Ciclo Clínico

O papel do exame protoparasitológico de fezes na atualidade | Colunistas

O papel do exame protoparasitológico de fezes na atualidade | Colunistas

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Gabriela Sartori

5 minhá 162 dias

As verminoses intestinais fizeram parte da vida da maioria das pessoas até pouco tempo atrás, sobretudo para a população rural. Era quase regra as crianças desenvolverem ascaridíase pelo menos uma vez na vida. Esse tipo de doença é rodeada de mitos e superstições, tanto que até na literatura brasileira elas são presentes, a exemplo do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, que tinha ancilostomose. A frequência tão alta dessas doenças veio da falta de saneamento e higiene em que viviam essas populações, porém, ainda hoje mesmo com a melhora das condições de vida, estima-se que ¼ da população mundial possua alguma verminose. Atualmente a imunologia estuda muito sobre modulação da microbiota intestinal e transplante fecal, tamanha a importância da qualidade das fezes na nossa saúde. As evidências mostram que esses tratamentos podem mudar o rumo de inúmeras doenças gastrintestinais e autoimunes graves, como Crohn e retocolite ulcerativa.

Para analisar as fezes, existem diversos tipos de exames e técnicas, cada uma com sua finalidade dentro da investigação diagnóstica do paciente. Por exemplo: ao solicitar uma pesquisa de sangue oculto nas fezes, o médico está guiando seu raciocínio clínico para um provável sangramento gastrintestinal não visto a olho nu. Por outro lado, quando solicitado uma coprocultura, o médico aponta seu raciocínio na direção de infecções bacterianas. Podemos também analisar a presença de gordura nas fezes, presença de rotavírus e assim por diante.

Neste artigo, abordaremos especificamente o exame protoparasitológico de fezes, também chamado de parasitológico. Esse exame é um dos mais pedidos quando a suspeita é verminose intestinal.

Em primeiro lugar, é importante dizer que alguns médicos optam por não solicitar o protoparasitológico de fezes e fazer a chamada desparasitação periódica, que consiste em tratar/prevenir empiricamente, com fármacos, uma vez ao ano para escolares de regiões cuja prevalência de verminoses é menor que 20%, e duas vezes ao ano para escolares de regiões cuja prevalência fica entre 20 e 50%, pois representa população de risco. Essa prática não é inadequada, já que as verminoses são previsíveis e dificilmente atingem um nível de prognóstico ruim para o paciente. Portanto, não pedir o exame, sobretudo quando falamos de SUS, é pegar um atalho na conduta desse tipo de doença, evitando gastos com exames e fazendo a prevenção anual de uma só vez.

Entretanto, o exame protoparasitológico de fezes ainda é importante no Brasil, já que somos um país em desenvolvimento e ainda temos inúmeras regiões sem saneamento básico, condições sub-humanas de moradia, que nos obrigam a investigar verminose, obtendo resultados positivos com frequência. Além disso, parasitoses não tratadas podem levar a deficiência no crescimento e desenvolvimento das crianças, e a saúde das crianças é um marcador muito relevante para o país. Os dados epidemiológicos dos exames de fezes podem guiar também os estudos para melhoria de saneamento básico, sobretudo o tratamento da água.

Um adendo importante é que a avaliação do paciente nunca se resume somente aos exames laboratoriais. É necessário que se faça uma boa anamnese e exame físico sempre, pois muitos parasitas possuem ciclos em outros órgãos do corpo humano além do intestino e podem passar despercebidos se a qualidade da consulta não for boa. Pelo mesmo motivo, é relevante incluir as verminoses nos diagnósticos diferenciais.

A finalidade do exame protoparasitológico de fezes é a pesquisa de tipos específicos de vermes intestinais, são eles: os helmintos (platelmintos e nematelmintos) e protozoários.

Os nematelmintos são vermes de corpo cilíndrico. São exemplos desse grupo o Ascaris lumbricoides, famosa lombriga, Ancylostoma duodenale ou Necator americanus, conhecido popularmente como amarelão, a Wuchereria bancrofti, causadora da elefantíase e o Enterobius vermiculares, causador de uma das parasitoses mais comuns na infância: a oxiuríase.

Os platelmintos são vermes de corpo achatado. Os exemplares mais conhecidos desse filo são o Schistosoma Mansoni, agente etiológico da esquistossomose, as Taenia Solium e Taenia Saginata, conhecidas como solitárias, que são causadoras da teníase, mas seus ovos podem também causar uma doença muito grave chamada cisticercose, em que os ovos se alojam no sistema nervoso central.

Os protozoários incluem seres como Entamoeba histolytica (amebíase), Tripanossoma cruzi (Doença de Chagas), Leishmania brasiliensis (leishmaniose), Giardia lamblia (Giardíase) e Plasmodium sp (malária).

Para continuar sua propagação pelo ambiente, esses vermes costumam eliminar uma quantidade grandiosa de ovos, trofozoítos e larvas que saem nas fezes do indivíduo contaminado. São esses elementos que o examinador, durante o exame protoparasitológico de fezes vai pesquisar no material fecal. Existem vários métodos para pesquisa desses, como o método de Faust (centrífugo-flutuação em sulfato de zinco) e o método de Hoffmann (sedimentação espontânea).

São colhidas 3 amostras de fezes, de preferência em dias alternados, para que a possibilidade de falso negativo diminua. É de extrema importância que a colheita do material seja feita de forma adequada, ou seja: direto do canal anal, sem entrar em contato com urina nem com a água do vaso sanitário. Necessita-se aproximadamente 1/3 do volume do recipiente contendo o material biológico. Essas fezes são conservadas e podem ser analisadas todas juntas dentro de 7 dias.

Os resultados são divulgados com os tipos de vermes (helmintos, protozoários) visualizados ou não. Portanto, quando o médico tem acesso ao resultado, já se sabe que a parasitose é positiva e a qual filo aquele verme pertence, para que o tratamento seja mais direcionado. A frequência para realização do exame depende muito do paciente, mas geralmente é recomendado anualmente, junto aos exames de rotina.

O tratamento é feito por meio de fármacos antiparasitários de administração oral, disponíveis no SUS e que tem eficácia e segurança muito elevadas. Porém, doses e tempo de administração podem variar de um verme para o outro e por isso, para um tratamento mais assertivo o exame protoparasitológico é importante.

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