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Médicos do futuro: as novas tecnologias excluem as velhas habilidades? | Colunistas

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Letícia Vieira

8 minhá 461 dias

As tecnologias tem se mostrado presente em muitos contextos, inclusive quando se trata da relação médico-paciente. Nos consultórios, clínicas e hospitais muito se tem percebido em relação a mudança da postura dos pacientes, pois graças ao acesso à internet eles tem conseguido aprender mais sobre doenças, tratamentos e práticas saudáveis. Assim, ignorando-se os contras dessa prática, observa-se que os pacientes se tornam mais ativos em suas decisões de saúde graças, sobretudo, à inclusão digital.

O modo como pacientes lidam com internet e dúvidas sobre prós e contras, consulte a fonte: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20364:o-paciente-e-a-internet&catid=46:artigos&Itemid=18

E os médicos? Como eles tem sido afetados pela tecnologia?

Os profissionais de saúde tem observado maior nível de acertos diagnósticos devido a, por exemplo, ultrassom point-of-care utilizado na emergência, ou ainda, à melhoria dos exames de imagem ao longo das décadas. Além disso, a genética tem auxiliado a prever doenças familiares e aos poucos, decisões individuadas são pensadas para evitar doenças que antes seriam inevitáveis.  

A existência de prontuários eletrônicos torna mais segura a passagem da informação entre profissionais sem que haja extravio, assim como, os dados científicos ao alcance da mão elevam o uso da Medicina Baseada em Evidência, fazendo com que os tratamentos sejam cada vez mais eficazes e em caso de dúvidas é só consultar um bulário online.

                Qualquer pessoa pode ter acesso aos recursos supracitados, é só estar disposto a pagar alguns dólares ou saber como encontrar isso na internet… Além disso, observa-se também que a existência da “Big Data”, um grande sistema de cruzamento de dados clínicos-diagnósticos e terapêuticos, vai facilitar ainda mais o diagnóstico e o tratamento das doenças…

Quer ler uma breve explicação de tudo isso? Consulte: https://blog.iclinic.com.br/o-poder-da-tecnologia-aplicada-a-saude/

Não só o médico poderá fazer isso então? Como vai funcionar? Essas perguntas são mais importantes do que a resposta em si, e aquela que não quer calar é: Os médicos vão ser substituídos por robôs? Neste caso, podemos considerar um…Depende?

Por que os médicos seriam (ou não) substituídos?

Para tentarmos entender esta questão precisamos inicialmente elencar, qual é o papel do médico?

Segundo a Wikipédia, médico é aquele que “se ocupa da saúde humana, prevenindo, diagnosticando, tratando e curando as doenças”. Neste ponto, pode-se observar o aspecto puramente técnico de ser médico, aquele que valoriza as disciplinas acadêmicas como o pilar principal da profissão. É aquele que diagnostica e trata, fazendo estes processos com maestria.

Isso é de fato valorizado pelo paciente, um médico confiante e competente em que eles podem confiar para recuperar sua saúde, mas se ser médico for apenas um processo lógico, ligado ao uso da memória e raciocínio de disciplinas do currículo acadêmico, então sim, a tecnologia conseguirá fazer isso tão bem -ou até melhor- que os humanos.

Para tentar exemplificar de forma mais clara, que a conjuntura atual não aceita mais médicos puramente acadêmicos, um estudo publicado em 2017 trouxe os pontos mais citados por pacientes quando pensavam em algo que admiravam em médicos, dentre eles estavam:

Fonte: Sarris et al. O Papel Do Médico Na Visão Da Sociedade Do Século XXI: O Que Realmente Importa Ao Paciente? Visão Acadêmica, Curitiba, v.18 n.1, Jan. – Mar./2017.

                Cabe aos ombros dos médicos atuais e futuros responsabilidades ainda maiores do que conhecer apenas o lado acadêmico da arte da medicina, exercitando sobretudo uma velha conhecida, estudada desde meados de 1992, que vem sendo muito aclamada nas redes sociais e em certos discursos: A Empatia.

