Psiquiatria

Transtorno psicótico breve: veja as principais informações sobre a doença

Transtorno psicótico breve: veja as principais informações sobre a doença

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Havia, há várias décadas, um conceito chamado “psicose reativa”, em que eram descritos casos de uma psicose benigna, de bom prognóstico e que precisava de um fator traumático para acontecer, sendo os temas dos delírios apresentados relacionados ao evento desencadeador. Atualmente esse transtorno foi renomeado como Transtorno psicótico breve ou psicose breve.

Epidemiologia

A psicose breve é um transtorno incomum, apresentando uma variação de sua ocorrência em diversas regiões do mundo, tornando sua incidência e prevalência exatas ainda desconhecidas. Populações que passaram por grandes mudanças culturais (por exemplo, migrações) ou que foram submetidas a desastres naturais possuem maior risco de desenvolver psicose breve. O transtorno é mais frequente em indivíduos de classes socioeconômicas mais baixas.

É mais comum em mulheres, podendo apresentar uma frequência até duas vezes maior em comparação aos homens, por motivos ainda não esclarecidos. Apesar de acometer qualquer idade, tem pico de incidência entre a segunda e terceira décadas de vida. Observam-se que indivíduos com transtorno de personalidade, principalmente do grupo B (dramáticos), por apresentarem dificuldades adaptativas no enfrentamento de adversidades, têm uma maior predisposição a cursarem com psicose breve.

Etiologia

A etiologia e etiopatogenia ainda são desconhecidas. Mecanismos psicológicos relacionados a enfrentamento inadequado a fatores traumáticos possivelmente fazem parte – aparentemente não são os únicos causadores – da geratriz de sintomas psicóticos breves.

Sintomas

Psicose breve é um transtorno psicótico agudo e transitório, caracterizado pelo início súbito de sintomas psicóticos que duram no mínimo um dia e no máximo um mês, geralmente associado a um evento ou fator estressor. Os sintomas cessam completamente dentro de um mês ou após o uso de antipsicóticos, com uma recuperação completa dos níveis funcionais do indivíduo. O significado de “início súbito” refere-se a uma mudança do estado normal do indivíduo para um estado claramente psicótico, em até duas semanas, e geralmente sem um período prodrômico.

Dentro desse contexto, o paciente pode apresentar comprometimento de atividades corriqueiras, como dificuldade em se alimentar ou realizar tarefas básicas de higiene, podendo ser necessário uma supervisão contínua de familiares. É nesse momento que devemos prestar mais atenção ao paciente, pois há maiores chances de ocorrer ações incentivadas por seus delírios, a exemplo de comportamento violento ou suicídio.

Diagn´´ostico

De acordo com o DSM-5, para o diagnóstico de psicose breve é necessário a presença de, pelo menos, um dos sintomas psicóticos a seguir:

  • Delírios;
  • Alucinações;
  • Discurso desorganizado;
  • Comportamento desorganizado ou catatônico.

Vale lembrar que, comparado com outras condições psicóticas, não se tem a presença de sintomas negativos ou cognitivos. Contudo, sintomas de humor e comportamentais estão fortemente presentes na psicose breve. Os pacientes costumam vivenciais uma turbulência emocional importante ou uma grande confusão mental, podendo apresentar uma volatilidade afetiva, com uma mudança brusca de emoções e afetos, associados a um comportamento estranho ou bizarro, gritos ou mutismo com olhar perplexo, hipotenacidade e memória comprometida para eventos recentes.

Para o diagnóstico é necessário que o quadro não seja bem explicado por qualquer outro transtorno psiquiátrico ou condição médica geral. Muitas vezes , pode ser necessário exames complementares, como eletroencefalograma, neuroimagem, dosagem de eletrólitos, glicemia em jejum, dosagem de enzimas hepáticas e dosagem de hormônios tireoidianos, que possam ajudar a afastar doenças clínico-neurológicas.

A psicose breve pode ter início após estressor evidente (quando os sintomas se iniciam após um evento traumático de elevada relevância para o paciente), sem estressor evidente, quando os sintomas não se iniciaram em resposta a um evento traumático e, por último, com início no pós parto (psicose puerperal), quando os sintomas se iniciam durante a gestação ou em até quatro semanas após o parto; nesse caso podemos ter uma possível etiologia hormonal e tende a ser um quadro mais grave, muitas vezes necessitando de internação hospitalar.

