vez ocorrida não há possibilidade de reversão.

A lesão secundária é aquela que se segue à primária e corresponde a diversos mecanismos concomitantes a nível mais biocelular; esta tem possibilidade de reversão. Dentre os mecanismos que ocorrem, estão envolvidos mecanismos vasculares, iônicos, bioquímicos, inflamatórios e celulares. Com isso, dependendo das vias e tratos acometidos pela lesão medular, os sintomas serão apresentados em correspondência.

No caso de lesões mais altas, a nível cervical, o paciente pode vir a óbito por falência respiratória, por conta de paralisia dos músculos intercostais e diafragma. Quando a morte não ocorre, pode haver, ainda, grande morbidade, com inúmeros casos de paraplegia e tetraplegia, que modificam completamente a vida do paciente.

ocorrendo a falência respiratória ou a uma grande morbidade, com inúmeros casos de paraplegia e tetraplegia. Dentre os cuidados necessários estão a assistência de uma equipe multiprofissional, uso de cadeira de rodas e outros aparatos e, ainda, a possibilidade de dependência dos cuidados de terceiros para o resto da vida.

Porém, com os avanços das técnicas de reabilitação e treinamento neurológico, cada vez mais eles conseguem retomar uma independência, mas com uma vida completamente diferente.

Atlas de Anatomia Humana, NETTER, Frank H., 2014

4. Prevenção do TRM na abordagem das causas evitáveis:

Como todo tipo de trauma, não há remédio ou vacina que reduza as chances de ele ocorrer; porém, pelas estatísticas, há muitas causas evitáveis que levam ao TRM e é por meio do comportamento humano que se pode agir para evitá-lo, implantando campanhas de conscientização para a população.

É importante citar que diversas iniciativas já foram tomadas frente a essa problemática, como no ano de 2015, na cidade de Diamantina – MG, onde um trabalho foi realizado em escolas públicas da região, com o objetivo de entrevistar diversos alunos e indagá-los sobre seus conhecimentos da possibilidade de ocorrência dos traumas cranioencefálicos e raquimedulares.

A partir disso, notaram uma grande deficiência nesse conhecimento e trabalharam na transferência de informação por meio de cartilhas e aulas para essas pessoas, alertando-os para os riscos de diversas situações, como por exemplo, não usar o cinto de segurança e mergulhar em locais desconhecidos.

Além disso, o dia 5 de setembro é intitulado Dia Mundial da Lesão Medular (Figura 3), instaurado para trazer a atenção do público para informações de prevenção e como conviver com uma lesão que acometa a medula espinhal. Porém, ainda há necessidade de ampliação das medidas que obtiveram sucesso e surgimento de outras novas, a fim de reduzir a ocorrência do TRM.

É de extrema necessidade a ocorrência de campanhas de conscientização da população, por meio de peças publicitárias com enfoque nas boas práticas no trânsito e a elucidação de causas muitas vezes desconhecidas, como o mergulho em águas rasas, mostrando para a população a fragilidade de uma área do corpo que pode passar despercebida, a coluna vertebral, dando-as, assim, a oportunidade de se atentarem mais aos riscos que correm.

Para isso, os próprios médicos devem se preocupar mais em alertar a população mais exposta para os riscos desse trauma, por meio de trabalhos educativos em escolas, como o demonstrado acima, juntamente ou não com o poder público, o Ministério da Saúde, a iniciativa privada ou até mesmo realizando trabalhos voluntários autônomos.

No entanto, a iniciativa poderia, ainda, ser estendida a empresas, locais onde estão grande parte do público afetado não só pelo TRM, mas por outros tipos de acidentes, e, com isso, as mesmas propostas colocadas nas salas de aula podem também ser úteis à população mais adulta em seus postos de trabalho.

Além disso, as campanhas devem estar espalhadas pelos grandes meios de circulação, como as estradas, onde ocorrem acidentes de trânsito, praias, cachoeiras e rios, onde os mergulhos podem ser responsáveis pelo trauma e até nos consultórios médicos, podendo ser um meio poderoso de conscientização, tendo em vista a responsabilidade social do profissional de saúde.

https://www.iscos.org.uk/

5. Conclusão:

É notório que o trauma raquimedular representa um problema de saúde pública, sendo visto o grande impacto que suas consequências podem causar na vida do traumatizado e de sua família, podendo até mesmo levar à morte e incapacidade. No entanto, diversas causas podem ser facilmente evitáveis com medidas educativas que visem a prevenção desse tipo de trauma, podendo reduzir significativamente os casos de TRM, preservando a vida e autonomia dos indivíduos.

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