                A empatia, dentre outras habilidades, pode ser desenvolvida ao longo do tempo, basta haver profundo interesse em aprender e pratica-la. Deve ser sempre lembrada como outro pilar que sustenta a medicina, pois seu uso faz com que uma relação médico-paciente se estabeleça de forma genuína.

                Esta habilidade não substitui ou minimiza as habilidades acadêmicas, mas se torna o diferencial entre um bom médico e um bom “técnico em medicina”. Isso porque a compreensão da importância dela, faz com que o profissional compreenda os sentimentos gerados pela doença naquele indivíduo, bem como tem a capacidade de reduzir as mazelas e aumentar os bons sentimentos, fazendo com que o paciente possa ser tratado de forma integral.

Mas o que é empatia?

                A depender do autor, a empatia pode ter diversos significados objetivos, entretanto todos sugerem um sentimento ou processo psicológico que tem como gatilho a experiência do outro, e gera uma sensibilização que leva a formação de mecanismos cognitivos, afetivos e comportamentais para tentar reduzir o sofrimento do outro. Em outras palavras “curar ocasionalmente, aliviar frequentemente, consolar sempre”.

                É tida como uma habilidade de suma importância dentre profissionais de saúde, não só relacionado aos pacientes, mas também deve ser utilizada com outros profissionais e até consigo mesmo, visando evitar consequências como o Burnout.

                Com o uso adequado, ela tem a capacidade de aumentar a profundidade das relações médico-paciente, aumentando a satisfação, a fidelização, a confiança e a segurança reduzindo sentimentos de angústia, depressão e ansiedade em pacientes e, sobretudo, no próprio médico que passa a sentir que conseguiu realizar um bom trabalho com aquela pessoa, tendo um importante e motivador retorno pessoal.

Que tal ler um estudo sobre empatia, relação médico-paciente e Formação em Medicina? Aqui: http://www.scielo.br/pdf/rbem/v34n2/a10v34n2.pdf

Mas não há modulo de empatia nas escolas médicas… O que fazer?

                Não, realmente não há um módulo específico para aquisição de habilidades como esta, o que configurariam habilidades de currículo oculto, mas tem-se módulos para ensinar a utilizar programas de imagem, em alguns lugares tem-se centros de pesquisa em genética, mas pouco se pratica e se estuda sobre a empatia, ambos deveriam ter igual espaço na carga horária, mas vamos lá…

                Minha recomendação pessoal seria procurar um professor que admire no contexto de trato com o paciente e observar como ele atende, preste atenção nas técnicas. Além disso, leia sobre técnicas de comunicação verbal, sobretudo preste atenção na comunicação clínica proposta por Cohen-Cole, e não verbal e tente aplica-las no dia-a-dia, por mais corrido que pareça, proponha-se a isso. Muitos acreditavam que empatia não pudesse ser ensinada, mas através da prática atenta, eu acredito que há salvação para qualquer um.

Por fim, vamos ser substituídos por robôs?

                Faço minhas as palavras de meu professor: “Os robôs podem até evoluir, mas eles nunca vão chegar nem perto do que é o olho no olho”. O contato humano-humano é parte integrante e importante da empatia, fomos criados e feitos para sobreviver como um grupo e mesmo que um dia os robôs se pareçam muito com os humanos, o nosso tato sempre será diferente. É disso que devemos nos lembrar, medicina é a arte de cuidar do outro e isso quer dizer cuidar de forma integral, por menos tempo que tenhamos na consulta, por mais que estejamos atarefados, sempre dá pra ser a melhor coisa que aconteceu no pior dia de alguém.

Já ouviu falar em Medicina Baseada em Empatia? Confira: https://www.slowmedicine.com.br/medicina-baseada-em-empatia-vendo-atraves-do-olhar-do-outro/

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