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Antipsicóticos: mecanismo de ação, drogas e efeitos colaterais

Antipsicóticos: mecanismo de ação, drogas e efeitos colaterais

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Antipsicóticos: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!

Os antipsicóticos são também chamados de neurolépticos, por causarem retardo psicomotor, tranquilização emocional e indiferença afetiva. Em outras palavras, pioram os sintomas negativos.

Os antipsicóticos são divididos em típicos e atípicos. Os primeiros antipsicóticos geram efeitos extra-piramidais (como tremores), e são chamados de típicos. Já os que não geram tremores ou efeitos extra-piramidais são aantipsicóticos atípicos (clozapina). São utilizados em múltiplas doenças psiquiátricas, principalmente a esquizofrenia.

Antipsicóticos típicos

São divididos em alta potência e baixa potência:

  • Alta potência: o que é diferente de maior poder sedativo. Eles na verdade são menos sedativos e mais “deliriolítico”. São dose-dependentes para diminuir os efeitos psicóticos. São eles o haloperidol, trifluoperazina, flufenazina.
  • Baixa potência: muitas vezes são mais sedativos que os de alta potência. Apresentam mais propriedades anticolinérgicas, anti-histamínicas e antagonistas alfa-1 (uma vez que são necessárias doses mais elevadas para atingir propriedades antipsicóticas). São eles a clorpromazina, levomepromazina, tioridazina.

Mecanismo de ação dos antipsicóticos típicos

Agem com o bloqueio dos receptores D2 da dopamina. Sabe-se que os sintomas positivos da esquizofrenia são gerados por um aumento da atividade dopaminérgica na via mesolímbica, devido a maior ligação do neurotransmissor dopamina aos seus receptores D2.

Todos os antipsicóticos agem em D2, a maioria deles bloqueando sua ação. Os de baixa potência são eficazes, mas para bloquear D2 necessitam de doses mais altas, o que pode gerar efeito adversos:

  • Bloqueio M1: constipação, retenção urinária
  • H1: aumento do apetite, sonolência
  • Alfa-1-periférico: hipotensão postural.

Principais antipsicóticos típicos

Dentre os principais medicamentos antipsicóticos típicos é possível citar:

  • Haloperidol
  • Clorpomazina

Haloperidol

Menos sedativo, mas também causa sedação. Tem alta potência e maior bloqueio D2. Pode ser injetável de ação rápida com pico em 20 min ou oral (1h a 4h).

Existe a formulação de depósito – haloperidol decanato – 50-200mg/mês. Ele é liberado gradativamente e pode ser utilizado em pacientes com baixa adesão. Também é usado para tratar agitação psicomotora de outras causas.

Clorpomazina

É de baixa potência, muito utilizado, sobretudo para profilaxia enxaqueca e outros sintomas neurológicos. Além disso, é uma medicação mais sedativa e que precisa de doses maiores para efeito antipsicótico.

Existe uma formulação injetável ou oral e é uma medicação que apesenta muitos efeitos colaterais. Sendo considerado o primeiro antipsicótico descoberto por acaso, devido a suas propriedades anti-histamínicas.

Efeitos colaterais dos antipsicóticos típicos

A maioria deles são derivados do bloqueio dos receptores D2 em outras vias que não a mesolímbica.

  • Bloqueio dos receptores anti-colinérgicos muscarínicos M1: visão turva, boca seca, constipação
  • Bloqueio dos receptores anti-histamínicos H1: ganho de peso, sonolência
  • Bloqueios dos receptores alfa-1-adrenérgicos: hipotensão ortostática
  • Via nigroestriatal: manifestações extra-piramidais
  • Via tuberoinfundibular: galactorreia, amenorreia, redução da libido, desmineralização óssea
  • Redução do limitar convulsivo, sobretudo a clorpromazina
  • Síndrome neuroléptica maligna (complicação comum – 2%, fatal até 20%): reação idossincrática ao uso de psicóticos, principalmente haldol. Caracterizada por hipertermia refratária a antipiréticas, alterações de consciência + rigidez muscular extrema (pode gerar rabdomiólise). Alguma casos graves necessitam de terapia intensiva. A primeira conduta é suspender o medicamento. Está relacionada ao bloqueio de D2 na via nigroestriatal.  

