Infectologia

Resumo de Blastomicose: definições, agente etiológico, quadro clínico e mais

Resumo de Blastomicose: definições, agente etiológico, quadro clínico e mais

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Sanar

10 min há 141 dias

O uso do termo blastomicose, na atualidade, é considerado genérico e pouco utilizado na literatura médica, encontrando-se num processo de instituição de novas terminologias médicas, mais acuradas e adequadas à definição do adoecimento. 

No início da década de 1970, os conhecimentos da infectologia eram limitados a dois tipos de blastomicose: a blastomicose sul-americana e a blastomicose norte-americana, sendo denominadas assim pelo local de ocorrência e registro desses casos. 

A partir de 1972, a blastomicose sul-americana (muito frequente no brasil e cuja infecção é causada pelo Paracoccidioides brasiliensis), passou a ser designada Paracoccidioidomicose.

Todavia, em razão de a doença ocorrer tanto em países da América do Sul quanto da América Central, o termo ‘blastomicose sul-americana’ tornou-se inválido. Consequentemente, não havia motivo para manter-se o termo blastomicose norte-americana, que foi substituído apenas por blastomicose.

Embora tais informações sejam registradas há quase 5 décadas, ainda há muita confusão debruçada sobre o uso isolado do termo blastomicose na área médica. É comum que ao falar de blastomicose, exista sempre a necessidade de diferenciar se o autor está se referindo a forma sul ou norte-americana ou as demais formas de apresentação (queloidiana, europeia e cromoblastomicose). 

Sendo assim, o objetivo principal deste texto é organizar todas as possíveis formas de encontrar descrições sobre blastomicose na literatura médica, diferenciando-as e caracterizando com os principais e mais importantes achados.

Blastomicose norte-americana

DEFINIÇÃO: também conhecida APENAS como blastomicose ou doença de Gilchrist. Trata-se de uma micose endêmica (aquelas que ocorrem em determinadas áreas geográficas do planeta por causa das condições ambientais que propiciam a existência saprobiota dos agentes fúngicos na natureza), de acometimento sistêmico e de importação (não circula no Brasil, exceto quando trazida por viajantes).

Como o próprio nome sugere, é registrada no meio-oeste, sudeste e centro-sul dos Estados Unidos e em províncias canadenses que margeiam a região dos Grandes Lagos na América do Norte.

AGENTE ETIOLÓGICO: causada por um fungo dimórfico, o Blastomyces dermatitidis, que existe nos tecidos e a 37ºC sob a forma de levedura. Os estudos sugerem que o habitat do fungo seja o solo e diferentes tipos de matéria orgânica mesclados ao solo coletados de abrigos de animais domésticos (equinos, cães, coelhos e galinhas) e silvestres (castores).

QUADRO CLÍNICO: assim como em outras micoses sistêmicas endêmicas, a blastomicose compreende um espectro de manifestações clínicas, que variam desde infecções subclínicas a formas pulmonares agudas ou crônicas, que podem progredir para pneumonia multilobar fulminante e insuficiência respiratória aguda.

A forma disseminada de blastomicose é mais observada em imunosupressos, como em pacientes transplantados de órgão sólido ou com AIDS.

Blastomicose sul-americana

DEFINIÇÃO: Conhecida desde a década de 70 como paracoccidioidomicose, mas também chamada de moléstia de Lutz-Splendore-Almeida. Consiste na infecção fúngica sistêmica de maior prevalência na América Latina. É uma importante infecção oportunista de pacientes imunossupressos, acometendo com frequência pacientes com AIDS.

AGENTE ETIOLÓGICO: causada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis, cuja descrição fúngica inicial, bem como caracterização inicial da doença foi feita por Adolpho Lutz (1908) seguida da caracterização morfobiológica por Alfonso Splendore (1912) e por Floriano Paulo de Almeida (1930). 

QUADRO CLÍNICO: o fungo é adquirido por via respiratória e pode causar infecção assintomática em parte da população do Brasil e de vários países latino-americanos, onde se distribui.

Apenas uma minoria dos infectados, particularmente adultos do sexo masculino, desenvolve a doença paracoccidioidomicose, processo granulomatoso-piogênico, em geral com evolução crônica que atinge com maior frequência os pulmões, a mucosa oral e a das vias respiratórias, a pele e os linfonodos. 

