Clínica Médica

Abordagem do tabagismo na atenção primária | Colunistas

Abordagem do tabagismo na atenção primária | Colunistas

Compartilhar
Imagem de perfil de Marcel Aureo

A data de vinte e nove de agosto é considerada, em território brasileiro, o Dia Nacional de Combate ao Fumo. O objetivo desse texto é orientar a abordagem desse combate na atenção primária à saúde.

Antes de mencionar a apresentação clínica do tabagismo, devemos compreender que, durante a combustão do cigarro, há produção de monóxido de carbono e nicotina, o que deprime o sistema nervoso central. Durante o primeiro contato, os sintomas mais comuns são cefaleia, tontura, insônia, tosse e náuseas, sendo diminuídos após a tolerância à droga.

Durante o atendimento, é imprescindível realizar a entrevista emocional, definir o grau de dependência de nicotina, estimular a cessação do tabagismo e prevenir as recaídas.

Entrevista emocional

Nessa etapa, deve-se definir o estágio de motivação do paciente para abandonar o hábito do tabagismo. A entrevista está dividida em:

  • Pré-contemplação: ocorre quando o paciente não identifica que está com problema. É importante fornecer informações sobre os riscos associados, além de garantir o vínculo com o paciente;
  • Contemplação: o paciente identifica que está com problema, no entanto, não há identificação do anseio em alterá-lo, uma vez que não consegue estabelecer grau de vantagens e desvantagens em resolver. Diante disso, é importante auxiliar o paciente em comentar quais as vantagens e desvantagens do comportamento e considerar o peso de cada um;

Preparação: o paciente nesse estágio já pensa em mudar e planeja essa mudança. Como o passo mais difícil, que é o desejo do paciente em mudar, já foi alcançado, este deve ser o momento de desenvolver em conjunto um plano para isso.

  • Ação: o paciente está motivado a efetuar a mudança. É o momento para ser colocado em prática o que foi planejado, valorizando pequenos sucessos atingidos. Caso seja necessário, pode ser considerada a introdução do tratamento farmacológico nessa fase;
  • Manutenção: nesse estágio, o paciente deve ser encorajado a manter as mudanças e deve ser dado apoio a estratégias para evitar recaídas.

Teste de Fagerström

Para avaliar o grau de dependência do paciente, considera-se os critérios abaixo.

  • Avaliação do tempo entre o acordar e o consumo do primeiro cigarro do dia:
  • Menos de 5 minutos: 3 pontos;
  • Entre 5 e 30 minutos: 2 pontos;
  • Entre 31 e 60 minutos: 1 ponto;
  • Depois de 60 minutos: 0 pontos.
  • Avaliação da dificuldade em deixar de fumar em locais que são proibidos:
  • Sim: 1 ponto;
  • Não: 0 pontos.
  • Avaliação do sofrimento em deixar o hábito de tabagismo:
  • Primeiro cigarro da manhã sendo considerado como o mais difícil de ser abandonado: 1 ponto.
  • Qualquer um: 0 pontos.
  • Avaliação da quantidade de cigarros fumados por dia:
  • 31 ou mais: 3 pontos.
  • 21 a 30: 2 pontos.
  • 11 a 20: 1 ponto.
  • Menos de 11: 0 pontos.
  • Avaliação do período do dia onde há mais consumo do tabaco:
  • Nas primeiras horas após acordar: 1 ponto.
  • Durante o resto do dia: 0 pontos.
  • Avaliação se o paciente fuma mesmo estando tão doente que precise ficar de cama quase todo o dia:
  • Sim: 1 ponto.
  • Não: 0 pontos.

Interpretação:

0 a 2 pontos: dependência muito baixa;

3 a 4 pontos: dependência baixa;

5 pontos: dependência média;

6-7 pontos: dependência elevada;

8-10 pontos: dependência muito elevada.

Fumante Passivo

Consiste na inalação da fumaça dos derivados do tabaco por indivíduos não fumantes com convivem com fumantes. Importante salientar que a fumaça expelida contém em média três vezes mais nicotina e monóxido de carbono e até cinquenta vezes mais substâncias cancerígenas do que a inalada pelo fumante.

Pode se relacionar a diversas doenças respiratórias, além do aumento do risco cardiovascular do indivíduo. Por esse motivo, dá-se a importância de investigar o fumo passivo nas unidades de saúde, e não apenas o ativo.

Doenças relacionadas ao tabaco

O tabaco, através da fumaça do cigarro, causa diversos efeitos nocivos à saúde, em especial, doenças cardíacas, respiratórias e câncer. A aterosclerose é favorecida através do efeito trombogênico e capacidade de transporte de gases é diminuída pela inalação do monóxido de carbono. Com isso, há alteração da capacidade aeróbica e ocorre aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca.

O uso de tabaco favorece aterosclerose através de seu efeito trombogênico e por estimulação neural simpática promovida pela nicotina. O monóxido de carbono, quando inalado pelos pulmões, é transferido para a corrente sanguínea, onde diminui a capacidade de transporte de oxigênio. A capacidade aeróbica do fumante é, então, prejudicada e ocorre um aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, predispondo o desencadeamento de arritmias. Alguns estudos apontam para uma significativa redução da prevalência de doenças coronarianas após a cessação do tabagismo, igualando-se à situação de um não fumante após cinco a quinze anos de abstinência.

O tabaco também pode promover o desenvolvimento da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), pneumonias, tuberculose, asma e rinossinusite, uma vez que esses estão mais suscetíveis a infecções, sendo elas mais graves e prolongadas. Além disso, tabagistas apresentam um declínio anual mais acentuado do volume expirado forçado no primeiro segundo (VEF1), melhorando com a cessação do tabagismo.

Ademais, pode favorecer, também, o desenvolvimento de diversos tipos de câncer: cavidade oral, nasofaringe, pulmão, esôfago, estômago, pâncreas, rim. A cessação do uso do tabaco leva à redução do risco de segundo tumor, redução da progressão do câncer e melhora da resposta o tratamento.

Síndrome de abstinência

Uma das barreiras para a cessação do tabagismo é a abstinência, ocorrendo em até 75% dos pacientes, quando os níveis de nicotina caem e o cérebro reage a sua ausência. O paciente pode apresentar-se com irritabilidade, tonturas, cefaleia, bradicardia, agressividade. Esses sintomas são proporcionais aos níveis de dependência à nicotina. Esses sintomas podem se iniciar cerca de 8 horas após a interrupção do uso, com pico nos três a quatro primeiros dias e se resolvendo em torno de uma a duas semanas.

Recidiva

A prevenção de recaída deve ser trabalhada durante todo o processo de tratamento. Nesse caso, ressaltam-se algumas técnicas utilizadas para controle da abstinência e da compulsão, que são: cuidar do estresse e da ansiedade, evitar contato com outros fumantes, evitar bebida alcoólica.

Os principais fatores de risco relacionados à recaída de uso do tabaco são: fracassos em tentativas anteriores, contato com outros fumantes, baixo nível socioeconômico, estresse, baixa motivação e comorbidades psiquiátricas. 

Prevenção primária

 Deve-se realizar a educação da população a respeito dos malefícios do tabagismo em unidades de saúde e escolas. Leis/Portarias que proíbem a venda de cigarros para menores de 18 anos são interessantes, porém, por si só, não conseguem evitar o tabagismo, devido ao tráfico.

Posts relacionados: