Infectologia

Resumo de Ascaridíase: epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e profilaxia

Resumo de Ascaridíase: epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e profilaxia

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9 minanteontem

Definição

Ascaridíase é a denominação da doença causada pelo parasita Ascaris lumbricoides. Trata-se do maior nematódeo intestinal que parasita o intestino humano, de formato cilíndrico, medindo cerca de 20 a 40 cm quando adulto, sendo a fêmea maior e mais robusta que o macho. É uma das infecções humanas helmínticas mais comuns em todo o mundo. Existe ainda o Ascaris suum, que concerne de um parasita intestinal de suínos que possui grande semelhança genética com o A. lumbricoides e também pode causar infecção humana. 

Imagem mostra diferença no tamanho entre a fêmea (esquerda) de Ascaris lumbricoides e do macho (direita).

A transmissão da ascaridíase ocorre principalmente pela ingestão de solo, água ou alimentos contaminados com ovos de Ascaris. Um dos fatores que contribuem para a disseminação dessa infecção é o hábito de utilizar fezes como fertilizantes, a ausência de saneamento básico adequado e higiene inadequada.

Epidemiologia da Ascaridíase

A infecção por Ascaris lumbricoides ocorre em quase todos os países, entretanto acontece com frequência variada devido às condições ambientais, climáticas e também do nível sócio-econômico. Estima-se que essa parasitose atinja cerca de um quarto da população mundial e é provavelmente a helmintíase mais comum no homem. É mais comum na Ásia, África e América Latina, principalmente em regiões muito povoadas e com baixas condições de saneamento básico. A ascaridíase é mais comum entre crianças de 2 a 10 anos de idade, e a prevalência da infecção diminui entre indivíduos com mais de 15 anos de idade. 

A infecção por Ascaris devido a A. suum tem sido identificada em regiões onde há criação de suínos e o uso de fezes desses animais como fertilizantes. Os porcos, por sua vez, geralmente são infectados ao comer ovos eliminados por outros porcos, mas ocasionalmente podem ser infectados após a ingestão de fígados e pulmões de galinhas infectadas com Ascaris de origem suína.

Fisiopatologia

Para entender a fisiopatologia da doença, é necessário entender o ciclo de vida deste parasita. Os ovos de Ascaris eliminados nas fezes são depositados no solo, onde embrionam e se tornam infectantes em duas a quatro semanas. Após a ingestão oral de ovos infecciosos de Ascaris (por meio do solo, de alimentos ou água contaminados), os ovos eclodem no intestino delgado do hospedeiro em quatro dias e liberam suas larvas, que migram através da mucosa intestinal. Posteriormente, algumas larvas penetram na parede intestinal e são transportadas por via hematogênica através do sistema porta para o fígado. Essas larvas seguem em caminho ascendente e, através das veias hepáticas, chegam ao coração e seguem para os pulmões. Esse fluxo percorrido é necessário pois as larvas só amadurecem nos alvéolos, num tempo médio de 10 a 14 dias. A partir de então, as larvas já maduras seguem pela árvore brônquica até a traquéia, onde causam o reflexo da tosse e são engolidas. Em alguns casos, essas larvas podem migrar para outros locais, como o cérebro ou os rins.

Uma vez de volta ao intestino, as larvas amadurecem em vermes adultos (fêmeas de 20 a 35 cm; machos de 15 a 30 cm) no lúmen do intestino delgado, mais especificamente no jejuno, que é onde a maioria dos vermes estão localizados – mas podem ser encontrados qualquer parte do trato gastrointestinal (TGI). Para que a produção dos ovos ocorram, é necessário que haja a infecção de, pelo menos, uma verme fêmea e um verme macho. Na presença apenas de vermes fêmeas, os ovos produzidos são inferteis e não evoluem para a fase infecciona. Se apenas machos estiverem no TGI, nenhum ovo é formado. Os ovos começam a ser produzidos em aproximadamente 9 a 11 semanas, e cada fêmea é capaz de produzir 200.000 ovos fertilizados por dia. 

Ciclo de vida da Ascaris lumbricoides. Fonte: © 2021 UpToDate, Inc.

Vale ressaltar que os vermes adultos não se multiplicam no hospedeiro humano. Seu número em um indivíduo infectado depende da exposição e da ingestão de ovos infectados. Outro ponto importante é que a fase de transmissão da doença inclui todo o período que o indivíduo for portador do A. lumbricoides e estiver eliminando seus ovos pelas fezes.

Ovo de Ascaris lumbricoides.

Quadro clínico da Ascaridíase

A maioria dos pacientes com infecção por A. lumbricoides são assintomáticos. Os sintomas aparecem, normalmente, em individuos com cargas altas de parasitas e são mais frequentes durante o estágio intestinal do verme adulto na fase tardia, mas podem ocorrer durante o periodo de migração da fase inicial, principalmente com as manifestações pulmonares.

As  complicações da ascaridíase incluem obstrução intestinal devido ao grande número de vermes, desnutrição, envolvimento hepatobiliar, que pode cursar com hepatomegalia, pancreatite. A urticária ocorre durante os primeiros cinco dias da doença em cerca de 15 por cento dos casos.

