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Gastroparesia: o que e, epidemiologia e muito mais!

Gastroparesia: o que e, epidemiologia e muito mais!

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Você conhece a Gastroparesia? Construímos um artigo completo sobre o assunto para você tirar todas as suas dúvidas! Boa leitura.

Introdução Gastroparesia

A função motora gastrointestinal normal depende de uma série complexa de eventos que requer coordenação do sistema nervoso simpático e parassimpático, neurônios, além das células marca-passo no estômago e intestino (chamadas de células intersticiais de Cajal) e células musculares lisas do trato gastrointestinal. Anormalidades neste processo podem levar a um atraso no esvaziamento gástrico (estase gástrica).

Fisiologia do Esvaziamento Gástrico

Considerando suas funções motoras estomacais, o estômago pode ser dividido em três segmentos de padrões motores distintos: região proximal do estômago, região distal do estômago e piloro. A ação conjunta desses segmentos permite que ocorra um esvaziamento gástrico adequado e ordenado.

Estômago proximal

A região proximal, que compreende o fundo e a porção proximal do corpo gástrico, desempenha a função de reservatório, apresentando características motoras peculiares que lhe permitem exercer essa função. A principal característica motora da região proximal é apresentar relaxamento expressivo do seu tônus em resposta ao estímulo fisiológico.

Este relaxamento ocorre quando há uma deglutição (relaxamento receptivo e progressivo), a medida que o estômago se distende pelo alimento ingerido (relaxamento adaptativo). Esse processo – acomodação à distensão – permite que o estômago receba até 2 L de conteúdo com aumento de pressão intragástrica de menos de 10 mmHg. Isso se deve a um reflexo neural mediado pelo nervo vago.

Após o relaxamento inicial, a região proximal progressivamente aumenta novamente o seu tônus. A região proximal não apresenta contrações peristálticas, mas contrações tônicas lentas. Essas contrações tônicas atuam no sentido de propelir o conteúdo intragástrico para o antro. Essa transferência é feita de maneira seletiva, considerando a natureza do alimento ingerido.

O componente líquido é deslocado rapidamente, alcançando o antro, enquanto o componente sólido é retido por mais tempo no fundo gástrico e, progressivamente, será transferido para o antro. Desse modo, o esvaziamento gástrico do componente líquido da refeição é mais rápido que o do sólido.

Região distal do estômago

A região distal do estômago desempenha, sobretudo, as funções de digestão mecânica: fragmentação e homogeneização das partículas sólidas ingeridas e o esvaziamento do conteúdo gástrico de maneira ordenada e controlada.

A região distal apresenta caracteristicamente contrações peristálticas que se iniciam em forma de anel e progridem circularmente do corpo para a junção antroduodenal, com aumento da velocidade de progressão no sentido aboral, a um ritmo máximo de três contrações por minuto.

Imagem ilustrativa da Divisão funcional do estômago, considerando a função motora e o esvaziamento gástrico.

Imagem: Divisão funcional do estômago, considerando a função motora e o esvaziamento gástrico. Fonte: Zaterka (2016).

A relação entre a contração antral e o fluxo do conteúdo intragástrico compreende três fases sequenciais, a medida que a onda de contração percorre o estômago. Estas fases são: propulsão, retropulsão e evacuação; e retropulsão acentuada.

A primeira fase (propulsão) inicia-se quando a onda de contração se move do corpo para o antro proximal, fazendo com que o quimo se mova para o antro terminal. A medida que a onda de contração alcança o meio do antro, o piloro ainda se encontra relaxado, permitindo um fluxo de quimo gástrico para o duodeno, caracterizando a evacuação. Durante essa fase, simultaneamente, há retropulsão do conteúdo para o antro proximal (evacuação + retropulsão).

A magnitude do movimento nas duas direções depende da profundidade da constrição antral e do grau de relaxamento pilórico. Uma contração antral vigorosa aumenta sua força propulsora, ao passo que uma constrição pequena ocasiona uma maior retropulsão através do orifício central do anel de contração.

Uma abertura maior do piloro diminui a resistência ao fluxo e acelera o esvaziamento gástrico. As contrações do antro terminal e do segmento pilórico ocorrem quase que simultaneamente. Disso, resulta obstrução do lúmen e, em consequência, há acentuada retropulsão do conteúdo. O aumento da pressão intraluminal gerado nesse momento resulta em fragmentação e homogeneização de partículas sólidas que não foram evacuadas.

