Infectologia

Varíola do Macaco: o que se sabe sobre a vacinação contra o vírus

Varíola do Macaco: o que se sabe sobre a vacinação contra o vírus

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A vacina contra o vírus da Varíola do Macaco está chegando ao Brasil. Saiba tudo sobre o imunizante e quem estará apto a recebê-lo.

A vacina utilizada contra a Varíola Humana foi testada e autorizada no processo de imunização contra da Varíola do Macaco (MV). Devido ao surto iniciado em 2022, especialistas desenvolveram pesquisas e ensaios clínicos visando conhecer a eficácia dos imunizantes já existentes contra o MV. A base do estudo se deve ao fato de que ambos os vírus pertencem ao mesmo gênero, o Orthopoxvirus. 

O processo de imunização já está ocorrendo nos Estados Unidos (EUA), Europa, Canadá e Reino Unido. O Brasil deve receber uma remessa das vacinas entre setembro e outubro.

Varíola do Macaco: o que é?

A Varíola do Macaco , o Monkeypox em inglês, foi referida pela primeira vez em 1958. Ela é classificada como uma zoonose – vírus transmitido incidentalmente de animais para humanos. A doença se manteve em controle durante séculos, sendo bastante rara no mundo.

Entretanto, em 2022 houve um surto de varíola do macaco em diversos países com expressivo número de casos.

Epidemiologia

No mundo já temos 62.406 casos confirmados. Destes, 61.827 são relatados em lugares que nunca tinham reportado a presença do vírus em seu território. O total de morte é de 20 pessoas.

No Brasil, o primeiro caso foi notificado em junho na cidade de São Paulo. Até o exato momento, temos 6.649 casos e 2 mortes confirmadas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

Diante dos dados, é possível perceber que se trata de uma doença que apresenta baixa mortalidade e possui grande disseminação. Assim, os pesquisadores e governantes uniram forças para testar as vacinas da varíola humana para profilaxia da doença.

A história da varíola humana

O vírus da varíola humana é um antigo conhecido dos cientistas. Este é um grande vírus de DNA de fita dupla que realiza todo o seu ciclo de replicação no citoplasma das células infectadas. O mesmo pertence ao gênero Orthopoxvirus

A necessidade de ter um controle dos casos da varíola humana no passado fez com que o médico Edward Janner, em 1796, se dedicasse aos estudos. Ele  descobriu que inoculando o vírus varíola bovina (o bovina vírus) em pessoas as protegeriam contra o vírus da varíola humana. 

No século 19, passou-se a utilizar outro tipo de vírus, os imunizantes: o vaccinia. Com esse agente viral, se produziu imunizantes que foram responsáveis pela vacinação em massa e que, juntamente com as  medidas de vigilância, higiene e quarentena, ajudaram a erradicar a doença em 1980. 

Apesar do feito emblemático, a vacina provocava muitos efeitos colaterais. Temos relatos na literatura de miocardite, miopericardite, encefalite pós-vacinal, entre outras complicações vacinais menos agressivas.

Além disso, existia o receio por parte dos EUA que alguns terroristas utilizassem a vacina como arma biológica, fazendo-os descartarem os lotes que o país tinha disponível na época. Entretanto, mesmo com a doença erradicada, se fazia necessário ter algum imunizante disponível em casos de emergência. E assim, os estudos continuaram.

As vacinas existentes para a varíola

Em 2000, foi criada a vacina chamada de ACAM2000.  Apesar de mais segura do que a antiga, já que nesta o vírus é cultivado em células de laboratórios e não em células de bezerros como as de antigamente, ainda provoca reações adversas.

A vacina tem como tecnologia o uso de vírus inativado que podem ser replicados nas células e causar a doença. Assim, essa vacina deve ser evitada para aqueles que têm o sistema imunológico debilitado.

Em 2019, a agência sanitária americana, FDA, autorizou a  Vacina Vaccinia Ankara modificada (MVA) – JYNNEOS – conhecida como Imvanex na Europa e Imvamune no Canadá.

A JYNNEOS possui menos efeitos colaterais. O novo imunizante utiliza a forma atenuada do vírus não replicante, tornando-a mais segura para indivíduos com sistema imunológico comprometido.  Os sintomas que foram detectados são os seguintes: 

  • Dores de cabeça;
  • Náuseas;
  • Fadiga;
  • Reações no local da injeção.

A vacinação: vacina contra varíola do macaco

Diante do quadro de surto da Varíola dos Macacos iniciado em 2022, cientistas, médicos e pesquisadores iniciaram testes de imunização com as vacinas utilizadas contra a varíola humana. 

Os estudos se embasaram no fato de que os vírus são do mesmo gênero (Orthopoxvirus) e possuem a mesma estrutura genética (vírus de DNA de fita dupla). Apesar da semelhança, inclusive, nos sintomas dos dois tipos de varíola, a gravidade da Monkeypox é infinitamente menor.

Com o resultado do ensaio clínico, a vacina JYNNEOS foi aprovada para a prevenção da varíola e da varíola dos macacos. A sua escolha se deve ao menor risco de desenvolver a doença, uma vez que o vírus vaccinia é altamente atenuado, não replicante. Isso aumenta o perfil de segurança, mesmo no uso em pessoas imunocomprometidas. 

Como é feita à imunização contra varíola do macaco?

A vacina contra varíola do macaco é administrada por injeção subcutânea. O imunizante deve ser dado em duas doses de 0,5ml, com intervalo de 28 dias entre as aplicações (4 semanas). O pico da imunidade é esperado após 14 dias da segunda dose.

