Residência Médica

CREMESP: mais de 40% sofrem assédio moral na residência médica

CREMESP: mais de 40% sofrem assédio moral na residência médica

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Sanar

7 min há 62 dias

A jornada de residência médica não se encerra com a aprovação. Após anos de preparação, dedicação e estudos, o médico residente aprende na prática a especialidade que escolheu. Mas essa etapa, que muitos estudantes de Medicina sonham todos os anos, pode esbarrar em muitas dificuldades fora do âmbito profissional. Para muitos e muitas, o assédio moral no ambiente de trabalho ainda é uma realidade. E dentro e fora da Medicina, essa prática de abuso e pressão dos profissionais precisa ser discutida e, principalmente, combatida.

De acordo com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP), divulgado pelo jornal da Record, quase 42% dos médicos residentes afirmam ter sofrido assédio. Além disso, nos últimos três anos, o Cremesp recebeu 12 denúncias de situações abusivas entre colegas e até chefes.


O assédio nas residências médicas pode se esconder atrás de diferenças na hierarquia, tempo de experiência, idade e até mesmo críticas a características físicas e psicológicas do residente. Muitas vezes, a vítima não percebe no momento que está sendo assediada. Por isso, é importante aprender a identificar sinais e evidências para agir nessas situações.

Assédio na residência médica: o que dizem os estudos

Nos últimos anos, diversos estudos e pesquisas têm se debruçado sobre o tema do assédio moral nas residências médicas. O objetivo é identificar, apontar padrões e diferenças do assédio moral contra residentes.

Em 2012, no artigo “Assédio Moral nas Residências Médica e Não Médica de um Hospital de Ensino“, os autores constataram que 41,9% dos entrevistados já haviam sofrido assédio. O artigo foi divulgado na Revista Brasileira de Educação Médica.

A pesquisa, com 105 residentes, mostrou que o assédio é mais frequente em menores de 28 anos (46,3%), mulheres (45,8%) e residentes do segundo ano (47,7%). 

O artigo também avaliou os principais assediadores, como os responsáveis pela preceptoria, e as consequências do assédio na vida das vítimas. As mulheres relataram que a maior parte das sequelas (58,5%) foram de origem psíquica. 

Em 2019, o CREMESP lançou o livro “Assédio Moral na Formação Médica: conscientizar para combater“.  A obra trouxe dados sobre a ocorrência de assédio durante a formação médica. O livro também traz orientações sobre como detectar e denunciar esses casos. 

De acordo com o livro, a maioria dos estudantes de medicina e médicos residentes sofreram com o assédio em alguma parte da sua formação. O estudo, que cruzou dados de diversas pesquisas internacionais, apontou uma prevalência de 59,4% de assédio durante a formação médica. E a maior taxa de prevalência é entre os residentes: 63,4% relatam assédio nessa etapa de formação. A discriminação de gênero tem sido, até aqui, a principal modalidade de assédio nessa etapa de formação.

A médica Julie A. Freischlag, da Faculdade de Medicina de Wake Foreste (EUA), também discutiu o tema no artigo “Uma consequência do movimento #metoo“. O material foi divulgado na Jama (Journal of American Medical), em 2018.


Políticas [contra discriminação e assédio] nem sempre são colocadas em prática e incidentes nem sempre são relatados por medo de retaliação.”

Julie A. Freischlag

A revista apresentou uma pesquisa feita com 14.405 formandos em medicina dos Estados Unidos. Em que, deste total, 33% relatou ter ouvido comentários sexistas, racistas ou com outras ofensas. Eles também contaram que receberam notas baixas, recusas a treinamentos ou a prêmios. Sexo, identidade de gênero, orientação sexual, raça ou etnia são apontados como os principais fatores.

O assédio moral na medicina motivou para a formação de coletivos em instituições de ensino, como o Alzira Reis da UFMG. Em 2018, a organização ganhou destaque após coletar mais de 100 denúncias de assédio em apenas seis dias.

O que é assédio moral? 

Assédio moral é “qualquer conduta abusiva que, intencional e frequentemente, fira a dignidade e a integridade física ou psíquica de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho”. Pode ser cometido por colegas de trabalho ou superiores. 

Com base na Cartilha de Prevenção ao Assédio Moral do Tribunal Superior do Trabalho (TST), existem alguns critérios para identificar se a conduta de um profissional configura assédio moral.

Uma conduta agressiva pode ser: 

  •  acusação de um erro grave sem provas
  •  xingamentos e apelidos com intenção de humilhar
  • atribuição de tarefas impossíveis de serem cumpridas com base na capacidade técnica da pessoa
  •  ameaças constantes de demissão
  •  tentativas de prejudicar o trabalho do outro (instruções erradas ou incompletas); 
  •  exposição da vida privada em tom de “zombaria” ou pejorativa. 

Observação: essas situações não precisam acontecer em público para que sejam consideradas assédio e os devidos responsáveis serem punidos.

Segundo o Código de Ética Médica,  “as relações do médico com os demais profissionais devem basear-se no respeito mútuo, na liberdade e na independência de cada um, buscando sempre o interesse e o bem-estar do paciente”. 

Os princípios do código ainda reforçam a responsabilidade de que “o médico terá, para com os colegas, respeito, consideração e solidariedade, sem se eximir de denunciar atos que contrariem os postulados éticos”. 

Os efeitos do assédio moral no trabalho e na saúde

As situações agressivas e de abuso podem afetar diretamente a rotina do residente. As consequências incluem dificuldades de desempenhar as atividades do programa e erros profissionais. A recorrência pode afetar a saúde do médico residente, principalmente a mental.

O assédio moral pode ser um propulsor para o desenvolvimento de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), transtorno e Síndrome do Pânico, fobia social, síndrome de burnout, entre outros. Ao perceber a ocorrência de sintomas, a principal orientação é procurar ajuda especializada para entender a situação e iniciar o tratamento. 

Como denunciar o assédio moral na residência médica?

Diante de uma situação de assédio moral contra residentes, é importante que a vítima procure sua rede de apoio e avaliação no ciclo de residência: o seu preceptor, o coordenador do programa de especialidade ou o coordenador do programa de residência da unidade, com base no nível em que a irregularidade aconteceu.

Caso a denúncia interna não seja possível, o médico residente tem outras instâncias superiores às quais recorrer:

  • Comissão de Residência Médica (Coreme).
  • Comissão Estadual de Residência Médica (Cerem).
  • Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM).
  • Conselho Regional de Medicina (CRM).
  • Conselho Federal de Medicina (CFM).
  • Ação judicial.

Cada órgão tem suas particularidades quanto a como realizar denúncias. Mas é importante reunir o histórico dos fatos, os nomes dos profissionais e instituições envolvidos, a data e o local do ocorrido.

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