Psiquiatria

Resumo de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT): epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento

Resumo de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT): epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento

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Sanar

7 min há 127 dias

Definição

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é um tipo de distúrbio de ansiedade que se caracteriza por efeitos somáticos, com sinais e sintomas físicos, cognitivos, afetivos e comportamentais complexos decorrente de uma situação traumática.

O TEPT se manifesta através de pensamentos intrusivos, pesadelos e flashbacks de eventos traumáticos passados, evitação de lembretes do evento, hipervigilância e distúrbios do sono,que causam considerável disfunção social, ocupacional e interpessoal. Comumente, ao se recordar do fato, o indivíduo revive o episódio e todos os sentimentos envolvidos como se estivesse vivenciando atualmente. Essa recordação é conhecida como revivescência. 

O diagnóstico de TEPT pode ser desafiador em virtude da heterogeneidade da apresentação e da resistência do paciente em discutir (e muitas vezes reviver) traumas anteriores. Associado a isso, muitas vezes esse distúrbio está associado a outras psicopatologias, como a depressão maior. 

Epidemiologia do TEPT

A frequência da ocorrência de TEPT é muito variável, além do subdiagnóstico pela resistência do indivíduo em abordar o assunto. Sabe-se que sua ocorrência está muito relacionada às características da pessoa e com as características do evento que desencadeou o trauma. 

Por exemplo, eventos traumáticos intencionais acarretam mais o desenvolvimento do distúrbio que traumas ocasionais/não intencionais. Também é de conhecimento que as taxas mais altas de desenvolvimento de TEPT estão associadas a estupro, sobreviventes de combate e captura milicar, como em sobreviventes de campo de concentração.

Esse transtorno pode ocorrer em qualquer faixa etária.

Fatores de risco e tipos de trauma

A probabilidade de desenvolver TEPT e a apresentação do transtorno parecem ser afetados por uma série de fatores de risco individuais e sociais. Os fatores de risco de pré trauma incluem:

  • Gênero
  • Idade no trauma
  • Menos educação
  • Baixo status socioeconômico
  • Estado civil
  • Histórico de traumas recorrentes
  • Infância conturbada
  • Abuso infantil
  • Histórico psiquiátrico pessoal e familia
  • Rede de apoio frágil

Além disso, vários são os tipos de evento que podem desencadear um trauma. Os mais envolvidos são:

  • Agressão sexual 
  • Traumas infantis
  • Conflito em massa e deslocamento, como nos casos de refugiados e guerras civis
  • Lesão física
  • Doença médica grave, como AVC, IAM e permanência em UTI
  • Desastres naturais

Fisiopatologia  de TEPT

A fisiopatologia exata do desenvolvimento de TEPT não é bem esclarecida. Alguns estudos que utilizaram imagens de ressonância magnética mostraram que ocorre diminuição do volume do hipocampo, da amígdala esquerda e do córtex cingulado anterior nestes pacientes. 

Além disso, detectaram também aumento dos níveis de norepinefrina central com receptores adrenérgicos centrais regulados para baixo e níveis reduzidos de glicocorticóides. Existe ainda a suspeita de influência genética no desenvolvimento desse transtorno. 

Outra suspeita, que também não possui o mecanismo de desenvolvimento claro, é que a exposição anterior ao trauma parece aumentar o risco de desenvolver TEPT com eventos traumáticos subsequentes.

