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Síndrome das pernas inquietas: O que você precisa saber | Colunistas

Síndrome das pernas inquietas: O que você precisa saber | Colunistas

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Tenho certeza que você conhece alguém que faz isso: fica a todo momento mudando a posição, balançando o pé enquanto conversa ou assiste alguma coisa, ou ainda – assim como eu – você é essa pessoa! Você sabia que esse ato – muitas vezes quase involuntário – pode ser patológico? Isso mesmo!

Conhecida como síndrome das pernas inquietas (SPI), doença de Willis-Ekbom ou ainda síndrome de Wittmaack–Ekbom, a nossa “mania chata” é um problema crônico e bastante comum.  Segundo dados do Hospital Israelita Albert Einstein, a SPI atinge cerca de 17% das mulheres e 13% dos homens em todo o mundo. Tendo, somente no Brasil, mais de 150 mil casos diagnosticados por ano!

Um (muito) breve histórico

Os primeiros relatos dessa síndrome datam de 1672, pelo médico e anatomista inglês Sir Thomas Willis, que observou alguns sintomas semelhantes em alguns dos seus pacientes. Em 1861, o clínico alemão Theodor Wittmaack, catalogou os sintomas mais frequentemente relatados em suas avaliações clínicas, tendo nomeado pela primeira vez essa condição, de acordo com o sintoma mais frequente (a “agonia” localizada principalmente nos membros inferiores): Anxietas tibiarum.

Mas o primeiro relato de caso foi publicado somente em 1945, pelo neurologista austríaco Karl Axel Ekbom, que também a nomeou tal qual conhecemos atualmente. Desde então, apesar de ainda escassos, os estudos sobre essa condição têm se intensificado, principalmente pela avaliação dos profissionais como um problema cada vez mais recorrente.

Como saber se é realmente SPI?

Estima-se que 1/3 dos casos diagnosticados dessa síndrome sejam de origem genética. Em outro terço, foram observadas como causas: a carência de ferro, a gravidez, o consumo abusivo de drogas (álcool, cigarro, estimulantes e antidepressivos), além de doenças renais ou degenerativas (como o Mal de Parkinson). O último terço é de causas desconhecidas.

O diagnóstico – que só pode ser dado por um médico – é, basicamente, sintomático. E apesar dos sinais serem bastante subjetivos (os níveis de desconforto podem variar conforme a percepção de quem o sente), o profissional observará alguns critérios para constatar a avaliação clínica:

  • Desejo quase incontrolável de movimento dos membros (geralmente inferiores, mas, em casos mais graves, pode acometer os membros superiores também) sendo este o principal sintoma relatado;
  • Coceira, formigamento e/ou perda da sensibilidade dos membros acometidos;
  • Aparecimento ou piora dos sintomas em momentos de repouso, principalmente à noite;
  • Alívio dos sintomas após movimentar os membros.

Fui diagnosticado… E agora?

Tendo recebido o diagnóstico, o profissional deve ter informado que essa condição não possui cura, nem tratamento específico. O que se tem feito atualmente como medida paliativa é o uso de medicamentos estimulantes da produção de dopamina (após ser observado uma menor quantidade desse neurotransmissor em pacientes acometidos) e, em alguns casos mais severos, se faz uso de benzodiazepínicos e anticonvulsivantes. Existem também medidas não-medicamentosas que podem melhorar bastante esse quadro.

É importante identificar os motivos de piora e aderir a hábitos que aliviem os sintomas, como:

  • Manter uma alimentação saudável;
  • Praticar atividades físicas;
  • Reduzir o consumo de produtos com cafeína e estimulantes;
  • Fazer uma suplementação de ferro e vitaminas (caso necessário).

Os pacientes diagnosticados com essa condição têm uma qualidade de vida bastante reduzida. Por ser prevalente em momentos de repouso, a síndrome dificulta – e até inviabiliza – a realização de atividades simples, como ir ao cinema, assistir televisão, participar de reuniões, realizar viagens longas, dentre tantas outras.

Outro ponto bastante importante é a qualidade do sono: praticamente todas as pessoas acometidas apresentam grande dificuldade para dormir ou manter um simples momento de repouso. Por isso, é de extrema importância a procura de tratamento (psicológico ou com profissionais especializados no sono) caso essa condição interfira diretamente no seu bem-estar.

Recomendações

  • Sendo a SPI um problema bastante comum, é importante sempre procurar um profissional médico, capacitado a dar diagnóstico e orientação corretamente – e, em hipótese alguma, automedicar-se;
  • Evitar o consumo excessivo de álcool, cigarro, cafeína e outros estimulantes, além atentar-se quanto a drogas antidepressivas ou medicamentos neurolépticos: estes podem causar ou potencializar os sintomas sindrômicos;
  • Atenção redobrada com crianças e idosos (os sintomas tendem a piorar com a idade). Por não saberem expressar com exatidão o que sentem, é comum que sejam taxados de “manhosos”. Procure sempre atendimento especializado (pediátrico ou geriátrico) antes de tudo;
  • É muito importante para o paciente interagir socialmente. O isolamento causado pelo seu quadro apenas piora sua situação;
  • Para um estudo mais aprofundado sobre o tema, recomendo a leitura do artigo “Síndrome das pernas inquietas: diagnóstico e tratamento. Opinião de especialistas brasileiros”, produzido pelo Grupo Brasileiro de Estudos em Síndrome das Pernas Inquietas (GBE-SPI). Este apresenta as conclusões de uma reunião do referido grupo acerca do diagnóstico e tratamento da SPI. Há também um site, organizado pela Universidade Federal de São Paulo, com informações bastante relevantes: http://sindromedaspernasinquietas.com.br/.

Por: Jackson Pinheiro, acadêmico de Medicina pela
Universidade Federal de Campina Grande, UFCG.
Instagram:
@pinheirojacks



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