Cirurgia geral

Você sabe o que é o Abdome Agudo?

Você sabe o que é o Abdome Agudo?

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O que é abdome agudo? Dúvida comum entre alguns estudantes de medicina, o abdome agudo precisa ser identificado rapidamente para reduzir a morbidade e mortalidade de pacientes.

Neste conteúdo, vamos explicar tudo sobre o abdome agudo e tiraremos todas as suas dúvidas.

Bons estudos!

O que é abdome agudo?

O abdome agudo é um quadro clínico caracterizado por dor e sensibilidade abdominais, de início súbito ou de evolução progressiva, que geralmente necessita de conduta cirúrgica de emergência para resolução do quadro.

Para essas condições agudas, é importante fazer um diagnóstico rápido, a fim de reduzir a morbidade e a mortalidade.

Quais as causas e os tipos de abdome agudo?

Agora que você entende o que é abdome agudo, é hora de saber as suas principais causas e tipos.

A prevalência das causas de abdome agudo muda conforme a faixa etária. Sem sombra de dúvidas, a causa mais comum em jovens é a apendicite. Já em idosos é doença biliar, obstrução intestinal e isquemia/infarto intestinal. A adenite mesentérica é comum em crianças.

A título de conhecimento existem causas não cirúrgicas de abdome agudo também, como por exemplo, uremia, crise diabética e porfiria aguda intermitente.

Podemos dividir o abdome agudo em “síndromes”: inflamatória, perfurativa, obstrutiva, vascular e hemorrágica.

Abdome Agudo Inflamatório

A dor é de inicio insidioso, com agravamento e localização com o tempo. O paciente apresenta geralmente sinais sistêmicos, tais como febre e taquicardia.

As doenças mais comuns são:

  • apendicite aguda;
  • colecistite aguda;
  • diverticulite aguda;
  • pancreatite;
  • anexite aguda.

A apendicite é a causa mais comum de abdômen agudo cirúrgico no mundo. Pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas é mais comum em adolescentes e adultos jovens.

Na apendicite, a dor inicialmente é periumbilical associada a náuseas, vômitos e inapetência com posterior localização em fossa ilíaca direita.

Abdome Agudo Perfurativo

A dor é súbita e intensa, com defesa abdominal e irritação peritoneal.

Pode haver derrame do conteúdo de víscera oca no peritônio, geralmente secundário à úlcera gastroduodenal, diverticulite, corpos estranhos e neoplasias.

Abdome Agudo Obstrutivo

A dor em cólica, geralmente periumbilical. Associadamente surgem náuseas, vômitos, distensão abdominal, parada da eliminação de flatos e fezes.

Acontece na oclusão mecânica por bridas/aderências, hérnias, neoplasias e invaginação. Brida é a principal causa de abdome agudo obstrutivo, especialmente em pacientes com histórico de cirurgia.

Nos idosos com quadro de abdome agudo obstrutivo e quadro de perda ponderal importante, deve-se também pensar em neoplasia como causa.

Abdome Agudo Vascular

A dor difusa e mal definida, há desproporção entre a dor e o exame físico e as causas mais comuns são embolia e trombose mesentérica, com isquemia intestinal.

Abdome Agudo Hemorrágico

A dor intensa, com rigidez e dor à descompressão; há sinais de hipovolemia, tais como hipotensão, taquicardia, palidez e sudorese.

As causas mais comuns são gravidez ectópica rota, ruptura de cistos, ruptura de aneurismas, rotura de baço.

Qual o quadro clínico do abdome agudo?

A Dor

A dor de cólica é uma dor rítmica, com espasmos regulares de dor recorrente, chegando a um clímax e desaparecendo. É virtualmente patognomônico da obstrução intestinal.

A cólica uretérica é uma verdadeira dor abdominal tipo cólica, mas as chamadas cólicas biliares e cólicas renais não são verdadeiras cólicas.

A Localização

A dor epigástrica geralmente decorre de distúrbios do esôfago, estômago e duodeno, estruturas hepatobiliares, pâncreas e baço. No entanto, à medida que alguns distúrbios progridem, a dor tende a se deslocar da linha média para a direita (vesícula biliar e fígado) ou para a esquerda (baço).

A dor periumbilical geralmente decorre de distúrbios das estruturas do intestino médio embriológico, enquanto as estruturas do intestino posterior tendem a referir dor à região inferior do abdômen ou suprapúbica.

Os receptores sensoriais intra-abdominais podem ser considerados como inervando o peritônio visceral ou parietal. Os mecanorreceptores viscerais são desencadeados pela distensão intestinal ou tensão no mesentério ou vasos sangüíneos, enquanto os nociceptores são desencadeados por estímulos mecânicos, térmicos e químicos.

A dor das vísceras é sentida como difusa e mal localizada, enquanto a estimulação dos nociceptores peritoneais parietais causa uma dor que é experimentada diretamente no local do insulto.

A peritonite é uma inflamação do peritônio de qualquer etiologia. Ao exame físico, o paciente vai apresentar dor à palpação abdominal superficial e/ou profunda, com ou sem dor à descompressão brusca e contração voluntária ou involuntária à palpação.

