Psiquiatria

Tudo que você precisa saber sobre transtorno esquizoafetivo

Tudo que você precisa saber sobre transtorno esquizoafetivo

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Duas patologias psiquiátricas muito comuns e muito discutidas no meio profissional e social são o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) e Esquizofrenia. Na prática clínica podemos, por vezes, nos depararmos com pacientes portadores de um transtorno à parte, que pode simular diagnósticos errôneos dos distúrbios supracitados; trata-se do chamado Transtorno esquizoafetivo.

O termo “esquizoafetivo” foi introduzido pelo psiquiatra russo Jacob S. Kasanin em um artigo publicado no ano de 1933. E é utilizado até os dias de hoje no meio profissional para definir esse distúrbio que une em sua apresentação os sintomas de humor e os sintomas psicóticos.

Por mais que se assemelhe e se apresente como uma “fronteira” entre a psicose e a afetividade, não podemos definir o transtorno esquizoafetivo como sendo somente uma espécie de “fusão” do TAB com a esquizofrenia. Essa condição deve ser encarada como um diagnóstico à parte e que possui os seus critérios de forma independente dos transtornos que se assemelha.

Epidemiologia

Estima-se que menos de 1% das pessoas apresente o diagnóstico de Transtorno Esquizoafetivo. Tratando-se da questão de gênero, a prevalência é de 1:1 no subtipo bipolar, enquanto no subtipo depressivo a prevalência é de 2:1, sendo o sexo feminino o mais afetado. Pacientes mais jovens tendem a manifestar o subtipo bipolar, enquanto pacientes mais velhos tendem para o subtipo depressivo.

Etiologia

Como em muitos outros transtornos psiquiátricos, a etiologia do transtorno esquizoafetivo se pauta em muitas hipóteses e poucas conclusões. Alguns estudos sugerem como hipótese uma etiologia genética, na qual pacientes com histórico familiar de esquizofrenia e TAB estão mais sujeitos ao desenvolvimento de um quadro esquizoafetivo, podendo a influência mutável dos genes contribuir com o início do curso do quadro.

Já quando de fala em alterações neurológicas no paciente com transtorno esquizoafetivo os estudos são ainda mais escassos. Alguns sugerem que parte desses pacientes podem apresentar uma redução do córtex pré-frontal e do hipocampo e, eventualmente, uma deterioração neurocognitiva.

Por fim, estudos também sugerem que eventos de vida como perda familiar, divórcios, ausência de uma figura materna durante a infância e histórico de tentativas de suicídio podem influenciar no desenvolvimento do transtorno. No entanto, tais asserções ainda necessitam de mais pesquisas para confirmar os seus reais impactos no curso patológico.

Devido à necessidade de mais estudos científicos, a real causa do transtorno esquizoafetivo permanece desconhecida. Até o presente momento, a hipótese de alterações genéticas associadas a fatores ambientais aparenta ser a melhor aceita.

Tipos de transtorno esquizoafetivo

Como em muitas outras patologias, nem todos os pacientes se apresentarão da mesma forma, para isso, os pacientes esquizoafetivos são divididos em dois principais subtipos:

  1. Subtipo bipolar: quando um episódio maníaco faz parte da apresentação. Nesse subtipo pode existir a ocorrência de episódios depressivos.
  2. Subtipo depressivo: quando somente episódios depressivos maiores fazem parte da apresentação, não havendo sintomas de mania.

Caracteriza-se o por psicose, outros sintomas da esquizofrenia e sintomas do humor significativos. É diferenciado da esquizofrenia pela ocorrência de ≥ 1 episódio de depressão ou mania ao longo da vida de uma pessoa.

Psicose refere-se a sintomas como delírios, alucinações, pensamento e fala desorganizados, e comportamento motor bizarro e inapropriado (incluindo catatonia) que indicam perda de contato com a realidade.

Considera-se o transtorno esquizoafetivo quando os sintomas de psicose e de humor coexistem. O diagnóstico requer que existam sintomas de humor significativos (depressivos ou maníacos) por > 50% da duração total da enfermidade, simultaneamente com ≥ 2 sintomas de esquizofrenia (delírios, alucinações, desorganização da fala, comportamento catatônico ou excessivamente desorganizado e/ou sintomas negativos).

