Entenda a diferença entre o catarro verde, amarelo e vermelho e as principais suspeitas etiológicas e manejos para o paciente. Bons estudos!
O catarro está intimamente relacionado à semiologia do sistema respiratório. Por isso, entender os sinais e sintomas é fundamental para um raciocínio clínico bem guiado.
Afinal, o que é o catarro?
O catarro também é conhecido como muco, sendo uma secreção resultante das células do trato respiratório. Assim, ao se deparar com a presença de catarro, pensa-se em secreção advinda das vias aéreas superiores e pulmões.
O catarro é um composto por:
- Água;
- Mucina;
- Sais;
- Células mortas;
- Bactérias;
- Vírus;
- Partículas de poeira e outras substâncias estranhas.
Pensando nisso, a cor do catarro pode variar a depender da proporção de cada uma dessas substâncias, ou ainda outras, como o sangue. A presença de infecções ou inflamações é determinante para essa composição também.
Seguindo esse raciocínio, entendemos que o catarro na ausência de infecção e inflamação é incolor. As mudanças desse padrão de coloração indicam processos patológicos no sistema respiratório. Apesar disso, é importante que ele não seja considerado um diagnóstico definitivo, ignorando histórico médico ou mesmo sintomas do paciente.
Porque é importante entender sobre o catarro na prática médica?
O catarro, embora não seja suficiente para diagnóstico, é sim um achado importante. Trata-se de um mecanismo de proteção importante do trato respiratório, colaborando para a proteção das mucosas.
Inicialmente, o catarro oferece informação sobre diagnósticos diferenciais. A análise da sua cor, consistência e odor ajudam o médico a pensar em um possível diagnóstico. Sobre eles, trataremos mais adiante.
Ainda, a cor do catarro pode contribuir no acompanhamento do progresso da doença. Ao se tratar a condição, essas informações são cruciais para determinar se um tratamento com antibióticos é necessário. Uma mudança da cor do catarro de verde ou amarelo intenso para claro ou incolor pode indicar uma melhora na infecção respiratória.
Não menos importante, os médicos podem explicar aos pacientes a relação entre a cor do catarro e as possíveis causas. Ou seja, a avaliação pessoal do paciente sobre a cor do catarro pode tranquilizá-lo ou alertá-lo para uma avaliação mais completa.
Sinais e sintomas associados ao catarro colorido
A depender da condição, além das alterações no muco como viscosidade e cor, sintomas outros podem estar presentes.
Tomando como base a maioria das condições associadas à secreção nasal, podemos citar:
- Tosse, que normalmente é por meio da qual a secreção pode se manifestar;
- Dor de garganta, devido à estase e acúmulo de muco nas vias aéreas, causando irritação;
- Dor no peito, referente a infecções mais graves, como bronquite ou pneumonia;
- Febre, muito comuns em infecções bacterianas.
Estar atendo aos demais sintomas é fundamental para orientar o raciocínio médico. É necessária uma avaliação completa para diagnosticar corretamente a condição subjacente e indicar o tratamento adequado.
Catarro verde: possíveis causas?
Essa cor de escarro está muito relacionada à infecções bacterianas no trato respiratório, de diversas etiologias.
A bronquite bacteriana pode ser o diagnóstico da condição. Trata-se de uma inflamação dos brônquios, muitas vezes causada por bactérias, como Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae ou Moraxella catarrhalis.
A forma crônica da bronquite é ocorre com expectoração durante meses ou anos. A mesma apresentação se assimila à asma brônquica e bronquiectasias.
Outra condição possível é a sinusite bacteriana. Essa é uma infecção dos seios da face, geralmente após uma infecção viral. Os microrganismos comuns envolvidos são também o Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Moraxella catarrhalis.
Pneumonia bacteriana é também uma possibilidade. Essa é uma das formas mais comuns de pneumonia, sendo uma suspeita importante na presença do catarro verde. De maneira geral, as bactérias que mais comumente causam a pneumonia bacteriana são Streptococcus pneumoniae (pneumococo) e Haemophilus influenzae.
Em geral, a pneumonia bacteriana cursa com produção de expectoração de início insidioso. Gradativamente, o volume aumenta, em período de dias ou mesmo semanas.