A dor referida é aquela sentida num local distante do estímulo doloroso. Por exemplo, a inflamação do diafragma pode causar dor em ombro ipsilateral. Um trauma esplênico com ruptura do baço pode levar a hipersensibilidade em ombro esquerdo, sendo este sinal chamado de Sinal de Kehr.

Em geral, dor abdominal superior é causada por lesões do trato gastrointestinal (TGI) superior, enquanto que no andar inferior do abdome são lesões do TGI ou órgãos pélvicos inferiores. Vômitos graves precoces indicam uma obstrução alta do TGI.

Como suspeitar o abdome agudo?

A maioria das causas do abdome agudo é grave e o diagnóstico precoce é obrigatório para reduzir a mortalidade e a morbidade.

É vital não diagnosticar incorretamente uma gravidez ectópica rota, que causa dor abdominal inferior ou suprapúbica de início súbito, ou as causas vasculares com risco de vida, como aneurisma roto ou dissecante da aorta, oclusão da artéria mesentérica e infarto do miocárdio (que podem se apresentar como dor epigástrica).

As úlceras perfuradas e o intestino estrangulado, como o vólvulo do sigmóide e o aprisionamento do intestino delgado em um orifício herniário ou em torno de aderências, também exigem um diagnóstico precoce.

Uma armadilha muito comum é diagnosticar erroneamente a apendicite aguda, especialmente em idosos, em crianças, em gestantes e naqueles que tomam esteroides, pois a apresentação pode ser atípica.

Apendicite precoce apresenta tipicamente com dor abdominal central/periumbilical que se desloca para a fossa ilíaca direita cerca de 4 a 6 horas depois. Isso pode causar confusão no início. Pode levar a diarréia com dor abdominal, especialmente se for um apêndice pélvico, e pode ser diagnosticada erroneamente como gastroenterite aguda.

Anamnese

A dor deve ser analisada de acordo com sua qualidade, quantidade, local e irradiação, início, duração e deslocamento, fatores de melhora e piora e sintomas e sinais associados.

Outros fatores, além da dor, devem ter atenção especial:

  1.  Anorexia, náusea ou vômito;
  2. Alterações miccionais;
  3. Diarreia ou constipação/parada da eliminação de flatos;
  4. Menstruação/contracepção;
  5. Ingestão de drogas (medicações/álcool/drogas ilícitas);
  6. Prurido;
  7. Sangramento intestinal;
  8. Distensão abdominal;
  9. Febre;
  10. Síndrome colestática;
  11. Histórico de trombose/fibrilação atrial.

Exame físico

A rapidez e objetividade do exame depende do estado clinico do paciente. Em pacientes instáveis fazemos uma avaliação rápida e monitorização cardioscópica, oximetria de pulso e acesso periférico. Em pacientes estáveis podemos fazer uma avaliação mais completa.

No exame abdominal devemos fazer a inspeção, ausculta, palpação e percussão (nessa ordem). Pode se realizar também algumas testes clínicos, como sinal de Murphy (sinal de sensibilidade peritoneal na colecistite aguda, onde o paciente interrompe a respiração profunda durante a palpação do ponto cístico); sinais iliopsoas e obturadores (na apendicite).

O exame de toque retal é de extrema importância na suspeita de abdome agudo, no qual deve avaliar presença ou ausência de fezes em ampola retal, massas ou sangramento intraluminal.

Os sinais físicos podem ser reduzidos em idosos, obesos, gravemente doentes e pacientes em terapia com corticosteróides.

Exames complementares

Exames complementares abdome agudo - Sanar Medicina

Exames complementares absome agudo - Sanar Medicina

 

Imagem de um Pneumoperitônio
Pneumoperitônio (Sabiston, 19°ed)

 

Como tratar o abdome agudo?

O tratamento é dependente da etiologia da dor abdominal. Deve-se verificar sinais vitais e realizar estabilização clínica com monitorização. É importante fazer dois acessos calibrosos, com coleta de exames e tipagem sanguínea, em caso de dor abdominal severa.

O objetivo do manejo do abdome agudo, principalmente no departamento de emergência, é determinar se é cirúrgico ou não.

Os pacientes podem receber medicações sintomáticas como analgésicos e antiespasmódicos como a combinação de dipirona e hioscina. Mas em casos de dor incontrolável, pode usar morfina, 0,05 mg/kg a cada 20 minutos até controle da dor (cuidado com pacientes com náuseas e vômitos, pois o medicamento pode piorar esses sintomas). Em pacientes com quadros de litíase urinária, podemos usar anti-inflamatórios.

É importante lembrar-se das medidas conservadoras na vigência de um abdome agudo obstrutivo. Se a causa do abdome agudo obstrutivo for brida, por exemplo, as medidas clínicas podem ser suficientes. Portanto, devemos passar sonda nasogástrica para descompressão do trato gastrointestinal, otimizar procinéticos e hidratar o paciente.

Mapa Mental sobre o que é abdome agudo

Abdome agudo

Confira o vídeo sobre o que é abdome agudo perfurativo:

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