Residência Médica

Rotina da residência de Medicina de Família e Comunidade

Rotina da residência de Medicina de Família e Comunidade

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Sanar Residência Médica

15 minhá 137 dias

A rotina da residência de Medicina de Família e Comunidade envolve a abrangência necessária para essa especialidade. Isso porque esse profissional presta assistência à saúde continuada e integral, com foco na pessoa, na família e, claro, com orientação à sua comunidade.

Como mostra a Demografia Médica no Brasil 2018, do Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil possui 5.486 especialistas na área (2,64 por 100 mil habitantes). No caso da residência médica, 1.554 médicos eram residentes dessa especialidade, que possui 5.943 vagas autorizadas. Medicina de Família e Comunidade é a primeira opção para apenas 1,5% dos recém-formados, indica o mesmo levantamento.

Para você saber mais sobre como é a rotina do residente de Medicina de Família e Comunidade, a Sanar Residência Médica conversou com dois deles: 

  • Fabio Nunes, do R2 da ESPBA (Escola de Saúde Pública da Bahia);
  • José Venâncio, do R1 da SMS Salvador (Secretaria Municipal de Saúde). 

Tem muita coisa para você saber antes de escolher a residência em Medicina de Família e Comunidade. Então veja agora mais detalhes sobre essa especialidade e faça a sua escolha!

A escolha da residência de Medicina de Família e Comunidade

Fabio afirma que Medicina e Saúde da Família sempre foi a área que mais gostou, desde a faculdade. De acordo com ele, o trabalho do médico generalista, que visita e atende os mais diversos tipos de pacientes é algo que o motivou a escolher a residência nessa especialidade. 

“Eu via a atuação do médico que cuida de todo mundo, independente da idade, aquela coisa bem generalista de médico que vai na casa das pessoas. Sempre gostei. Além disso, a residência, em Salvador, paga uma complementação além da bolsa. Então, era uma forma de ver se era o que eu realmente queria e ganhar um valor maior que a bolsa geralmente recebida nos programas”, acrescenta. 

Em Salvador, existem cinco instituições que oferecem residência médica em Medicina de Família e Comunidade: ESPBA, Escola Bahiana de Medicina, Ufba, FTC e SMS Salvador. Segundo Fábio, não há muita diferença entre os programas oferecido. Por isso, a escolha pela ESPBA ocorreu somente porque uma colega falou bem da instituição.

“Ela falou que era boa e eu escolhi. Nossa residência é em posto de saúde, não em ambiente hospitalar. Você trabalha no posto, que é da cidade, e as aulas são de responsabilidade da instituição, mas o programa de aprendizado, mesmo, é bem similar. A única diferença que faz é o bairro onde você vai trabalhar”, explica. 

De forma similar, José diz que sempre gostou muito da área de atenção primária e se perguntava em que parte da Medicina mais se encaixava. Por considerar a Medicina de Família e Comunidade uma área diferenciada das demais, optou por se especializar. 

“A Medicina de Família é um tripé: prevenção quaternária, Medicina baseada em evidências e método clínico centrado na pessoa. Trabalhamos pensando nos tipos de prevenção, pautados no que é cientificamente comprovado e aplicando o que sabemos de acordo com a realidade de cada pessoa. Focamos na pessoa e não no procedimento em si”, comenta.

José também conta que a escolha pela SMS Salvador ocorreu pelo reconhecimento da instituição. Ao mesmo tempo, a opção foi por ser um programa que oferece maior número de preceptores por residente.

“Falamos que é uma preceptoria ombro a ombro, na proporção de um para dois ou um para três residentes. Na pandemia, esse processo de trazer mais preceptores ficou mais difícil, mas tem unidades de outras residências em Salvador, por exemplo, que os preceptores não estão tão presentes”. 

Como a residência é dividida 

Com acesso direto, a residência de Medicina de Família e Comunidade tem duração de dois anos e é organizada em modelos de programas variados. Entre a vasta matriz de competências definida pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), o R1 e R2 da especialidade traz a seguinte divisão:

  • R1: planejar e avaliar uso de recursos de saúde em coordenação com outros profissionais no contexto da atenção primária e da gestão da interface com outras especialidades, assumindo um papel de defesa pelo paciente; avaliar problemas de saúde agudos e crônicos apoiados em um conceito ampliado de saúde; dominar a realização de diagnóstico situacional de saúde por meio de instrumentos de abordagem comunitária (ECOMAPA, Diagnóstico de Demanda, Estimativa Rápida Participativa, técnicas de georreferenciamento); entre outras;
  • R2: avaliar os aspectos históricos, concepções, políticas públicas e modelos técnico-assistenciais da Atenção Primária à Saúde; dominar a construção de plano terapêutico individualizado, propondo estratégias à maior adesão terapêutica; dominar o diagnóstico de situações de gravidade que requerem avaliação mais abreviada e intervenção imediata; demonstrar abordagem para doenças com componente psicossocial.

Fábio explica que, na ESPBA, não há muita diferença entre o R1 e o R2. Os residentes assumem uma Unidade de Saúde da Família da prefeitura ao longo dos dois anos. São 32 horas semanais em posto de saúde, 20 horas em aulas teóricas e 8 horas em rodízios externos. O objetivo é transitar entre grandes especialidades.

