Psiquiatria

Transtorno de Personalidade Borderline e Autolesão na Adolescência

Transtorno de Personalidade Borderline e Autolesão na Adolescência

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Quer entender melhor sobre o transtorno borderline e a autolesão na adolescência? Então, aproveite a leitura!

Antes de entendermos o Transtorno de Personalidade Borderline, saiba que ele é mediado pelas atmosferas de:

  1. Personalidade;
  2. Temperamento;
  3. Caráter.

A personalidade

A personalidade pode ser facilmente compreendida quando pensamos nas relações do homem com o meio.

Sendo assim, o conjunto de tudo o que caracteriza o homem e a sua relação com outras pessoas e o ambiente constitui sua personalidade. Isso envolve como o homem sente, pensa, reage e se comporta com relação a outras pessoas.

Dentro desse conjunto de interações com o meio, podemos apontar cinco dimensões básicas da personalidade. Elas são conhecidas como o BIG-Five, sendo:

  • Neuroticismo (expressão de afetos negativos e impulsividade)
  • Extraversão (expressão de afetos positivos e busca de interação e socialização)
  • Conscienciosidade (adoção de escrúpulos morais, senso de responsabilidade e preocupação com o futuro)
  • Cordialidade (traços que caracterizam afabilidade, tolerância e cooperação)
  • Abertura (facilidade para aceitar novas ideias)

Com isso, a personalidade é muito individual e é norteada pelas qualidades e defeitos de cada um. Como individualidade, a personalidade só é considerada patológica quando algumas características são disfuncionais ou extremas.

Assim, para reconhecer o que teria essas características é preciso olhar para a sociedade na qual o indivíduo está inserido e seu contexto cultural.

O que é um transtorno de personalidade?

O transtorno de personalidade é um padrão de reações, pensamentos e comportamentos que se distancia das expectativas culturais.

Para enfim reconhecer que o indivíduo possui o transtorno de personalidade, ao menos 2 das áreas seguintes devem estar afetadas por esses extremos, sendo elas:

  • Cognitiva;
  • Afetiva;
  • Em relacionamentos interpessoais;
  • Controle de impulsos.

Assim sendo, para ser considerado um transtorno de personalidade deve haver um conjunto de manifestações, não apenas uma ou outra característica.

Em vista disso, perceba que o transtorno de personalidade influencia diretamente no seu convívio social. Isso porque, diferente de outros quadros da psiquiatria, trata-se de uma apresentação constante.

Considerando a classificação dos transtornos de personalidade, segundo o DSM-5 temos 11 transtornos divididos em 3 grupos principais (CLUSTERS):

  • A: esquisitos/desconfiados (esquizoide, paranoide e esquizotípico);
  • B: instáveis e/ou manipuladores e/ou centro das atenções (borderline, histriônica, narcisista e antissocial);
  • C: ansiosos e/ou controlados-controladores (dependente, anancástica e evitativa).


O que é o Transtorno de Personalidade Borderline (TBP)?

O Transtorno de Personalidade Borderline é uma psicopatologia grave, envolvendo a personalidade.

Além de representar o quadro mais emblemático dentre todos os transtornos de personalidade, os pacientes com TBP são os que mais buscam atendimento de saúde. Quanto à prevalência entre os gêneros, entende-se a proporção homem-mulher como 1/3.

Transtorno de Personalidade Borderline
Figura 1: Prevalência dos TPs na população geral e em populações clínicas
de pessoas que são tratadas em serviços de saúde mental. Fonte: Dalgalarrondo, 2018.

Ao atender um paciente com o TBP é possível que em sua história você ouça relatos de relacionamentos instáveis, sintomas de depressão e uma falha do senso de identidade.

É importante entender que o transtorno de personalidade borderline se associa muito a eventos da infância. Isso significa que um ambiente estressante, em especial envolvendo relações familiares, favorece o desenvolvimento da doença.

Durante a história clínica, o paciente pode, ainda, mencionar episódios de abandono, abuso sexual ou negligência parental.

Como a idade média de manifestação do TBP é antes dos 25 anos, entre a puberdade e o início da vida adulta. Esse dado tornna essa psicopatologia um quadro preocupante, especialmente dentre os adolescentes, segundo a American Psychiatric Association.

Mas porque o TBP é tão preocupante? Antes, vejamos seu quadro clínico.

Quadro clínico do Transtorno de Personalidade Borderline

Considerando as dimensões da personalidade, lembre-se de que o paciente com TPB apresentará mais de uma característica disfuncional.