Diagnóstico

O DSM-5 nos traz como critérios diagnósticos os seguintes pontos:

  • Deve haver um período ininterrupto em que haja concomitantemente um episódio depressivo e/ou maníaco e o critério A da esquizofrenia.
  • Deve haver a presença de delírios e/ou alucinações por pelo menos 2 semanas na ausência de episódio maníaco ou depressivo vigente.
  • Os sintomas afetivos devem estar presentes na maior parte da duração da fase ativa da doença.
  • Os sintomas psicóticos não podem estar relacionados ao uso de substâncias ou a outras condições clínicas.

Diagnóstico diferencial

Quando tratamos dos possíveis diagnósticos diferenciais do transtorno esquizoafetivo, imediatamente pensamos nos dois principais: TAB e esquizofrenia. Contudo, outros transtornos comuns no meio profissional podem apresentar semelhanças que podem causar confusão no diagnóstico de pacientes esquizoafetivos.

Transtorno afetivo bipolar
Esquizofrenia
Depressão psicótica
Transtorno psicótico breve
Transtorno esquizofreniforme
Transtorno por uso de substâncias
Psicose secundária a causas orgânicas

Diagnósticos diferenciais do transtorno esquizoafetivo

Primeiramente podemos questionar: o que existe neste transtorno que não existe no TAB ou na depressão psicótica? A resposta seria o chamado componente esquizofrênico. Mesmo sabendo que no TAB pode haver sintomas psicóticos, é necessário frisar que estes se apresentam apenas na vigência de uma crise de humor (mania ou depressão), enquanto no esquizoafetivo a psicose pode se manifestar fora das crises de humor.

Além disso, as crenças delirantes do transtorno esquizoafetivo tendem a ser distintas dos delírios do TAB. São comumente bizarros e geralmente acompanhados de pensamento desorganizado.

Sintomas

Os sintomas psicóticos no TAB tradicionalmente são congruentes com o humor: delírios místico-religiosos e de grandeza na mania, e de ruína/niilista/culpa na depressão. Não raros são os episódios em que a psicose no transtorno esquizoafetivo não conflua com o episódio de humor corrente.

Já quando falamos da distinção entre o paciente com esquizofrenia e o paciente esquizoafetivo, a principal característica que difere esses transtornos é a alteração do humor. É mandatório que o paciente com transtorno esquizoafetivo tenha manifestação de sintomas de humor, seja para o polo da mania, seja para o polo da depressão.

O paciente esquizofrênico pode cursar com sintomas de humor durante o curso patológico, entretanto, esses costumam ser mais breves, podendo ocorrer na chamada fase prodrômica. Deve-se tomar cuidado no processo de investigação diagnóstica para não confundir os sintomas negativos da esquizofrenia com os sintomas de humor presentes no esquizoafetivo. O mesmo vale para outros transtornos psicóticos, como o transtorno psicótico breve e o esquizofreniforme; nesses transtornos, a máxima de que os sintomas de humor não perduram durante a maior parte do curso da doença como no esquizoafetivo permanece.

Tratamento para transtorno esquizoafetivo

O primeiro passo diante de um paciente com sintomas compatíveis é a realização de uma boa entrevista psiquiátrica. Averiguar se o paciente preenche os critérios diagnósticos, o seu histórico pessoal e familiar e os eventos de vida dele são fundamentais para traçar uma conduta e um tratamento adequado para esse paciente. Lembre-se sempre que o paciente esquizoafetivo necessita ser reavaliado constantemente, visto que o curso patológico pode ser modificado. Mudanças nas medicações, nas dosagens e nas abordagens psicoterapêuticas podem ser necessárias e devem ser feitas dependendo de cada caso.

Farmacoterapia

Não existe tratamento medicamentoso específico para os pacientes esquizoafetivos. Sendo assim, nos cabe tratar nesses indivíduos os diagnósticos sindrômicos que eles apresentam. A sintomatologia do transtorno esquizoafetivo é composta por três grandes síndromes: a síndrome psicótica, a síndrome maníaca e a síndrome depressiva.

Logo, quando falamos de tratamento medicamentoso, deve vir em nossa menta as três classes medicamentosas mais utilizadas para tratar essas síndromes, ou seja, os antipsicóticos, os estabilizadores de humor e os antidepressivos. A partir daí a conduta pode variar, entre usar somente uma classe medicamentosa ou a combinação de duas ou três. Lembrando sempre que o principal objetivo do tratamento medicamentoso é o controle dos sintomas psicóticos e de humor.

