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Pré-natal e sua enorme importância | Colunistas

Pré-natal e sua enorme importância | Colunistas

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Imagem de perfil de Érico Lucas de Oliveira

Sonho de muitas famílias, gerar um novo ser, principalmente para quem deseja muito, é um momento de muita alegria e felicidade para todos. É uma mudança na estrutura familiar, social, psicológica – tanto para quem gera quanto para quem acompanha –, ambiental e, por que não dizer, quão lindos são os projetos de quartos de bebês que vemos por aí. Enfim, uma mudança de prioridades na vida.

Sendo assim, é de se esperar que, nas gestações planejadas e desejadas, a mulher e o pai da criança então se organizem bastante, façam toda a avaliação e só depois de checar que está tudo certo comecem a tentar engravidar, certo? Na verdade, algo tão comum em outras fases da vida entre homens, mulheres, crianças e idosos, o famoso “check-up”, realizado algumas vezes, inclusive, sem muita indicação médica ou propósito, acaba ficando de lado nesse momento.

Parece até paradoxal, não é mesmo?

Percentual de preparo adequado

Um estudo da USP que coletou dados de mais de 800 mulheres, das quais mais de 600 tinham planejado a gestação, evidenciou que menos das que planejaram fizeram a avaliação pré-concepcional de maneira adequada (47%). Se formos além, pensando no percentual geral entre todas, caímos para uma taxa incrível de 15% apenas de preparo. É muito pouco para algo tão importante, concorda?

Em outros países, a taxa também não é tão maior assim do que no Brasil. Sendo assim, a Organização Mundial de Saúde fez uma grande reunião em 2012 para discutir o tema, com foco na redução de morbidades maternas e neonatais.

Quais motivos impedem essa realização?

 Pensando em aspectos práticos, o que acontece que impede esse acompanhamento prévio? São vários os fatores que podem explicar essa dificuldade.

Como esse preparo tem estreita relação com o planejamento da gravidez e ainda temos muitas gravidezes que ocorrem de modo não planejado, mesmo que depois elas passem a ser desejadas, o planejamento pré-concepcional já ficou para trás. Ainda assim, entre as que planejam gestar, algumas não tomam qualquer medida para se preparar, conforme já comentei ali em cima nos dados de algumas mulheres paulistanas.  

Outras pesquisas de caráter mais qualitativo trazem outra faceta dessa questão: geralmente há sentimentos mistos das mulheres. Algumas têm atitudes e intenções chamadas de ambivalentes; há, inclusive, um instrumento, o London Measure of Unplanned Pregnancy, que consegue dissecar melhor a situação, evitando a dicotomia (quero engravidar x não queria engravidar). Assim, podemos nos deparar com situações e sentimentos contraditórios ou inespecíficos e mulheres em graus diferentes de convicção no processo de engravidar ou de evitar uma gravidez. Um exemplo que me deixou pensativo foi o fato de que o não uso de métodos contraceptivos nem sempre corresponde à intenção expressa de engravidar, como mostra um artigo indiano.

 Do lado da oferta, é difícil encontrar serviços de saúde que sejam organizados dessa maneira, com a disponibilidade de espaço em agenda, atividades de educação em saúde, entre outros. Isso pode ser também secundário à falta de preparo dos profissionais, de terem desconhecimento sobre a temática, gerando um ciclo vicioso de desinformação, indisponibilidade e aumento de morbidade materna e neonatal.

Qual o grande objetivo, então?

O preparo pré-concepcional tem como alguns objetivos melhorar o estado de saúde geral dos genitores, atuando para reduzir comportamentos nocivos à saúde e outras nuances e fatores que podem contribuir para maus resultados de saúde materna e infantil.

O médico na atenção primária pode agir ou apenas o ginecologista e obstetra podem?

Com certeza pode. Quem acompanha as mulheres e famílias na atenção primária, seja médico(a) ou outro profissional de saúde, deve iniciar as orientações e acompanhar a paciente, fazendo o seguimento e planejamento em conjunto com a família.

O que orientar e por quê?

A promoção de alimentação e nutrição adequadas (desequilíbrios nutricionais, principalmente a obesidade) estão muito relacionadas com infertilidade e com a morbidade materna. É um estado inflamatório de estresse crônico, tornando o “ambiente”, inclusive o intrauterino, onde será gerado um novo ser, inóspito à fecundação. Caso a fecundação ocorra, há chances aumentadas de diabetes gestacional, pré-eclâmpsia, restrição de crescimento fetal (ou, como seu oposto, a macrossomia) e desordens do líquido amniótico.

 Um ambiente externo seguro, com redução do estresse também se relaciona com infertilidade e morbidades maternas, bem como relações interpessoais saudáveis e de confiança melhoram o bem-estar geral, favorecendo a fecundação e o desenvolvimento de uma gestação saudável, portanto cabe ao cuidador ter estratégias para a melhor maneira de abordar esse ponto.

O controle de doenças crônicas, muitas vezes o principal quando pensamos nesse sentido, é primordial. Doenças como asma, hipertensão e a diabetes devem estar com controle adequado para evitar morbidades quando for confirmada a gestação. Não podemos esquecer também das patologias de ordem ortopédica – hoje já se fala em pré-natal fisioterapêutico, neurológico, psiquiátrico. Todo o corpo humano passará por grandes mudanças nessa fase. Por exemplo, problemas de saúde bucal estão relacionados com trabalho de parto prematuro, você sabia?

Fundamental a prevenção do uso de drogas lícitas (por exemplo, o álcool e outros medicamentos que devem ser suspensos, e já é bem estabelecido há muito tempo o quanto o tabagismo é danoso à gestação) e ilícitas.

 Também entra no aconselhamento a prevenção de gravidezes sucessivas e o tratamento inicial da infertilidade.

Exames a solicitar

Há alguns exames do arsenal diagnóstico que podem ser utilizados para proporcionar um preparo adequado à futura gestante. São eles: tipagem sanguínea e fator Rh, glicose, rastreio de doenças sexualmente transmissíveis (como HIV, clamídia, sífilis e gonorreia, herpes), rubéola, imunidade à catapora, tireoide, anemia.

É importante também avaliar os exames relacionados com a prevenção ou diagnóstico de câncer, quando indicados, como o Papanicolau e a mamografia.

Vacinação

 Vacinas devem ser atualizadas nessa fase. Algumas delas não podem ser realizadas na gestação, então é um momento oportuno para cuidar da saúde dessa família. A tríplice viral, varicela e febre amarela normalmente são contraindicadas na gestação.

Ácido fólico ou metilfolato

Uma das vitaminas do complexo B, o ácido fólico está relacionado com a formação do tubo neural do bebê. Se houver carência nessa fase, pode haver problemas de formação. Como estamos falando de preconcepção, é orientado que essa suplementação seja ofertada às “tentantes”. Além disso, ela ajuda a prevenir a anemia na gestação.

Conclusão

Espero que, com esse artigo, além de trazer aspectos práticos de como abordar essas famílias que estão planejando crescer, você possa ir além e pensar na saúde global das pessoas, pois muitas das orientações de preconcepção são na verdade orientações que se aplicam às pessoas como um todo e reforçá-las nesse período pode fazer com que tenhamos uma sociedade muito mais saudável de maneira geral.

            Gostou do texto? Qualquer dúvida pode me escrever diretamente, será um prazer te ajudar.

Grande abraço, Érico.

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ÉRICO LUCAS DE OLIVEIRA
ericolucas@gmail.com