O quadro clínico apresenta-se em duas formas principais: a aguda-subaguda, mais observada em crianças e jovens e com tendência à disseminação pelos sistemas linfáticos, reticuloendotelial e para outros tecidos; e a crônica, que ocorre em adultos e é mais localizada, acometendo preferencialmente o pulmão e a mucosa oral. 

Esta última é a forma clínica mais comum, sendo comum a lesão “estomatite moriforme de Aguiar Pupo”, na qual ocorrem lesões de aspecto granulomatoso típico, avermelhado e elevado, coberto por um pontilhado hemorrágico.

A paracoccidioidomicose é controlada de maneira eficaz com antifúngicos, porém as recidivas são frequentes e podem deixar sequelas fibróticas ou causar a morte.

Blastomicose europeia

DEFINIÇÃO: é uma micose profunda, cosmopolita e com comportamento oportunista. Também é conhecida como criptococose (termo mais aceito atualmente), torulose e doença de Busse-Buschke. Por ter essa importante característica de oportunismo, com a epidemia da AIDS a partir dos anos 1980, houve aumento significante na prevalência dessa micose, considerada emergente. 

Além disso, é responsável por gerar uma infecção sistêmica em pacientes que apresentam imunossupressão, seja por uso de medicações imunossupressoras, como os corticosteroides e quimioterápicos por longos períodos, seja por hemopatias malignas.

AGENTE ETIOLÓGICO: Essa micose é causada por fungos do gênero Cryptococcus, constituído por 34 espécies distintas de fungos. Foi isolado na Europa, pela primeira vez em 1895, embora o primeiro caso de infecção criptocóccica em seres humanos tenha sido relatado por Busse e Buschke, na Alemanha, em 1894.

QUADRO CLÍNICO: essa infecção fúngica ocorre por inalação do agente, com localização inicial nos pulmões e, eventualmente, disseminação para outros órgãos. As principais formas da doença são a pulmonar e a do sistema nervoso central (SNC). 

Na criptococose pulmonar ocorre desde a colonização assintomática das vias aéreas até as formas graves de disseminação local, causando síndrome do desconforto respiratório do adulto. As manifestações clínicas frequentes, quando existem, são: febre, tosse, expectoração, dor do tipo pleurítica, dispneia, emagrecimento e, raramente, hemoptise. O exame radiológico dos pulmões pode mostrar desde nódulo solitário até consolidações ou pneumonia intersticial extensa, e derrame pleural. 

Já a criptococose do SNC, principalmente a meníngea, é a manifestação clínica descrita da doença mais frequente, representando 70% do total de casos. Apresenta início brusco ou insidioso. Os sintomas mais frequentes no acometimento meníngeo são: cefaleia intensa, febre, vômitos, alterações visuais, rigidez de nuca e outros sinais de irritação meníngea, com duração de dias ou semanas. 

Blastomicose queloidiana

DEFINIÇÃO: conhecida como doença de Jorge Lobo (definição atual), estando cada vez mais em desuso denominações como micose de Jorge Lobo, blastomicose queloidiana ou queloidiforme. Trata-se de uma micose localizada e restrita à derme, de evolução crônica, que não compromete e nem invade mucosas ou órgãos internos.

A doença de Jorge Lobo tem sido encontrada, mais frequentemente, em indivíduos que habitam regiões de mata densa com clima quente e úmido, particularmente entre os que trabalham em contato mais estreito com a natureza, como os agricultores, seringueiros, garimpeiros e mateiros.

AGENTE ETIOLÓGICO: o agente etiológico da doença foi descrito pela primeira vez por Jorge Lobo, em 1931, em Recife-PE, ao examinar um paciente procedente do estado do Amazonas que apresentava lesões nodulares e confluentes na região lombossacra.

Durante o estudo, o Dr. Lobo percebeu que aquele novo fungo apresentava importante semelhança morfológica com o Paracoccidioides brasiliensis (já mencionado acima) e por isso, o denominou de Paracoccidioides loboi.