Catarro amarelo: com que relacioná-lo?
Já o catarro amarela costuma ser muito associado a infecções virais, além das bacterianas.
Infecções virais respiratórias comuns de apresentarem catarro amarelo é o resfriado comum, a gripe e a bronquiolite viral. Os sintomas que acompanham essa apresentação é a tosse e a congestão nasal.
Ainda, infecções bacterianas secundárias podem cursar com o catarro amarelo. A sinusite bacteriana é uma complicação de infecção viral, levando a sintomas como dor facial, pressão nos seios da face, congestão nasal e catarro amarelo.
Catarro vermelho: no que pensar?
A coloração vermelha no escarro costuma ser uma apresentação que exige mais cuidado, merecendo avaliação médica breve. Naturalmente, o paciente costuma se assustar ao visualizar o quadro.
A hemorragia nasal, ou seja, escarro proveniente diretamente da cavidade nasal pode escorrer para a garganta e se misturar ao escarro. Nesse caso, o evento merece ser associado ao quadro clínico do paciente e demais sintomas. Por si só, uma hemorragia nasal pode ser decorrente de um clima pouco úmido, levando a microfissuras em pequenos vasos.
Alguns tipos de infecções respiratórias, como bronquite aguda ou crônica, pneumonia ou tuberculose, podem causar danos nos tecidos das vias aéreas, resultando em sangramento e catarro vermelho.
Traumas ou lesões pulmonares também podem causar sangramento e resultar em secreção sanguinolenta. Isso pode ocorrer devido a acidentes, lesões físicas ou certas condições pulmonares, como embolia pulmonar.
Embora seja menos comum, o câncer de pulmão também pode causar catarro vermelho. Em casos de tumores malignos nos pulmões, o sangramento pode ocorrer e ser eliminado através do muco.
Avaliação clínica e histórico do paciente com catarro?
O primeiro questionamento que fazemos ao nosso paciente com catarro colorido são as características dessa sintomatologia.
As informações mais importantes de serem obtidas são sobre quantidade, aspecto e predominância do sintoma. É importante que o paciente descreva o tempo desde o início da produção secretiva, e se houve alteração até o momento. Três condições poderão apresentar-se ao profissional de saúde, ou seja, o início agudo, subagudo ou crônico da eliminação de material através da tosse.
O período de predominância da expectoração também é importante, e oferecem pistas diagnósticas. No período matutino, logo após acordar, é característica de doenças supurativas crônicas como bronquiectasias e bronquite crônica.
O decúbito pode precipitar a eliminação de secreção das vias aéreas. As bronquiectasias cursam com essa apresentação, além de outros diagnósticos menos graves, como a gripe. Isso se deve à anatomia do trato respiratório, cuja drenagem ocorre melhor em determinadas posições.
Em oposição, pensando em quadros mais graves, a eliminação súbita de grande quantidade de secreção fala a favor de fístulas. Essa manifestação se denomina vômica, ocorrendo principalmente em casos de abcessos pulmonares.
Exames complementares: o que solicitar?
A seleção de exames solicitados deve se pautar nos sintomas do paciente e nas possibilidades diagnósticas. É importante que essa decisão seja objetiva, sem submeter o paciente a diversos procedimentos desnecessários.
O hemograma completo pode ser útil para a avaliar a presença de infecção e inflamação orgânica. Sendo conhecida uma causa base, pensar em marcadores inflamatórios ou até mesmo tumorais podem fazer parte das solicitações.
Nessa perspectiva, a cultura de escarro pode identificar bactérias, fungos ou outros micro-organismos que possam estar causando a infecção respiratória. Algumas bactérias identificáveis são Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae, além de fungos como Aspergillus spp.
Ainda, a radiografia de tórax é comumente solicitada para avaliar a presença de anormalidades nos pulmões, como pneumonia, bronquite crônica, tumores ou outras condições que possam explicar o catarro colorido.
Já a tomografia computadorizada (TC) pode fornecer imagens mais detalhadas ainda dos pulmões. Por meio dela, consegue-se visualizar infiltrados pulmonares, consolidação, bronquiectasias ou mesmo massas tumorais. Todas esses achados estão associados ao catarro vermelho e verde.
