A Mielite Transversa (MT) é uma patologia de caráter inflamatório que afeta a medula espinhal, que pode se manifestar com o início rápido de fraqueza, alterações sensoriais e disfunção do intestino ou da bexiga.
Existem diversas etiologias para MT. Pode ocorrer como uma entidade independente, geralmente como uma complicação pós-infecciosa, mas também existe em um continuum de distúrbios neuro inflamatórios que incluem encefalomielite disseminada aguda, esclerose múltipla, doença do anticorpo da glicoproteína de oligodendrócito da mielina, distúrbio do espectro da neuromielite óptica e mielite flácida aguda.
Epidemiologia
A mielite transversa é uma condição rara que afeta 1 à 8 casos novos por milhão de pessoas por ano, que acomete todos os gêneros e faixas etárias, com maior ocorrência entre os 10 e 19 anos e, posteriormente, dos 30 aos 39 anos.
Fisiopatologia
A MT é caracterizada por ser uma enfermidade desmielinizante aguda ou subaguda caracterizada tradicionalmente por infiltração perivascular por monócitos e linfócitos na lesão. A degeneração axonal também foi relatada.
A heterogeneidade patológica e o envolvimento da substância cinzenta e branca sugerem que a MT não é um distúrbio desmielinizante puro, mas sim um distúrbio inflamatório misto que afeta neurônios, axônios, oligodendrócitos e mielina da medula espinhal.
Quadro clínico de mielite transversa
Os sintomas da MT podem evoluir de forma rápida, dentro de algumas horas, ou estender o progresso durante dias ou semanas caracterizado pelo desenvolvimento agudo ou subagudo de sinais e sintomas neurológicos que consistem em disfunção motora, sensorial e/ou autonômica.
Em termos gerais, manifesta-se como uma fraqueza ou paralisia muscular que progride de modo ascendente. Embora os membros superiores (MMSS) possam ser afetados, seu acometimento é menor, estando a evolução da doença relacionada ao grau de comprometimento da ME dos indivíduos.
Na maioria dos pacientes, um nível sensorial pode ser identificado. Os sintomas sensoriais incluem dor, disestesia e parestesia. Os sintomas autonômicos envolvem aumento da urgência urinária, incontinência urinária e intestinal, dificuldade ou incapacidade de urinar, evacuação incompleta e constipação intestinal e disfunção sexual.
Diagnóstico de mielite transversa
O diagnóstico de MT é suspeitado quando há sinais e sintomas agudos ou subagudos de disfunção motora, sensorial e/ou autonômica que se localizam em um ou mais segmentos contíguos da medula espinhal em pacientes sem evidência de lesão compressiva da medula.
Seu diagnóstico baseia-se em critérios de inclusão e exclusão. Assim, o diagnóstico de MT requer a exclusão de uma lesão compressiva do cordão, geralmente por imagem de ressonância magnética (RM), e a confirmação por RM e líquido cefalorraquidiano (LCR).
Os melhores marcadores para mielite inflamatória são um LCR inflamatório (ou seja, com pleocitose e / ou um índice de IgG elevado) ou uma ressonância magnética espinhal que demonstra quebra ativa da barreira hematoencefálica (ou seja, com uma lesão que aumenta o gadolínio)
A RM na mielite transversa indica hipersinal na sequência de T2 em região central, principalmente nos segmentos torácicos. Geralmente mostra uma anormalidade de sinal que aumenta o gadolínio, geralmente se estendendo por um ou mais segmentos de cabo. O cordão frequentemente parece inchado nos níveis afetados.
Ressonância magnética da medula espinhal demonstrando mielite transversa em um homem de 37 anos com esclerose múltipla. Imagens sagitais ponderadas em T2 (A) e axiais (B) mostram um foco de hiperintensidade nas colunas posteriores da medula espinhal cervical no nível C2. Imagens sagitais (C) e axiais (D) ponderadas em T1 pós-gadolínio demonstram realce consistente com placa ativa. © 2021 UpToDate , Inc. e / ou suas afiliadas.
Quando a inflamação está presente na ausência de compressão da medula, os critérios para MT foram atendidos, é importante distinguir a MT idiopática da MT secundária (associada à doença), como uma doença desmielinizante inflamatória multifocal do sistema nervoso central, uma infecção rara do sistema nervoso, uma doença reumatológica sistêmica ou uma síndrome paraneoplásica.
Tratamento da mielite transversa
Pacientes com MT devem ser oferecidos um tratamento imunomodulatório, como esteróides e plasmaférese, apesar de não haver ainda um consenso da estratégia mais apropriada.
Para pacientes com MT idiopática aguda, indica-se o tratamento com altas doses de glicocorticoide intravenoso. Os regimes preferidos são metilprednisolona (30 mg / kg até 1000 mg por dia) ou dexametasona (até 200 mg por dia para adultos) por três a cinco dias.
Para pacientes com MT aguda complicada por deficiência motora, sugerimos tratamento adicional com plasmaférese. O esquema preferido é de cinco tratamentos, cada um com trocas de 1,1 a 1,5 volumes de plasma, em dias alternados por 10 dias.
A patologia possui evolução e desfecho de características variáveis. A MT vai desde a cura completa, sem danos, até a paraplegia total ou morte decorrente de uma falência respiratória ou por lesão cervical alta na maioria dos casos. O prognóstico da MT é melhor na faixa pediátrica. Aproximadamente metade das crianças acometidas chega a uma recuperação completa em dois anos.
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Referências:
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- KRISHNAN Et al. MIELITE TRANSVERSA: PATOGENIA, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO. Frontiers in Bioscience 9, 1483-1499, 1˚ de maio de 2004.
- Martins et al. / Braz. J. Surg. Clin. Res. MIELITE TRANSVERSA AGUDA: REVISÃO DE LITERATURA. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research – BJSCR. Vol.30,n.3,pp.89-94 (Mar – Mai 2020).