Em virtude do ciclo pulmonar da larva, alguns pacientes apresentam manifestações pulmonares com tosse seca, dispneia, respiração ofegante, desconforto subesternal, broncoespasmo, hemoptise e pneumonite, caracterizando a síndrome de Löefler, que cursa com eosinofilia importante – mas é autolimitada. Mais da metade dos pacientes apresenta estertores crepitantes e sibilos na ausência de consolidação focal. 

Diagnóstico de Ascaridíase

O diagnóstico de ascaridíase pode ocorrer por meio da visualização de larvas de Ascaris em secreções respiratórias ou aspirados gástricos, embora isso raramente seja possível. Por isso, dificilmente o reconhecimento se dará sem a necessidade de exames complementares.

Parasitológico de Fezes – O quadro clínico da Ascaridíase não a distingue de outras verminoses, motivo pelo qual seu diagnóstico só é confirmado através do achado de ovos do parasito nos exames parasitológicos de fezes. Como esses ovos são eliminados diariamente e são facilmente identificados, não há necessidade de nenhum método de exame específico, podendo utilizar as técnicas de sedimentação espontânea, sedimentação por Centrifugação,  Kato-Katz e FLOTAC.

Vale ressaltar que os ovos não estão presentes nas fezes até pelo menos 40 dias após a infecção; e por esse motivo não há condições de realizar um diagnóstico precoce por meio de microscopia de fezes, inclusive durante a fase de sintomas respiratórios. Além disso, nenhum ovo estará presente nas fezes se a infecção for causada apenas por vermes machos. 

Achados de imagem  – A  radiografia simples do abdômen pode demonstrar grandes coleções de vermes Ascaris adultos em indivíduos fortemente infectados, principalmente em crianças. A massa de vermes contrasta com o gás no intestino, produzindo um efeito de “redemoinho”.

A radiografia revelou evidência de alça intestinal dilatada com múltiplas estruturas ecogênicas paralelas (vermes agregados). Fonte: © 2021 UpToDate, Inc.

Exames Laboratoriais: não são satisfatórios e não podem dispensar a coproscopia. Suas indicações estão restritas às fases de migração larvária, nas infecções só por machos, ou quando, por outras razões, o exame de fezes não for conclusivo. Nesses casos, será possível identificar eosinofilia periférica, que normalmente são de valores de 5 a 12%, mas pode chegar até 50% a depender do grau de infecção.

Tratamento de Ascaridíase

Todos os pacientes com infecção por Ascaris requerem tratamento anti-helmíntico, mesmo aqueles com infecção assintomática. As principais drogas de escolha são:

  • Albendazol, 400mg/dia, em dose única para adultos; em criança, 10mg/kg, dose única. É a droga padrão ouro para tratamento de ascaridíase; OU
  • Mebendazol, 100mg, 2 vezes ao dia, durante 3 dias consecutivos. Não é recomendado seu uso em gestantes. Essa dose independe do peso corporal e da idade; OU
  • Levamizol, 150mg, VO, em dose única para adultos; crianças abaixo de 8 anos, 40mg, e acima de 8 anos, 80 mg, também em dose única. 

Para o tratamento da obstrução intestinal o esquema terapêutico inclui Piperazina, 50 a 75 mg/kg por 2 dias, que pode ser associada ao uso de óleo mineral 40 a 60ml/dia + antiespasmódicos + hidratação. Estes pacientes devem ser tratados de forma conservadora, com sucção nasogástrica e reposição de líquidos e eletrólitos. A terapia anti-helmíntica só deve ser instituída quando a motilidade intestinal for restaurada. As indicações para cirurgia incluem obstrução completa com descompressão inadequada, falta de resposta clínica em 24 a 48 horas, volvo, intussuscepção, apendicite ou perfuração.

O  tratamento das manifestações pulmonares associadas à ascaridíase consiste em cuidados de suporte. O alívio sintomático da sibilância e tosse pode ser controlado com broncodilatadores inalatórios. Vale ressaltar que a terapia anti-helmíntica geralmente não é administrada durante a fase pulmonar, pois a eficácia dos medicamentos contra as larvas nos pulmões é incerta.

Profilaxia da Ascaridíase

Com o intuito de reduzir a transmissão desta parasitose, devem-se desenvolver estratégias de controle que incluem melhorias no saneamento básico, educação em saúde, atenção aos hábitos de higiene, principalmente no que tange ao preparo e manipulação de alimentos, tratamento e conservação da água e uso de fertilizantes.

Em regiões onde os vermes Ascaris são abundantes no solo, a prevenção de reinfecção é extremamente difícil, e nesses casos o tratamento anti-helmíntico em massa pode ser uma boa estratégia para quebrar o elo de transmissão. Outra medida é o tratamento das fezes humanas e suínas que serão utilizadas como fertilizantes com ovicidas.

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Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Doenças Infecciosas e Parasitárias. BRASÍLIA / DF novembro – 2010. Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/doencas_infecciosas_parasitaria_guia_bolso.pdf>. Acesso em: 21 de abril de 2021.

LEDER, Karin; WELLER, Peter. Ascariasis. UpToDate, Inc., 2020. Acesso em: 21 abril 2021. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/ascariasis>. Acesso em: 21 abril 2021. 

Neves, DP. Parasitologia Humana. 11ª ed, São Paulo, Atheneu, 2005.

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