Segundo os critérios DSM-5, para que o paciente seja diagnosticado deve preencher pelo menos 5 deles. Segundo a DSM-5, tem-se as seguintes características:

  1. Esforços excessivos e desesperados para evitar abandono, real ou imaginário. Por isso, esse critério fala de uma grande sensibilidade à qualquer pista de afastamento que, para o paciente, represente abandono.
  2. Relacionamentos intensos e instáveis. Costumam oscilar entre extremos:
    • Intensa paixão, amizade com adoração;
    • Ódio, rancor e mágoa profundos.
  3. Confusão quanto à própria identidade. Questões como autoimagem, objetivos e preferências pessoais se tornam muito instáveis.
  4. Impulsividade em pelo menos duas áreas destrutivas:
    • Gastos exagerados, relação sexual com desconhecidos, uso de substâncias, compulsão alimentar, dirigir de forma perigosa/irresponsável;
    • Autolesão repetitiva, como cortar-se propositalmente.
  5. Comportamentos suicidas;
  6. Instabilidade emocional intensa, com grande reatividade do humor;
  7. Sentimentos crônicos de vazio, depressivos;
  8. Raiva intensa e inapropriada, com dificuldade para controlá-la, sendo explosivo(a);
  9. Ideias de perseguição, de traição, ameaça ou episódios dissociativos.

É possível, ainda, que o paciente com borderline tenha alucinação auditiva ou visual, representando 25 a 30% desses pacientes. Por outro lado, cerca de 75% deles podem apresentar experiências dissociativas e ideação paranoide, segundo Gras et al., 2014 e Zonnenberg et al., 2016.

Pensando na relação do borderline com outras pessoas, é criada uma expectativa irrealizável quanto aos relacionamentos. Com isso, nos momentos das naturais decepções é projetada uma percepção de rejeição.

Diante dessas crenças, o paciente com Transtorno de Personalidade Borderline podem desenvolver comportamentos autodestrutivos.

Autolesão não suicida (ALNS) adolescente no Transtorno de Personalidade Borderline

A Autolesão não suicida é o impulso voluntário comum no TBP, costumando ser de leves a moderadas.

Os comportamentos envolvidos nessa prática podem ser:

  • Produção de escoriações na pele e/ou mucosas com facas ou estiletes;
  • Furar braço com pregos ou cacos de vidro;
  • Arrancar os cabelos (tricotilomania);
  • Queimar a pele com cigarros.

É importante se atentar para essa prática, em especial, dentre o grupo adolescente. Isso porque a ALNS na adolescência está associado a persistência de ALNS na vida adulta, principalmente no sexo feminino.

Assim sendo, jovens adolescentes que têm muitos altos e baixos emocionais ou que apresentam algum problema de saúde mental são mais vulneráveis a adotarem a prática por influência.

Apesar de a ALNS não representar uma intenção suicida, é evidente que, quando impensada pode sim representar um risco à vida. Ainda que não seja esse o caso, os pacientes com esse comportamento merecem uma atenção redobrada para evento suicida.

Transtorno de personalidade borderline
Figura 2: Fatores de risco e de proteção para o suicídio. Fonte: Dalgalorrondo, 2018.

Quais são as motivações para a autolesão no Transtorno de Personalidade Borderline ?

É evidente que, diante de todas as manifestações possíveis do TBP, a dor emocional torna-se imensamente potencializada.

Por esse motivo, a autolesão passa a representar uma maneira de atenuar a grande dor emocional vivida por esses indivíduos. Sendo assim, causar uma dor física superior à emocional é uma maneira de se distrair dos pensamentos destrutivos. Isso poderia ser comparado a uma “anestesia” emocional

Além disso, vivenciar as reações negativas e opositoras ao seu comportamento pode motivar a autolesão como forma de punir-se por ser “mau”.

É possível, ainda, que o TPB use a autolesão para sentir-se no controle sobre si mesmo, ou até expressar sua raiva.

Quando desconfiar da autolesão?

O indivíduo com impulsos de autolesão, a depender da sua motivação, pode envergonhar-se disso.

Em uma consulta, é importante que você se atente especialmente ao uso de roupas longas e pulseiras grossas.

Além disso, o(a) paciente pode usar de explicações injustificáveis para as cicatrizes, como culpar o animal de estimação, por exemplo. Ainda, pode apresentar um comportamento introvertido.

Qual conduta ter diante da autolesão?

Como médico(a), ter um comportamento cuidadoso diante de um paciente com sinais de autolesão é fundamental para a boa relação médico-paciente.

Por isso, evitar ignorar as lesões ou ainda repreender a atitude do paciente é o mais importante. Não tratá-lo como vítima ou demonstrar pena pela sua situação também deve ser evitado.

Por outro lado, investir em uma atitude compreensiva, bem como conversar sobre possíveis problemas que levam a esse impulso é uma excelente conduta.

Além disso, deixar claro que o ambiente médico é seguro e garantir o sigilo médico também é uma opção.

Perguntas Frequentes:

1 – Quais os grupos de transtornos de personalidade?

Cluster A, B e C.

2 – Quais as principais características do transtorno de personalidade borderline?

Relacionamentos instáveis, dicotomizados, com alto grau de impulsividade, vazio crônico e baixo autocontrole.

3 – O que fazer diante de paciente com auto lesão?

Adotar atitude compreensiva, conversar sobre possíveis problemas e investigar tristezas e sofrimentos.

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Referências

  1. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Dalgalarrondo, 2018.