“O que muda são os rodízios externos, ou seja , o local onde vai trabalhar. No R1, eu fiz na Pediatria do [Hospital] Roberto Santos, Geriatria no Creasi, fiz ambulatório de comunidade da [Faculdade] Bahiana de Medicina, Obstetrícia na Climério de Oliveira, e por aí vai. No início do R2, ia fazer no cedap. Mas aí veio a pandemia e eu não rodei em nenhum rodízio”, detalha. 

As aulas teóricas ocorrem duas vezes por semana, à noite, na sede da ESPBA. Porém, em 2020, elas estão sendo realizadas virtualmente por conta da pandemia.

“Vemos os assuntos mais gerais da Medicina, mas de forma mais aprofundada que na faculdade. Há muita discussão de casos, com foco na conduta do médico diante das situações que levamos”, enfatiza Fábio.

Na SMS Salvador, os residentes do R1 passam os dois primeiros meses, de segunda a sexta-feira, na Unidade de Saúde de Família. A ideia é se ambientar, conhecer a equipe na qual vão trabalhar e o processo de trabalho. 

Após esse período inicial, todos passam a trabalhar de três a quatro dias da semana na Unidade. Por fim, o resto do tempo é preenchido em estágios externos como Geriatria, Puericultura, Pré-natal de alto risco, Banco de leite, entre outros.

No segundo ano, os estágios estão mais voltados para saúde mental e gestão. “Rodamos no consultório na rua, e nos dividimos entre as três equipes que trabalham lá. Também rodamos no Caps II Pau da Lima e temos o estágio de gestão, que pode ser no distrito ou a nível de secretaria municipal. Isso varia bastante, cada residente fica em um setor diferente”, detalha José.

Os residentes trabalham em equipes multidisciplinares formadas por dentistas, médicos, enfermeiros, agentes comunitários e auxiliares de saúde bucal. O trabalho é desenvolvido em território e permite que os profissionais conheçam melhor a realidade dos pacientes e, ao mesmo tempo, os determinantes sociais de saúde. 

“É importante saber o que é a doença e quem é a pessoa que tem a doença. Por exemplo, você tentar manejar a doença de uma pessoa que tem pressão alta e diabetes é uma coisa, mas saber que essa pessoa não tem dinheiro para comer, mora em um casebre, não tem estrutura e teve filhos assassinados há alguns meses, é outra. Se eu não sei quem é a pessoa e por que não está controlando [a doença], eu não consigo exercer a medicina plenamente”.

Assim como ocorreu na ESPBA, os estágios externos da SMS Salvador foram prejudicados pela pandemia do novo coronavírus. Até novembro de 2020, os residentes tiveram de cancelar a agenda para atender demandas espontâneas e pacientes sintomáticos respiratórios da Unidade de Saúde da Família. 

Alinhando as principais expectativas

Fábio revela que a sua maior expectativa estava no aprendizado que iria adquirir. Afinal, escolheu uma especialidade com foco no atendimento generalista, o que demanda muito conhecimento.

“Esperava pegar um pouco das grandes áreas da medicina, integrar o conteúdo e tratar a pessoa e sua família como um todo. Queria gerenciar o cuidado com a pessoa e assumir uma equipe. Felizmente, tudo isso eu consegui fazer”, conta.  

Sobre o suporte tutorial na residência, Fábio admite que teve de aprender muita coisa sozinho. O programa tem uma deficiência no número de preceptores disponíveis por residente, de acordo com o médico. 

“A ideia da residência é que tenha um preceptor para te auxiliar, porque teoricamente você está em processo de aprendizado. Isso aqui em Salvador deixa a desejar. Mas entendo que é falta de material humano, mesmo, porque não existe médico de Saúde da Família suficiente para ser preceptor. Estima-se que nos próximos anos isso será corrigido, porque há mais pessoas concluindo a residência”, analisa. 

José comenta que, ao se imaginar na residência médica, foi de coração aberto para as experiências que estavam por vir. Seu principal objetivo estava em adquirir uma formação sólida para que se tornasse um médico melhor.

“Eu tinha expectativa de poder lidar melhor com a população que atenderia. Conhecer de fato essas pessoas e praticar um cuidado mais humanizado, sempre me aperfeiçoando na Clínica Médica e tentando minimizar os efeitos dos determinantes sociais de saúde. 

Ao ser perguntado se teve as expectativas atendidas, José afirma que nenhuma residência médica é perfeita, mas está satisfeito com o que está vivendo. “Encontrei meu lugar no mundo, é isso aqui que eu queria, mesmo”.

O melhor da residência em Medicina de Família e Comunidade

Para José, a melhor parte de sua residência em Medicina de Família e Comunidade está na possibilidade de trabalhar com uma competente e generosa equipe de trabalho. Além disso, existe o aprendizado adquirido com o auxílio dos preceptores. 

