Definição e epidemiologia
A bartolinite consiste na infecção das glândulas
vestibulares maiores, também chamadas de Glândulas de Bartholin, com formação
de abscesso. As glândulas vestibulares maiores são glândulas mucosas
localizadas posterolateralmente ao óstio da vagina, cuja função consiste na
lubrificação vaginal.
O aumento da Glândula de Bartholin pode se dar também
através de formações císticas no interior dos seus ductos ou, mais raramente,
através de tumores, de etiologia maligna ou benigna. Os cistos de Bartholin são
dilatações causadas pela obstrução ductal secundária à infecção, trauma,
alteração na consistência do muco ou por ectasia congênita dos ductos, predispondo
à bartolinite4.
Os cistos e abscessos de Bartholin são patologias
comuns, chegando a representar até 2% das consultas ginecológicas por ano2.
Quadro clínico e diagnóstico
Cistos do Ducto
de Bartholin
Os cistos podem ser assintomáticos e indolores a
palpação. No entanto, quando há crescimento exacerbado, essas massas causam
desconforto e dor, de leve a moderada intensidade, ao andar, sentar e/ou
durante a relação sexual (dispareunia). Como as glândulas vestibulares maiores
produzem muco para a lubrificação vaginal e vulvar durante o ato sexual, a
estimulação sexual repetida pode cursar com aumento do cisto e da dor3.
O surgimento e o crescimento dos cistos são graduais e a dor pode ser constante
ou intermitente5.
Ao exame físico, a maioria dos quadros do Cisto de
Bartholin apresenta-se como uma massa cística
unilateral na região póstero-lateral do óstio vaginal, onde essas glândulas se
localizam. Por vezes, os cistos podem não ser vistos na inspeção sendo
detectados durante a palpação. As glândulas vestibulares maiores não são
palpáveis quando em seu tamanho normal, exceto em pacientes muito magras2.
Tanto os cistos quanto o abcesso da Glândula de
Bartholin são flutuantes, não aderidos à planos profundos, apresentando
mobilidade. É importante questionar às pacientes se houve drenagem espontânea
ou provocada da lesão e as características da secreção. A secreção do cisto é
mucoide enquanto a do abscesso é purulenta e o diagnóstico é clínico2,3.
Bartolinite ou Abcesso da Glândula de Bartholin
Classicamente a
bartolinite é descrita como uma infecção polimicrobiana2,4. Os
patógenos aeróbios mais frequentemente envolvidos são Escherichia coli, Staphylococcus aureus e Enterococcus faecalis. Já entre os anaeróbios, o principal agente etiológico
é o Bacteroides. As bactérias Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia
trachomatis, sexualmente transmissíveis,também já foram isoladas como causa de bartolinite2,4.
Ao exame físico, o abscesso
da Glândula de Bartholin, como o cisto, corresponde a uma massa geralmente
unilateral na região póstero-lateral do introito vaginal. Entretanto, no abscesso, a massa observada é macia e associada a dor
de elevada intensidade, podendo ser acompanhada de sinais flogísticos, como
eritema e edema. Febre ocorre em apenas 20% das pacientes e um abscesso mais
volumoso pode se expandir para os lábios maiores2.
O diagnóstico da bartolinite é clínico. A secreção drenada
deve ser cultivada para identificação do patógeno, em especial, para
determinação da infecção por S. aures resistentes
à meticilina (MRSA). Nos pacientes com risco de Infecções Sexualmente
Transmissíveis (IST`s), a pesquisa laboratorial de clamídia e gonorreia faz-se
necessária2.
Na suspeita de malignidade a biopsia é indicada. Vale
ressaltar que o surgimento do cisto ou abscesso da Glândula de Bartholin é raro
em mulheres acima de 40 anos e, dessa forma, deve-se suspeitar de neoplasia2,4.
Características como a presença de componente sólido no cisto ou abcesso,
aderência aos tecidos periféricos e refratariedade ao tratamento são sugestivas
de malignidade2.