MedicaçãoClassePosologia usual
ZiprasidonaAntipsicótico atípico80 – 160 mg
OlanzapinaAntipsicótico atípico5 – 20 mg
RisperidonaAntipsicótico atípico2 – 6 mg
PaliperidonaAntipsicótico atípico6 – 12 mg
QuetiapinaAntipsicótico atípico200 – 800 mg
ClozapinaAntipsicótico atípico300 – 900 mg
ClorpromazinaAntipsicótico atípico300 – 600 mg
AripiprazolAntipsicótico atípico10 – 30 mg
HaloperidolAntipsicótico típico5 – 15 mg
LítioEstabilizador do humor600 – 1800 mg
CarbamazepinaAnticonvultivantes / Estabilizador do humor400 – 800 mg
ValproatoAnticonvultivantes / Estabilizador do humor500 – 2000 mg
FluoxetinaInibidor da recaptação de serotonina20 – 80 mg
SetralinaInibidor da recaptação de serotonina55 – 200 mg
AmitriptilinaAntidepressivo tricíclico75 – 250 mg

Medicações utilizadas no tratamento do transtorno esquizoafetivo

Estudos indicam que a primeira linha de tratamento de um paciente com deve ser um antipsicótico em monoterapia, preferencialmente aqueles que possuem ação nos sintomas afetivos. Prioriza-se então nesses casos o uso de antipsicóticos atípicos.

Todos esses antipsicóticos são utilizados na chamada fase aguda do tratamento, podendo também ser mantidos na fase de manutenção. Seu uso também é recomendado por possuírem efeitos estabilizadores de humor, necessários nos casos de ciclagem.

Na fase de manutenção do tratamento, a escolha da classe medicamentosa a ser utilizada varia de acordo com o subtipo apresentado. Geralmente no subtipo bipolar faz-se associação de antipsicóticos e estabilizadores de humor, enquanto no subtipo depressivo, associa-se antipsicóticos aos antidepressivos.

Mesmo em pacientes com o subtipo depressivo, o uso de antidepressivos ainda deve ser visto com cautela. Assim como no TAB, existe o risco de medicações antidepressivas induzirem quadros maníacos. É necessário frisar que ainda não existem evidências suficientes que comprovem que a combinação de um antipsicótico com um antidepressivo seja superior ao uso de um antipsicótico em monoterapia.

Durante o tratamento na fase de manutenção, alguns pacientes, mesmo em uso adequado das medicações, podem apresentar recaídas, podendo ter uma refratariedade na sintomatologia afetiva. Além disso, um antipsicótico que aparenta ter benefícios em casos refratários é a clozapina.

Um tratamento não medicamentoso, mas que cabe ser citado aqui, é o uso de eletroconvulsoterapia (ECT). A ECT pode ser útil em casos refratários, mesmo com mudança do esquema e em pacientes que apresentam instabilidade persistente dos sintomas maníacos.

Tratamento não farmacológico para transtorno esquizoafetivo

Ainda não se sabe ao certo os reais efeitos de uma abordagem psicossocial no paciente com transtorno esquizoafetivo. Alguns estudos apontam benefícios da terapia familiar e da reabilitação cognitiva nesses pacientes.

É necessário, diante de um paciente com um quadro com vários desafios sociais, que a família esteja presente em todos os momentos, desde o diagnóstico até a manutenção do tratamento. Tal apoio é necessário inclusive para auxiliar o paciente a compreender o seu quadro e realizar o tratamento de forma adequada. O profissional deve visar sempre ser franco com o paciente e seus familiares na hora de relatar o diagnóstico e o prognóstico do paciente, visto que ambos ainda são dotados de incertezas. Buscar reinserir esses indivíduos na sociedade no momento adequado também é de suma importância; um treinamento de habilidades e uma reabilitação cognitiva podem ser úteis nesse processo de reinserção.

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Perguntas Frequentes:

1 – O que é Transtorno esquizoafetivo?
Caracteriza-se por psicose, outros sintomas da esquizofrenia e sintomas do humor significativos. É diferenciado da esquizofrenia pela ocorrência de ≥ 1 episódio de depressão ou mania ao longo da vida de uma pessoa

2 – Como fazer o diagnóstico?
O diagnóstico é realizado através de critérios diagnósticos.

3 – Qual o tratamento?
Frequentemente, uma combinação de fármacos, psicoterapia e suporte comunitário.

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