Diagnósticos diferenciais

Diversas condições clínicas gerais e psiquiátricas podem mimetizar um Transtorno psicótico breve, principalmente porque o transtorno possui um início súbito e evolução aguda. No quadro a seguir, observamos os principais diagnósticos diferenciais

Condições médicas geraisCondições psiquiátricas
EpilepsiaTranstorno enquizofreniforme
Neoplasias cerebrais Transtorno esquizoafetivo
Doença cerebrovascularesTranstorno depressivo maior
Trauma cranioencefálicoTranstorno delirante
AIDSTranstorno de personalidade (esquizoide, esquizotípica, borderline)
NeurossífilisTranstorno bipolar
LESTOC
Síndrome de Wernicke-KorsakoffTranstorno dismórfico corporal
Uso de substânciasTEA
DeliriumTranstorno factício e simulação

Tratamento

O tratamento sa psicose breve se inicia rotineiramente no ambiente de urgência e emergência. Antes de prescrevermos o uso de algum medicamento, devemos observar o estado dos sintomas e o nível de periculosidade que o paciente apresenta para si e para os demais, analisando a necessidade de internação hospitalar, pois o ambiente hospitalar pode ser o local mais adequado para o tratamento. É preciso identificar possíveis causas médicas gerais como epilepsia e TCE, ou o uso de substâncias psicoativas, para o adequado suporte clínico.

Farmacoterapia

Os objetivos do tratamento farmacológico são retirar o paciente da crise aguda de sintomas psicóticos e evitar possíveis recaídas. No tratamento da psicose breve o quadro é autolimitado, então, em menos de um mês os sintomas terão sua resolução. Entretanto, os sintomas são graves boa parte das vezes e requerem, por isso, intervenção imediata. Em ambiente de urgência e emergência, podemos utilizar os antipsicóticos orais ou parenterais. Geralmente o uso dos antipsicóticos retiram o paciente do estado psicótico agudo.

Após tranquilização inicial e investigação etiológica, é recomendado o uso de antipsicóticos por um prazo de até 3 meses após a cessação dos sintomas com o objetivo de evitar possíveis recaídas. O emprego de antipsicóticos de segunda geração é o mais indicado por seu menos potencial de efeitos adversos e maior aderência ao tratamento.

Os benzodiazepínicos também podem ser utilizados nos pacientes em estado psicótico agudo com o objetivo de diminuir a agitação psicomotora, mas não são recomendados como tratamento a longo prazo, devido à sua propensão à dependência.

Tratamento não farmacológico

Inicia-se após a estabilização do quadro psicótico e objetiva evitar falhar na aderência, além de auxiliar em casos de recaídas ou sintomas residuais. Psicoeducação para informar ao paciente e familiares sobre as características benignas do quadro deve sempre ser executada. As psicoterapias são estratégias que podem evitar recaídas e futuros novos episódios psicóticos. Nas sessões psicoterapêuticas individuais, discute-se a presença de possíveis estressores que podem ter desencadeado o episódio e é realizada a proposição de estratégias de enfrentamento desses estressores.

A família deve ser abordada durante o processo, para orientações gerais e engajamento em estratégias que evitem possíveis recaídas e falhas na adesão da medicação. A família mantém um papel chave dentro do processo de reintegração psicológica e social do indivíduo. Para casos específicos, em que haja uma clara disfunção intrafamiliar, a terapia de família deve ser discutida e implementada.

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Perguntas Frequentes:

1 – O que é Transtorno psicótico breve?

Consiste em delírios, alucinações ou outros sintomas psicóticos por, no mínimo, 1 dia, mas < 1 mês, com retorno, ao final, para o funcionamento pré-mórbido.

2 – Como fazer o diagnóstico de Transtorno psicótico breve?

O diagnóstico é realizado através da história clínica e exame mental e exclusão de demais diagnósticos.

3 – Qual o tratamento de Transtorno psicótico breve?

O tratamento do transtorno psicótico breve é semelhante ao tratamento de agudização da esquizofrenia; supervisão e tratamento de curto prazo com antipsicóticos podem ser necessários.

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