Uso emergencial em doses fracionadas

Apesar das recomendações, os insumos estão em falta e estamos tendo uma escassez da vacina. Assim, a FDA autorizou o uso emergencial de vacina em doses fracionadas: cada frasco será dividido em 5 com o objetivo de ampliar a quantidade de vacinas.

Segundo o Comitê Consultivo de Práticas de Imunização dos EUA (ACIP), é recomendado uma dose de reforço para as pessoas com risco contínuo de exposição às espécies mais virulentas do gênero Ortopoxvírus, como é o caso da varíola do macaco. Nesse caso, a dose deve ser administrada a cada 2 anos.

Relembre como acontece o processo de imunização 

A imunização pode ser do tipo passiva e ativa, através da administração do agente imunobiológico. O corpo pode receber antígenos para que desenvolva anticorpos de uma determinada doença (forma ativa) ou já recebe o anticorpo pronto para combater a enfermidade já instaurada no corpo (forma passiva).

Imunização ativa

A imunização ativa pode ocorrer de forma natural, através do contato direto do indivíduo com o agente infeccioso ou de maneira artificial, com a administração da vacina ou toxóide.

O resultado do uso desses dois insumos costuma produzir imunidade de longo prazo. O tempo de início da proteção vai depender do tipo do vírus e ou bactéria utilizado, do organismo receptor e da sua reação àquele microorganismo estranho.

A vacina é uma uma suspensão de microorganismos que pode ser encontrada de diversas formas: 

  • Microorganismos vivos atenuados: pequenas quantidades deles se multiplicam no receptor até que uma resposta imunológica aborte a replicação. Costumam a causar mais reações adversas;
  • Microorganismos inativados:  contêm grandes quantidades de antígeno – geralmente necessitam de doses de reforço;
  • Fragmentos dos microorganismos. 

Os toxóides, são toxinas bacterianas modificadas, que preservam a sua característica, mas não são tóxicas. Estes contêm grandes quantidades de antígeno.

A vacina deve estimular respostas imunes mediadas por linfócitos B e T efetores e de memória. No primeiro contato, o corpo vai produzir uma resposta imune inicial contra o agente infeccioso, que costuma ser mais lenta e causar sintomas.

Em um segundo contato com o mesmo antígeno, vai ocorrer um reestímulo às respostas imunes de memória de forma mais rápida, reativando as células B e T, e produzindo menos sintomas ou até nenhum, proporcionando proteção à pessoa imunizada. 

Imunização passiva

A imunização passiva também pode acontecer de forma natural ou artificial. Em relação à primeira, podemos pensar na transferência de anticorpos já prontos da mãe através da placenta e do cordão umbilical para o feto. No caso da segunda, temos os soros. 

É utilizado duas substâncias, a imunoglobulinas e a antitoxinas, com anticorpos pré-formados para se obter uma imunidade temporária. A primeira delas pode ser obtida através do sangue humano. Já a segunda, são coletadas de animais imunizados com antígenos específicos. 

Esse tipo de imunização é orientado a ser fornecido a indivíduos antes ou logo após à exposição de um agente infeccioso, em que o uso da vacina não é possível ou em casos que o mesmo não tenha conseguido uma imunidade prévia.

Qual a perspectiva para o futuro da Varíola do Macaco?

O estudo realizado mostrou que a vacina contra a varíola do macaco possui uma eficácia na proteção contra o vírus de até 85%. Apesar disso, no momento atual não é indicada a vacinação em massa.

Durante o surto global que estávamos vivendo, a vacinação em todo o mundo está sendo usada para profilaxia pós-exposição e, quando os recursos permitem, também será ofertada à comunidades com alto risco de exposição.

O Brasil e a vacinação

O ministério da saúde do Brasil está em negociação para aquisição de 50 mil doses de vacina e a expectativa é que até o final de setembro elas cheguem ao país.

A imunização não será disponibilizada para toda a população. Será apenas para para profissionais de saúde que trabalham diretamente no manejo da doença e para as pessoas que tiveram contato do pessoas infectadas pelo vírus.

Sugestão de leitura

Referências

CDC – CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. About Monkeypox. [s.l: s.n.]. 2022. Disponível em: . Acesso em 20/09/2022

CDC – CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Monkeypox Prevention. [s.l: s.n.]. 2022. Disponível em: . Acesso em 20/09/2022.

CDC – CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Monkeypox Vaccines. [s.l: s.n.]. 2022. Disponível em: <.Acesso em 20/09/2022.

DOURADO, P. SANTOS, P. VIEIRA, L. MONKEYPOX – VARÍOLA DOS MACACOS. Subsecretaria de Saúde.  Gerência de Informações Estratégicas em Saúde – CONECTA-SUS. Junho de 2022. Disponível em: . Acesso em 20/09/2022

GOLDMAN, L. SCHAFER, A. I.  Goldman Cecil Medicina. Volume 1 e 2, 24ª ed. Editora Guanabara Koogan, 2015.

ISAACS, S. N. et al. Treatment and prevention of monkeypox. UpToDate. Setembro de 2022. Disponível em: . Acesso em: 20/09/2022.

ISAACS, S. N. FRIEDMAN, H.M. Vaccines to prevent smallpox, monkeypox, and other orthopoxviruses. UpToDate. Setembro de 2022. Disponível em: < https://www.uptodate.com/contents/vaccines-to-prevent-smallpox-monkeypox-and-other-orthopoxviruses?search=vacina%20da%20variola%20dos%20macacos&source=search_result&selectedTitle=3~21&usage_type=default&display_rank=2>. Acesso em: 20/09/2022.

WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Monkeypox. [s.l: s.n.]. 2022a. Disponível em: . Acesso em 20/09/2022.