Coronavírus

Dr. José Alencar analisa o cenário da vacinação no Brasil

Dr. José Alencar analisa o cenário da vacinação no Brasil

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Sanar

7 min há 116 dias

O cenário da vacinação no Brasil será o tema do Sanarcon 2021, que acontece em 18 de setembro. O congresso da Sanar vai reunir grandes nomes da medicina e da ciência para propor novas perspectivas de futuro.

Com os impactos da pandemia da Covid-19 e o avanço da vacinação, muitos questionamentos estão sendo feitos. Entre eles: “será necessário uma terceira dose de vacina?” e “já é seguro realizar grandes eventos?”.

Para entender melhor esse momento do país, entrevistamos o cardiologista José Alencar, que será um dos palestrantes do Sanarcon. O médico é o autor do livro “Manual de Medicina Baseada em Evidência“, da editora Sanar. E tem sido bastante atuante nas mídias no combate a desinformação através de evidências.

No congresso, José Alencar pretende reforçar a importância da medicina baseada em evidência. “Os médicos precisam se informar através da fonte. Ler o artigo científico e saber fazer a interpretação. Para, a partir disso, decidir se pode adotar aquela conduta no tratamento de um paciente. É de extrema importância saber interpretar uma informação”, ressaltou o profissional.

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Cenário da vacinação no Brasil e mais. Confira a entrevista na íntegra:

1- Além de toda a gravidade da pandemia, os médicos precisaram enfrentar a chuva de fake news sobre a doença. Como foi a sua experiência nesse processo? E como ver o cenário atual?

José Alencar: a onda de fake news piorou muito nosso combate a pandemia e eu sofri bastante. Fui alvo de ataques por tentar ajudar as pessoas. As redes sociais têm uma chuva de pessoas falando narrativas que não fazem sentido nenhum.

Falar que ivermectina é um bom remédio para evitar coronavírus, por exemplo, é algo muito danoso. As pessoas leem, consomem e acham que não tem que vacinar, que estão protegidas e podem aglomerar.

Acredito que as fake news ainda tem um forte impacto na população em geral e em médicos leigos. Mas, já tem muitos médicos e estudantes que estão procurando uma medicina baseada em evidências. E é preciso entender que esse é o novo jeito de fazer medicina.

2- Como encontrar conteúdos confiáveis sobre a vacinação?

José Alencar: para população em geral, a melhor forma é acompanhar as os veículos de imprensa que sejam imparciais. Agora, os médicos precisam pegar as informações direto da fonte que lança os estudos. As revistas científicas de alto impacto, como “The New England Journal of Medicine” e “The Lancet”. Outra opção é consultar o “Up to date”, que é um sumário de evidência científica, em inglês.

O papo de José Alencar e Renato Bandeira é essencial para discussão sobre a forma de fazer medicina

3- O desejo de escolher a vacina que quer tomar tem se tornado um problema sério no Brasil. O que você diria para essas pessoas que defendem esse discurso?

José Alencar: existem várias razões para as pessoas estarem fazendo isso. Para as que procuram uma vacina baseada na eficácia, diria que a eficácia da vacina não é individual. Vivemos em uma comunidade. E quanto mais rápido a gente atingir um alto percentual de pessoas vacinadas melhor será a eficácia.

O ideal é que a pessoa tome a primeira vacina que estiver disponível no momento. Assim, ela vai conseguir uma imunização nem que seja moderada. A medida que a população toda estiver vacina é capaz ter programas de terceira dose.

4- Após ser imunizado, muitos indivíduos se questionam se podem diminuir os cuidados contra Covid-19. Já podemos acreditar que existe segurança para “voltar ao normal”?

José Alencar: ainda não é o momento para se sentir seguro. A gente ainda está em um platô elevado e ainda temos que lidar com as variantes. Além disso, existe um fator científico chamado retorno a média. Quando uma coisa está muito ruim ela tende a retornar a média, o que melhora um pouquinho.

Ao se vacinar e não se comporta como alguém que está em comunidade a eficácia tende a cair. Precisamos manter o uso de máscaras e o distanciamento social.

5- É possível prever quando poderemos aglomerar novamente de forma segura?

José Alencar: dificilmente há uma previsão exata e não há ainda um modelo seguro para voltar a aglomerar. Para ser seguro prever, é preciso que a gente perceba consistentemente, em todos os lugares do Brasil, os seguintes fatores:

  • r0 (velocidade em que uma doença infecciosa pode se espalhar. Ou seja, o número de pessoas que uma pessoa pode contaminar) abaixo de 1 constantemente;
  • As mortes não estão mais em um plâto elevado;
  • Certeza que já passou o período entre ondas e que as variantes estão controladas;
  • Um número grande de pessoas vacinadas, por volta de 70% da população.

A minha torcida é que isso aconteça no primeiro semestre do próximo ano. Então, o modelo seguro ainda é continuar tomando os cuidados sociais. A vacina é só uma das armas que temos contra a pandemia. O uso de máscaras e o distanciamento social são o que mais diminuem os riscos.

6- O que pensa sobre esses “eventos testes” que já estão sendo feitos pelo Brasil neste momento?

José Alencar: é cedo ainda, porque não temos a certeza de que a pandemia está verdadeiramente controlada. Não temos uma vacinação mínima para pensar em uma proteção vacinal. Estimo que a gente precise de pelo menos 70% da população vacinada com duas doses.

Vale assistir essa aula de Alencar e Felipe Marques para saber mais sobre a aplicação da medicina baseada em evidências

7- O que podemos esperar da sua participação no Sanarcon 2021?

José Alencar: o tema da minha aula será “como interpretar um artigo científico”. Vou dar um mini guia de como analisar uma evidência científica. Afinal, o passo a passo em si é complexo e o tempo é curto.

Após passar pelo mini guia, o participante vai afirmar se confia mesmo no estudo que receberam. Quero propor análises para que eles tirem suas próprias interpretações e possam definir se é bom mesmo. E se merece que a gente (médicos) comecemos a adotar nos tratamentos de nossos pacientes.

8- O “Manual de Medicina Baseada em Evidências” tem ganhado cada vez mais força dentro e fora da comunidade médica. Como surgi a ideia do conteúdo e o que você almeja com livro?

José Alencar: sempre gostei de interpretação de artigos científicos. Quando estourou a pandemia pensei “é tão óbvio, tão básico que Cloroquina não funciona, como as pessoas acreditam nisso?”. Comecei a falar nas redes sociais e vi que o que eu sabia não era óbvio e básico. Vi que tinha um bom conhecimento e poderia passar adiante.

Eu quis fazer um livro que empodera-se o médico e até o cidadão comum. Para que eles por conta própria leiam um artigo científico e tenha uma interpretação crítica. Quero que o livro chegue para os médicos que ainda não entendem o que é medicina baseada em evidências. E quem sabe que chegue o momento dele ser obrigatório em uma escola médica.

Para saber mais sobre o cenário da vacinação e sobre medicina baseada em evidência, garanta sua inscrição no Sanarcon 2021. Os interessados podem se inscrever no site sanarcon.sanarmed.com.

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