“A preceptoria que eu tenho é essencial porque todos os preceptores são médicos de Família formados. Então consigo aprender muito com eles. Além disso, o ponto forte é o fortalecimento da atenção primária, porque há uma cobertura muito baixa de Saúde da Família em Salvador, e as residências estão ajudando a fortalecer a cobertura da atenção primária e atender a população que mais precisa”.

Da mesma forma, Fábio diz que o ambiente de trabalho é amistoso, com pessoas dispostas a ajudar, e destaca que tem aprendido bastante ao longo do programa. Segundo ele, a residência está sendo essencial, pois o prepara para oferecer o melhor atendimento a seus pacientes.

“ O melhor é que você tem praticamente 100% das atividades na prática. Tem as aulas teóricas para complementar, mas passa a maior parte do tempo na prática. Então, você sai de lá pronto para atuar em qualquer unidade de atenção básica do SUS do país, porque você tem a vivência total”, enfatiza.

O mais difícil 

A residência em Medicina de Família e Comunidade tem pontos positivos e alguns negativos, como qualquer especialidade. Fábio comenta que a pior parte de seu programa é a falta de acompanhamento de preceptores.

“Não ter o preceptor em alguns momentos não é problema. Às vezes, conseguimos tirar dúvidas com um colega ou usar aplicativos, como o da Sanar. Mas quando você não tem o exemplo de alguém experiente, o olhar de alguém que é especialista, às vezes você está se prejudicando mais do que pensa”, explica. 

José, por sua vez, fala que a pandemia comprometeu alguns aspectos da atenção primária, pois os residentes não puderam fazer visitas domiciliares, reuniões de equipes e agrupar pacientes. Além disso, relata que a grande quantidade de pacientes, às vezes, o deixa ansioso.

“Cada equipe em que nos inserimos é responsável por 4 mil pessoas, então bate uma ansiedade sobre como cuidar dessa quantidade. É uma responsabilidade muito grande e dá um pouquinho de trabalho”.

Expectativa de trabalho e emprego

Quando falamos em mercado de trabalho, o profissional de Medicina de Família e Comunidade tem atuação importante na Atenção Primária em Saúde, que integra políticas do Sistema Único de Saúde em locais como postos de saúde. Além disso, é possível prestar assistência em unidades hospitalares, consultórios e alguns planos de saúde.

A carga horária de trabalho pode ser de 20, 30 ou 40 horas. Em postos de saúde, o trabalho acontece das 8h às 17h de segunda à sexta, por exemplo. O salário médio é de R$ 9 mil para jornadas de 30 horas, o que pode variar dependendo da região, regime de contratação etc.

Ouça o SanarCast 09, que fala tudo sobre Medicina de Família e Comunidade:

Fabio comenta que ainda não decidiu o rumo que irá tomar em sua carreira. Ele diz que há possibilidade de virar preceptor na residência ou no internato, além de se tornar professor universitário.  

“Outra possibilidade é continuar trabalhando no SUS, no meu posto, e ser um funcionário melhor no meu trabalho após a residência. Também posso assumir o posto como PJ ou atuar na rede privada. Além disso, existe a perspectiva do [Programa] Médicos pelo Brasil, pelo governo federal, que também é uma oportunidade”. 

Da mesma forma, José afirma que as possibilidades estão abertas e que a atenção primária sempre terá vaga para quem desejar trabalhar nela.

“Estão faltando profissionais comprometidos para tirar do papel o que a Saúde da Família se propõe a fazer. É diferente de ficar atendendo 40 horas num consultório, a Saúde da Família é mais complexa”.

Conclusão sobre a rotina da residência em Medicina de Família e Comunidade

Apesar de ter dificuldades, a residência em Medicina de Família e Comunidade possui uma rotina agregadora de conhecimento, prática e contato com os pacientes.

Através dos programas, os residentes conseguem atuar em diversas áreas médicas, conhecer realidades distintas e, consequentemente, adequar o tratamento a cada pessoa.

Fábio diz que a área precisa se fortalecer, portanto, há necessidade de mais especialistas, seja para atuar como preceptores, seja para ser médico no SUS. Para quem ainda não decidiu a residência que irá fazer, ele tem um conselho.

“Mesmo se não seguir carreira em Medicina de Família, se a pessoa está indecisa, ao invés de estar trabalhando por fora, talvez valesse a pena considerar fazer residência, porque vai ter um aprendizado legal, uma titulação e pegar um pouquinho de tudo das grandes áreas da medicina. Além disso, terá mais tempo para escolher, caso queira fazer outra especialidade, e ainda ganha uma renda boa. Vai que gosta e descobre que é isso mesmo que ela quer!”, estimula.

José pondera que, se o médico acredita que a medicina é mais que uma ciência, a especialidade é uma ótima opção, pois permite ao residente ter um olhar diferenciado sobre seu serviço.

“Você é uma espécie de advogado do paciente, porque é responsável por garantir que todos os outros especialistas estejam fazendo seu trabalho da maneira correta. Muitos dizem que o trabalho de Medicina de Família é monótono, mas você pode pegar as coisas mais complexas da vida num posto de saúde, desde descobrir um câncer num estágio inicial até uma paciente gestante. Então, é uma especialidade em que algo novo sempre aparece”, define. 

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