Tratamento de bartolinite
Os cistos do
ducto de Bartholin só precisam de intervenção quando sintomáticos ou em mulheres
acima de 40 anos, quando é indicada a drenagem com biópsia. Pode-se abordar o
cisto sintomático de 3 formas principais4:
Incisão e Drenagem com colocação do cateter de Word:
Para
alívio dos sintomas da paciente, são sempre feitas a incisão e a drenagem dos
cistos sintomáticos. No entanto, esse alívio pode ser apenas temporário, uma
vez que as bordas da incisão podem aderir e obstruir novamente o ducto. A
simples drenagem do cisto ou abcesso está associada a maior risco de recorrência7.
A colocação do cateter de Word é então indicada. Trata-se de um cateter pequeno
com um balão inflável na extremidade distal e a drenagem ocorre ao redor do
tubo e não pelo canal interno do cateter.
Marsupiliazação:
A
marsupiliazação consiste na incisão da glândula vestibular maior com drenagem e
posterior sutura das paredes da glândula na pele adjacente, formando um canal
de drenagem para o muco. Por necessitar de analgesia maior e possuir tempo
operatório maior que a colocação cateter de Word, a marsupiliazação é atualmente
reservada para os casos de falha terapêutica do cateter.
Excisão da glândula:
Embora seja um tratamento
definitivo para cistos e abscessos da glândula de Bartholin, a excisão da
glândula geralmente só é feita após falha terapêutica das opções supracitadas
ou para cistos multiloculares ou com componente sólido. A excisão da glândula
possui maior risco de complicações, em especial de hemorragia, e pode ainda
ocasionar ressecamento vaginal e dispareunia, além de ser um procedimento mais
demorado e com pós-operatório extendido2,7.
Ainda,
pode-se utilizar técnicas menos frequentes, como uso de terapia a laser e de
nitrato de prata2. Independente da técnica utilizada, as
complicações são em geral infrequentes e o pós-operatório dura cerca de 15 dias
ou menos7. Dessa forma, a escolha do tratamento baseia-se nas
características da paciente, disponibilidade dos métodos e materiais e
experiência do médico assistente7.
Os abscessos
são tratados com incisão e drenagem seguidas de colocação de cateter ou marsupiliazação.
Se houver recorrência após a colocação do cateter, pode-se optar por fazê-la
novamente associada à antibioticoterapia ou realizar a marsupiliazação2.
Para mais informações do manejo
cirúrgico, recomenda-se a leitura complementar dos artigos Management of Bartholin Duct Cysts and Abscesses: A Systematic Review
(2009), Surgical management of Bartholin
cysts and abscesses in French university hospitals (2019) e Management of
Bartholin Ducts Cysts and Gland Abscesses
(2019).
O uso de
antibióticos fica reservado aos casos em que há falha terapêutica, recorrência
do abcesso, sinais e sintomas sistêmicos como febre, celulite em tecidos
adjacentes, risco de infecção por MRSA ou em pacientes como alto risco de
complicação, como imunossuprimidos e gestantes2,4.
Para os abcessos moderados, ou seja, que apresentam sintomas sistêmicos, utiliza-se tratamento empírico por 5 dias com Trimetoprima com Sulfametoxazol 1 comprimido VO uma vez ao dia ou Doxiciclina 100 mg VO duas vezes ao dia5. Já para os abcessos graves, quando já houve uso de antibioticoterapia mas sem melhora dos sintomas sistêmicos, pode-se usar Vancomicina 30 mg/kg/dia IV dividido em 2 doses, Daptomicina 4 mg/kg IV em dose única diária, Linezolida 600 mg IV ou VO a cada 12 horas ou ainda Ceftarolina 600 mg a cada 12 horas5.
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Autores, revisores e orientadores:
- Autor(a): Juliana Darbra Cruz Rios – @julianadarbra
- Revisor(a): Camila Osterne Muniz – @camilamnz_
- Orientador(a): Talitha Alves – @dratalithaalves