Outro exame importante e rotineiro em muitos casos, tem-se a broncoscopia. Em situações em que suspeitas mais graves ou outras investigações não são conclusivas. Esse procedimento envolve a inserção de um tubo fino e flexível através das vias aéreas para visualização direta dos pulmões e coleta de amostras de tecido.

Culturas de amostra de catarro
A cultura de escarro é um procedimento de coleta da secreção por meio de uma tosse profunda, proveniente das vias respiratórias inferiores. A amostra é armazenada em frasco estéril, e enviado ao laboratório rapidamente. Lá é processado e inoculado em meios de cultura adequados, permitindo o crescimento e identificação dos microorganismos.
As culturas devem ser solicitadas em suspeita s de infecções respiratórias mais graves, como tuberculose e infecções fúngicas pulmonares. A cultura de escarro também é eficaz para avaliar a evolução do tratamento, identificando a eliminação do agente infeccioso.
Outra indicação para as culturas é melhor compreender as infecções recorrentes. Diante disso, é fundamental ter conhecimento da causa subjacente da condição para melhor abordá-lo.
A cultura de escarro é capaz de identificar diversos agentes infecciosos, como bactérias, fungos e micobactérias. No entanto, a cultura não é capaz de identificar agentes virais, sendo necessária a realização de PCR ou outros testes próprios para agentes virais.
Tratamento para o catarro: manejo das diferentes causas
Como vimos, muitas são as possíveis origens etiológicas do catarro colorido. Por isso, o tratamento está diretamente relacionado à condição básica. Alguns exemplos das principais etiologias são:
- Infecções respiratórias bacterianas
- Os antibióticos são o principal tratamento. O tipo específico de antibiótico depende do microorganismo identificado na cultura do escarro. A partir disso, o espectro de ação do medicamento é escolhido.
- Infecções respiratórias virais
- Nesse caso, como são autolimitadas, faremos o tratamento se suporte. Em sua maioria sendo infecções virais, como resfriados ou gripes, não requerem tratamento específico. Por isso, orienta-se repouso, hidratação adequada, analgésicos e antitérmicos para aliviar os sintomas.
- Infecções fúngicas pulmonares
- Medicações antifúngicas são indicados para combater o crescimento do fungo, como na aspergilose pulmonar. O tipo e a duração do tratamento dependerão do tipo de fungo envolvido e da gravidade da infecção.
- Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e bronquite crônica
- Os broncodilatadores, como os beta-agonistas e os anticolinérgicos, podem ser prescritos para aliviar os sintomas de obstrução das vias aéreas, reduzir a produção de muco e melhorar a respiração.
- Asma
- A fim de controlar reação inflamatória, o uso de corticoides inalatórios é útil na regressão de secreção excessiva de muco e de sintomas associados.
Para outras condições pulmonares, são necessários tratamentos mais específicos. Ainda, o tempo de duração e acompanhamento dependerão da gravidade e ciclo da doença.
Importância do seguimento adequado e encaminhamento para especialistas
Após indicado o tratamento adequado para a condição base do catarro, a sequência de encaminhamento para o especialista é fundamental.
É com o especialista que o monitoramento da doença pode ser melhor avaliado, especialmente em casos de massa tumoral e doenças obstrutivas e restritivas.
O gerenciamento dos sintomas, ajustando doses de medicações ou mudanças de orientações diárias também favorece uma boa evolução. Não menos importante, a prevenção de complicações se baseia em uma boa relação médico-paciente, com recomendações que merecem ser seguidas.

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Perguntas frequentes
- Quais são algumas possíveis etiologias do catarro amarelo?
Infecções bacterianas, como sinusite bacteriana, bronquite bacteriana, pneumonia bacteriana. - Quais exames podem ser solicitados para investigar a causa do catarro amarelo?
Cultura de escarro, hemograma completo, radiografia de tórax. - Quais são os tratamentos comuns para o catarro amarelo?
Antibióticos para infecções bacterianas, medicamentos broncodilatadores para condições respiratórias, medidas de suporte, como hidratação e repouso, para infecções virais.
Referências
- Semiologia do Aparelho Respiratório: Importância da Avaliação do Escarro. Rosemeri Maurici da Silva.
- II Diretrizes Brasileiras no Manejo da Tosse Crônica.