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Hidroxicloroquina e Coronavírus: O abandono da ciência no caso do Fantástico | Especialistas

Hidroxicloroquina e Coronavírus: O abandono da ciência no caso do Fantástico | Especialistas

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Dr. José Alencar

8 minhá 414 dias

A hidroxicloroquina, a nova “velha” heroína. Muito tem se falado a respeito de drogas que podem ajudar no combate ao coronavírus, mas o que é verdade e mito? Podemos confiar no que foi dito no programa de ontem?

Para responder a algumas dessas perguntas é necessário recorrer a ética médica e algumas definições. Vamos lá?

Estudos in-vitro

Para começar: o que é esse tal de “estudo in-vitro”? É o estudo conduzido em laboratório, sobre condições perfeitas, é útil para encontrar associações fisiopatológicas e farmacológicas que depois vão gerar estudos clínicos.

Estudos clínicos

É quando se observa se aquele resultado que os cientistas encontraram laboratório e estende ao corpo humano.  Há milhares de casos de drogas que falharam no corpo humano, e vou citar algumas das causas:

  1. Composto não tem absorção suficiente do intestino, então não entra na corrente sanguínea;
  2. O composto é inativado por outros compostos presentes no corpo humano que não estavam presentes no laboratório;
  3. A droga é inutilizada pelo fígado;
  4. A dose necessária para tratamento é repleta de efeitos adversos.

De onde surgiu a ideia de investigar hidroxicloroquina ?

A hidroxicloroquina é uma droga que atua em vidro ou seja em laboratório como anti-replicador viral.  Ou seja, ela faz com que o vírus estacione. Pensaram: “OK, vamos testar para CoVid-19 também.”

Já foi visto que a hidroxicloroquina inibe o vírus do HIV e da dengue, para se ter uma ideia. E nós não vemos a hidroxicloroquina ser usada para essas doenças, vemos? Porquê? Os cientistas são malvados e escondem a cura das doenças?

Não. Por que os testes clínicos, ou seja, quando a droga é data para humanos não demonstraram eficácia.

O que aconteceu quando a hidroxicloroquina foi testada em humanos?

O estudo realizado em Marselha envolveu 42 pacientes internados por CoVid-19, onde 26 receberam hidroxicloroquina (HCQ)  associado ou não a Azitromicina (AZI) e 16 fizeram tratamento padrão. O objetivo era avaliar a carga viral em PCR colhido em swab. 

O gráfico abaixo que mostra a negatividade da carga viral com a terapia, ficou famoso e está sendo mal interpretado, até por médicos.

Estudo de Marselha -  uso de hidroxicloroquina (HCQ) associado ou não a Azitromicina (AZI) no combate ao Coronavírus - Sanar Medicina
Fonte: Gautret et al. (2020) Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID‐19: results of an open‐label non‐randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents – In Press 17 March 2020 – DOI : 10.1016/j.ijantimicag.2020.105949

O que significa, de verdade, os resultados do estudo de Marselha? 

Inegavelmente é uma boa notícia. Mas, Vamos aos fatos:

Fato o número 1 (mais importante de todos): foi um estudo metodologicamente fraco por razões técnicas (heterogêneo, com desfecho Laboratorial e não Clínico, etc…).  Foi importante porque foi o pontapé inicial mas ele está na categoria dos “geradores de hipótese”.

Fato número 2:  seis pacientes do grupo que usou HCQ  foram retirados da análise final por razões metodológicas, sendo que 5 pioraram clinicamente e um até chegou a morrer. O resultado foi 5/26 = 19% de falha. O estudo deve, portanto, inclui essas falhas no resultado final do trabalho. Mas não faz.

Fato o número 3: o desfecho procurado no estudo foi Laboratorial, e até agora nós não temos nenhuma noção de qual é o exame mais acurado para diagnóstico e prognóstico do CoVid-19.

Fato número 4:  sendo um “gerador de hipóteses”, o remédio deve ser usado agora em larga escala e da maneira mais rápida possível para que seja testado como a ciência manda.

Qual o próximo passo para hidroxicloroquina?

O que deve ser feito agora é um estudo em larga escala, multicêntrico randomizado (ou seja, que ninguém selecione pacientes mais graves para um grupo que para outro), de preferência comparado ao placebo.

“Ah, mas em tempos de pandemia isso tem que ser mais rápido e menos burocrático”

Concordo. A burocracia para estudos científicos é enorme, mas visa a ética e o bem  dos participantes. Ela deve existir, mas deve ser reduzida.

O Apple Heart study, conduzido pela Apple através do Apple watch e dos iPhones é um grande exemplo de como a tecnologia pode ajudar fazer grandes estudos em tempo recorde.

“Dois conhecidos  usar o hidroxicloroquina e estão bem” –  o problema da conclusão por observação.

Parábola que ilustra o problema da observação:

 Era Uma Vez garoto Sueco que vivia em um Vilarejo afastado com seu pai Sueco. Sobe é uma casa na vizinhança, Onde viviam uma garota finlandesa e sua mãe finlandesa. 

O menino pensava, em seu pequeno mundo da ingenuidade infantil, que todos os garotos são suecos e todas as garotas são finlandesas. 

Enquanto não houver um estudo estatístico testando a eficácia clínica da HCQ ± AZI, qualquer conclusão que tomarmos será precipitada.

 Uma melhora clínica só pode ser coincidência. Uma piora também. 

Tirinha: 4 a cada 5 pássaros preferem maçãs a janelas - CartoonStock

“Que mal pode haver em usar hidroxicloroquina sem evidências?”

 Inúmeros. No mínimo, é um problema ético.

A formação médica exige responsabilidade. Usar uma terapia não comprovada (ozonioterapia, modulação hormonal, soro da imunidade, etc…). Pode ser até o dia a dia de pseudo-especialistas, mas não é o dia a dia do médico responsável. 

Médico responsável: não se rebaixe a isso.

Paciente informado: não aceite terapias não comprovadas.

O problema dos efeitos adversos

A HCQ, Como toda droga, possui efeitos adversos que podem ser graves. Cito: alargamento do intervalo qt com possível evolução para arritmia as malignas.

E se os efeitos adversos  foram tão graves que suplantem os benefícios clínicos?

Sou paciente, o que devo fazer ?

Deve aguardar o resultado dos estudos clínicos.

Por enquanto, não sabemos se há benefícios.

E se houver, se os benefícios superam os riscos.

Sou médico, o que devo fazer?

Deve aguardar o resultado dos estudos clínicos. 

Por enquanto, não sabemos se há benefícios.

E se houver, se os benefícios superam os riscos.

Dr. José Alencar.
Cardiologista, Arritmologista Clínico e Intervencionista.
CRM-SP:166889, RQE: 68902.
@josenalencar
www.drjosealencar.com.br

Confira o vídeo:

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