Quadro clínico  de TEPT

Normalmente, o quadro clínico é dividido na manifestação de sintomas dentro de quatro categorias, após a ocorrência de um evento traumático. Esses sintomas costumam se manifestar nos primeiros três meses após o evento. Podem ser caracterizados como:

  • Sintomas intrusivos – são a marca registrada do TEPT, e incluem memórias indesejadas involuntárias ou pesadelos frequentes. Esses sintomas geralmente estão associados a sofrimento psicológico substancial, como medo ou pânico.
  • Sintomas de evitação – a pessoa evita qualquer tipo de pensamento, atividade, situação ou pessoas que possa lembrá-la do evento traumático. Esse comportamento afeta sua vida pessoal e profissional, comprometendo o funcionamento da vida diária
  • Sintomas negativos sobre o pensamento e o humor – depressão e alterações negativas do humor costumam ser os sintomas iniciais. Também pode ocorrer a amnésia dissociativa, que é quando a pessoa não se lembra de partes do evento. Pode haver também uma percepção distorcida do trauma, que muitas vezes se manifesta associada ao sentimento de culpa. 
  • Alterações de excitação e reatividade  – a pessoa pode apresentar inicialmente sintomas de irritabilidade ou comportamentos físicos e verbais agressivos, além de comportamentos imprudentes e autodestrutivos. Também podem manifestar dificuldades para dormir ou para se concentrar em atividades cotidianas, podendo se tornar excessivamente vigilante.

Alguns pacientes podem possuir um subtipo dissociativo de TEPT. Nesses casos, estão associados a níveis mais elevados de comprometimento, comorbidade e risco de suicídio do que no TEPT sem sintomas dissociativos. Esses sintomas incluem:

  • Despersonalização – A pessoa se sente desconectada de seu corpo, como se seu corpo não fosse dele (a). 
  • Desrealização – A pessoa sente como se o mundo ao seu redor não fosse real, como se vivessem num constante sonho.

Diagnóstico de TEPT

O diagnóstico, segundo o DSM-5, consiste em:

  •  Exposição a episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual 
  •  Presença de um (ou mais) dos sintomas intrusivos associados ao evento traumático, começando depois de sua ocorrência 
  • Evitação persistente de estímulos associados ao evento traumático
  • Alterações negativas em cognições e no humor associadas ao evento traumático começando ou piorando depois da ocorrência de tal evento
  • Alterações marcantes na excitação e na reatividade associadas ao evento traumático, começando ou piorando após o evento 
  • Persistência das alterações por mais de 1 mês
  • A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo e prejuízo social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo
  • A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo e prejuízo social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo

Tratamento  de TEPT

O tratamento de TEPT, de modo geral, inclui suporte psicossocial – principalmente através da terapia cognitivo comportamental -, proteção contra estresse e traumas adicionais e uso de psicofármacos. Os objetivos da terapia farmacológica  consistem na diminuição de pensamentos e imagens intrusivas, evitação fóbica, hiperexcitação patológica, hipervigilância, irritabilidade e raiva e depressão. 

Nesse caso, os antidepressivos são considerados o tratamento de primeira linha, ainda que a pessoa não apresente o transtorno depressivo maior associado. Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs) – como a fluoxetina, sertralina, paroxetina, escitalopram – são eficazes na redução dos sintomas de TEPT. Os inibidores da recaptação da serotonina-norepinefrina (IRSNs) também podem ser utilizados.

Alguns sintomas, como  insônia e os pesadelos, podem ser tratados com antipsicóticos, como a  olanzapina e a quetiapina. Bloqueadores dos receptores alfa-adrenérgicos, como a prazosina, também parecem reduzir os sintomas gerais de TEPT, pesadelos e distúrbios do sono.

Os benzodiazepínicos não se mostraram úteis no tratamento de TEPT.  

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Referências:

DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Edição: 5. Editora: Grupo A Selo: Artmed. Autor(es): American Psychiatric Association. Acesso em: 13 de maio de 2021.

SAREEN, Jitender. Posttraumatic stress disorder in adults: Epidemiology, pathophysiology, clinical manifestations, course, assessment, and diagnosis. UpToDate, Inc., 2021. Acesso em: 13 de maio 2021.

STEIN, Murray. Pharmacotherapy for posttraumatic stress disorder in adults. UpToDate, Inc., 2021. Acesso em: 13 de maio 2021.

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