QUADRO CLÍNICO: Na grande maioria dos casos, há presença de uma ou mais lesões cutâneas de evolução insidiosa, que persistem, apesar dos vários tratamentos instituídos. Pacientes relatam ardor e prurido no nível das lesões. Estão mais frequentemente localizadas nos membros inferiores, dorso, braços e nádegas. São raras lesões da face e não foram observadas na face plantar de mãos e pés. 

No quadro dermatológico chama a atenção o grande polimorfismo das lesões cutâneas, com a presença de máculas, pápulas, placas infiltradas, nódulos por vezes lembrando queloides, formações gomosas, além de lesões verrucosas, cicatriciais e ulceradas. É relativamente frequente o encontro de dois ou mais tipos de lesões em um mesmo paciente 

Com o evoluir do tempo, as placas tendem a se estender e piorar a apresentação clínica do quadro, surgindo nódulos no seu interior, de crescimento lento, que podem vir a se ulcerar, dando saída a material seropurulento. 

Algumas vezes, as lesões podem apresentar aparente regressão para tecido cicatricial que, uma vez biopsiado, continua a mostrar a presença do parasita, com histopatologia característica da doença de Jorge Lobo. Assim, o encontro de lesões de aspecto cicatricial, nessa micose, não permite inferir que houve cura da doença.

Cromoblastomicose

DEFINIÇÃO: refere-se a uma designação coletiva de micoses causadas por sete espécies de fungos que acometem a pele e causam micoses subcutâneas. Esses fungos apresentam-se nos tecidos como elementos globosos (8 a 12 μm), de paredes espessas e fuliginosas que se reproduzem por septação. O elemento característico – corpo muriforme – apresenta septos em dois planos.

AGENTE ETIOLÓGICO: São sete os agentes de cromoblastomicose: o Cladosporium carrionii, o Fonsecaea compacta, o F. pedrosoi, a Phialophora verrucosa, a Rhinocladiella aquaspersa, a Exophiala jeanselmei e a E. castellani

O F. pedrosoi é o agente etiológico mais frequente; o C. carrionii, que ocorre na região nordestina semidesértica, é o agente mais frequente nessas áreas da América; as demais espécies são de ocorrência esporádica.

QUADRO CLÍNICO: As lesões de cromoblastomicose situam-se, geralmente, em áreas expostas do corpo e quase sempre são unilaterais. São mais frequentes nos membros inferiores  que nos membros superiores, face e tronco.

A lesão, geralmente, se manifesta como um nódulo, pápula ou ulceração. Após anos, as lesões se apresentam sob dois tipos fundamentais: nodular ou tumoral; em placa lisa ou vegetante.

As lesões tumorais são comuns nos membros inferiores e caracterizam-se por nódulos fibrosos que surgem em áreas contíguas, isolados ou agrupados com superfície lisa ou verruciforme, que elevam-se a 1 ou 2 cm acima da pele e lentamente estendem-se por extensas áreas. 

Podem gerar lesões conglomeradas ou em forma de massas de nódulos, duros e secos, que à expressão deixam fluir pus ou secreção caseosa. Essas nodulações podem ulcerar-se e, na ulceração, emergirem massas de superfície verruciforme dando o aspecto característico de couve-flor.

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Referências:

  • Rotinas de diagnóstico e tratamento das doenças infecciosas e parasitárias / editores Walter Tavares, Luiz Alberto Carneiro Marinho. – 4. ed. — São Paulo : Editora Atheneu, 2015. Bibliografia. Vários autores. ISBN 978-85-388-0641-7
  • Veronesi : tratado de infectologia / editor científico Roberto Focaccia. — 5. ed. rev. e atual. — São Paulo : Editora Atheneu, 2015. Obra em 2 vol. Vários autores. Bibliografia. ISBN 978-85-388-0648-6
  • Salomão, Reinaldo. Infectologia: Bases clínicas e tratamento / Reinaldo Salomão – 1. ed. – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. : il. ISBN: 978-85-277-3261-1
  • https://medlineplus.gov/ency/article/000102.htm
  • https://www.mc.vanderbilt.edu/peds/pidl/infect/blastomy.htm
  • Paracoccidioidose (blastomicose sul-americana). Rev Soc Bras Med. Trop. 1974;8:159-65.
  • Disseminated blastomycosis with cutaneous lesions mimicking tuberculosis. https://www.thelancet.com/article/S1473-3099(18)30291-3/fulltext
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