Alta incidência de tabagismo e uso abuso de drogas ilícitas na esquizofrenia

O núcleo accumbens e é considerado o “centro do prazer” e faz parte do sistema de recompensa do cérebro. Acredita-se que ele é a via final comum de toda a recompensa (até mesmo por uso de drogas) e esforço.

Com o bloqueio de D2, há também um bloqueio desse mecanismo de recompensa, mimetizando os sintomas negativos da esquizofrenia:

  • Apatia
  • Anedonia
  • Falta de motivação
  • Interesse
  • Alegria
  • Interações sociais.

Isso pode explicar a alta incidência de tabagismo e uso abuso de drogas ilícitas na esquizofrenia.

Mecanismo de ação dos antipsicóticos atípicos

Os antipsicóticos atípicos tem propriedades iguais de reduzir sintomas positivos, porém causam menos sintomas extra-piramidais (SEP) e hiperprolactinemia.

Apresentam um mecanismo de ação diferente dos antipsicóticos típicos pois atuam bloqueando o receptor da serotonina (receptor 5HT2A). Isso proporciona o aumento da dopamina, que vai competir em outras áreas com os antagonistas dos receptores D2, o que pode proporcionar redução dos efeitos colaterais.

Então, existem 2 formas de redução dos efeitos colaterais, aumentar a dopamina para competir com os bloqueadores, ou bloquear os receptores M1 (fenegan). Além de bloquearem o receptor 5HT2A, também fazem um bloqueio parcial de D2 e agonismo parcial 5HT1A.       

  • Bloqueio D2: bloqueia dopamina
  • Bloqueio 5HT2A: estimula a liberação de dopamina. O bloqueio de serotonina não gera depressão nesse caso.

Na via mesocortical, a maior densidade de receptores 5HT2A é maior. Com isso, há uma melhora dos sintomas negativos. Na via mesocortical, não existem muitos receptores 5HT2A, então não pioram os sintomas negativos. Na prática, o tamanho do efeito da ação nos sintomas negativos não é tão significativo, mas é melhor que os de 1ª geração.

Principais antipsicóticos atípicos e efeitos colaterais

Dentre os principais medicamentos antipsicóticos atípicos é possível citar:

  • Esperidona: em doses altas pode gerar efeitos extra-piramidais com haloperidol. Ela também eleva a prolactina, apesar de ser um atípico. Relacionada também ao ganho ponderal, bloqueio alfa periférico. Depósito de 15 dias
  • Paliperidona: apresenta formações de depósito de 30 dias e recém-chegado no Brasil de 3 meses
  • Lurasodona: recém-chegada no Brasil. Boas evidencias na depressão no transtorno bipolar
  • Ziprazidona: menor ganho de peso, menos efeitos na prolactina. Pouco acessível no Brasil
  • Aipiprazol: não bloqueia D2. Está menos relacionada a sintomas extra-piramidais. Menor ganho de peso
  • Olanzapina: estabilizadora do humor, pode ser utilizada na depressão. Apresenta um impacto metabólico importante: aumento da glicemia, TG, ganho de peso. Apresenta efeito D2
  • Quetiapina: antipsicótico em doses mais altas.
Tabela com principais medicamentos e efeitos colaterais.

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Referência bibliográfica

  • Correll CU, Rubio JM, Inczedy-Farkas G, et al: Efficacy of 42 pharmacologic cotreatment strategies added to antipsychotic monotherapy in schizophrenia: Systematic overview and quality appraisal of the meta-analytic evidence. JAMA Psychiatry 74(7):675-684, 2017. doi: 10.1001/jamapsychiatry. 2017.0624

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