Desse modo, as contrações antrais são essenciais para um adequado esvaziamento de uma refeição sólida. O esvaziamento gástrico ocorre por jatos de fluxo intermitente, resultantes de contrações coordenadas do segmento antro-piloro-duodenal, ocorrendo continuamente no período pós-prandial.

Contrações pilóricas

O piloro apresenta contrações tônicas e variações fásicas de pressão. Essas contrações podem ocorrer em sequência à contração antral ou ocorrer isoladamente. As contrações pilóricas isoladas demonstram que o piloro desempenha um papel importante na resistência ao fluxo do conteúdo intragástrico.

A frequência de contrações isoladas do piloro varia, sendo maior em presença de lipídios no duodeno. As partículas sólidas digeríveis são evacuadas do estômago com tamanho inferior a 2 mm, sendo a contratilidade do segmento pilórico responsável pela seletividade do tamanho das partículas.

A atividade contrátil é uma expressão mecânica de fenômenos elétricos que ocorrem na musculatura lisa da região gastroduodenal. Os diferentes comportamentos motores descritos anteriormente podem ser explicados pela diferença no comportamento dos potenciais transmembrana das diversas regiões do estômago.

As células da região proximal do estômago não apresentam flutuações espontâneas no seu potencial de repouso. Mudanças nesse potencial podem ser induzidas, seja hiperpolarização ou despolarização, por meio de estímulos neurais ou humorais. Como a musculatura dessa região apresenta tônus espontâneo, isso indica que o potencial transmembrana de repouso está acima do limiar de contração.

Por outro lado, as células musculares lisas do corpo e do antro apresentam flutuações do potencial transmembrana. Esse conjunto de variações cíclicas no potencial transmembrana é referida como slow wave (onda lenta); também recebe as denominações de ritmo elétrico de base (REB), potencial de marca-passo e atividade elétrica de controle.

A onda lenta inicia-se em uma área no terço médio do corpo gástrico na grande curvatura e se propaga circunferencial e longitudinalmente em direção ao piloro, com velocidade crescente, a uma frequência de três contrações/minuto no homem.

Estudos de ressecções gástricas parciais demonstram que essa área atua como marca-passo por apresentar maior frequência desse potencial, ditando o ritmo para todo o estômago. Essa atividade elétrica é contínua, estando presente mesmo na ausência de atividade motora. A origem desse potencial ocorre na rede de células intersticiais de Cajal, daí se propagando para toda a musculatura lisa.

A Gastroparesia

A gastroparesia é uma síndrome decorrente do esvaziamento gástrico lentificado de sólidos na ausência de obstrução mecânica. Se apresenta com os sintomas cardinais de náusea, vômito, saciedade precoce, eructação (arroto) e distensão e/ou dor abdominal em andar superior.

Epidemiologia da Gastroparesia

Em um dos maiores estudos populacionais que identificou 3604 casos potenciais de gastroparesia, dos quais 83 preencheram os critérios diagnósticos da síndrome, a incidência de gastroparesia ajustada por idade foi de 2,4 por 100.000 pessoas-ano para homens e 9,8 por 100.000 pessoas-ano para mulheres.

A prevalência ajustada para idade foi de 9,6 por 100.000 pessoas para homens e 38 por 100.000 pessoas para mulheres. A sobrevida global foi significativamente menor do que na população geral pareada por idade e sexo.

Etiologias e Fisiopatologia da Gastroparesia

Qualquer processo que gere uma perda da força contrátil da musculatura gástrica ou interfira na sua coordenação pode resultar em uma gastroparesia.

Assim, diversas condições clínicas em que haja comprometimento da musculatura gástrica ou da integridade da rede de células intersticiais de Cajal, bem como da inervação intrínseca ou da autonômica, podem estar associadas ao desenvolvimento de gastroparesia.

Estes acometimentos geram as alterações fisiopatológicas na gastroparesia: distúrbios do ritmo elétrico gástrico (disritmias gástricas), hipomotilidade antral, alterações do tônus gástrico e da acomodação à distensão do fundo gástrico, espasmos pilóricos, dismotilidade do intestino delgado, etc.

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