Infectologia

Resumo de Giardíase: epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento

Resumo de Giardíase: epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento

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Definição

A Giardia duodenales/lamblia, responsável por causar uma patologia conhecida como Giardíase, é um parasita eurixeno, ou seja, que infecta vários tipos de espécies, porém é monoxeno pois só desenvolve o ciclo biológico completo em um hospedeiro, os humanos.

É muito comum entre crianças de 8 meses a 12 anos (geralmente que frequentam creche), nas regiões tropicais e subtropicais, sendo uma parasitose que acomete as populações mais pobres, com péssimas condições de saneamento.

  • Reino Protista; Filo Sarcomastigophora;
  • Subfilo Mastigophora; Classe Zoomastigophoea;
  • Ordem Diplomnadida; Família Hexamitidae;
  • Gênero Giardia;

Espécie: são conhecidas 6 espécies, porém somente a Giardia lamblia infecta humanos.

Epidemiologia da Giardíase

Protozoário flagelado que acomete principalmente pré-escolares e escolares e que tem distribuição cosmopolita. Parece ser o parasita mais prevalente no mundo (4 a 8%) mesmo em famílias com renda familiar média ou alta. Estima-se em 200 milhões os portadores de giardíase sintomática em todo o mundo.

Fisiopatologia

Forma Evolutiva

Trofozoíto: Forma ativa, ou seja, está no nível do ID realizando parasitismo. O formato lembra uma pera com axônemas que dão estrutura a célula e ausência de mitocôndrias. Conta ainda com a presença de um ducto sectorial adesivo que permite a fixação do parasita na parede do intestino delgado.

Cistos: Forma de resistência e disseminação, com o formato ovoide contendo até 4 núcleos (forma infectante).

Foto de Protozoário De Giardia Intestinalis e mais fotos de stock de Abdome  - iStock
Formas evolutivas Giardia.
FONTE: iStock

Características Gerais

A transmissão pode acontecer de Pessoa-Pessoa, principalmente em locais fechados. Porém, a forma de transmissão mais comum é através de alimentos e fontes de água contaminados.

Eles são parasitas que ocupam o Intestino delgado, duodeno, jejuno, ductos ou até vesícula biliar. Obs.: eles têm preferência por essas áreas devido à alta concentração de fosfolipídio que são importantíssimos para o desenvolvimento do parasita.

Ciclo Biológico

O ser humano ingere água ou alimento contaminado por cistos de giárdia que, quando chegam ao nível do estomago começam o processo de desincistamento devido ao pH, temperatura e suco pancreático.

Ao nível do Intestino Delgado (duodeno) o desincistamento está completo formando o trofozoíto que começa então a se reproduzir assexuadamente por meio da divisão binária longitudinal.

Após um tempo ocorre um encistamento novamente. Ocorre produção de quitina que dá estruturação da parede cística formando um novo cisto, sem mecanismos de adesão a parede do intestino delgado. O motivo para o novo encistamento ainda não é conhecido.

Esse cisto não consegue se aderir e acaba se desprendendo da mucosa intestinal, saindo junto com o bolo fecal pronto para infectar novas pessoas.

CDC - DPDx - Giardiasis
Ciclo Biológico Giardia
FONTE: Center for Disease Control

Patogenia

O disco adesivo fixa o trofozoíto na mucosa intestinal, formando um atapetamento da mucosa duodenal com formação de barreira mecânica de parasitas que impedem a absorção de nutrientes.

Associado a isto temos uma reação inflamatória que causa lesão celular com decorrente atrofia das vilosidades, hiperplasia das criptas.

O corpo, tentando recuperar essas células perdidas começa a aumentar a produção de enterócitos que são formados imaturos. Essa imaturidade do enterócito gera uma deficiência das dissacarídases (enzimas que se encarregam de romper os dissacarídeos nos monossacarídeos auxiliando na digestão e absorção de alimentos).  

Sem as dissacaridases, é estabelecido um quadro de Síndrome de Má Absorção, que é muito grave, principalmente em crianças, que desenvolvem má absorção de açúcares, gorduras, vitaminas A, D, E, K, B12, ácido fólico e ferro, entre outros nutrientes.

Quadro clínico da Giardíase

Cerca de 5 a 15 % dos pacientes são assintomáticos, com resolução espontânea até 6 meses. Outros, principalmente desnutridos, fisicamente debilitados por doenças primárias ou expostas a contaminação intensa, podem apresentar sintomas que são divididos em duas fases:

Fase aguda: Presente em indivíduos não imunes, ou seja, primoinfectado por giárdia. E também naqueles indivíduos com carga parasitaria muito alta. Nesses casos os principais sintomas são:

  • Diarreia aquosa, explosiva, fétida e com gases;
  • Distenção e cólicas abdominal;
  • Mal-estar, fraqueza, perda de peso e
  • Esteatorreia (clássica da infecção por Giardia)

Fase Crônica: Só é observada em pacientes imunocomprometidas (obs lembrar que criança tem imunodeficiência fisiológica, então essa fase é sim comum em crianças). Nessa fase os principais sintomas são:

  • Diarreia persistente;
  • Má absorção de gordura e vitaminas keda, b12, ferro, xilose e lactose;
  • Dor abdominal ou abdome distendido;
  • Anorexia e perda de peso e
  • Crescimento físico e cognitivo comprometido.

Diagnóstico da Giardíase

Clínico: é difícil pois a sintomatologia é inespecífica (com exceção da esteatorrea)

Laboratorial: Muito importantes. Sendo o parasitológico de fezes o padrão ouro. Temos ainda o aspirado duodenal, ELISA, teste imunológico, IFdireta; biopsia jejunal; etc. Atualmente os mais utilizados para diagnóstico são o ELISA e o de Imunofluorescência direta.

Obs: O exame de fezes pode utilizar dois métodos: o método de faust ou método direto (lembrar que essas amostras podem ser negativas por até 20 dias, por isso devem os exames devem ser periódicos e ter 3 amostras).

Tratamento da Giardíase

Vale lembrar que algumas infecções são autolimitadas e o tratamento não é necessário. Porém, em outros casos, os principais fármacos de escolha são os derivados de nitromidazolicos:

  • Metronidazol,
  • Ornidazol,
  • Tinidazol.

OBS: sempre se atentar com a toxicidade devido aos efeitos colaterais principalmente naquelas crianças com quadros repetitivos.

Além dessa classe temos ainda a Furazolidona; e a Quinacrina.

A recorrência de sintomas após o término do tratamento pode ser atribuída a reinfecção, imunossupressão, tratamento insuficiente ou resistência a droga. Se há suspeita de reinfecção, um segundo curso de tratamento pode ser eficaz. O tratamento com classe diferente de droga é recomendado para giardíase resistente.

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Referências:

Neves, DP. Parasitologia Humana, 11ª ed, São Paulo, Atheneu, 2005.